09 de julho de 2026
Articulistas

Segundas intenções


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No dia 11 de julho seis soldados do Marrocos chegaram até a ilha espanhola de Perejil e hastearam sua bandeira, um gesto, no mínimo inesperado. Neste momento iniciou-se um dos mais tensos períodos do governo de José Maria Aznar. A Espanha não poderia ficar inerte frente a tal agressão, entretanto, de outro lado, a perda de algum soldado espanhol na retomada da ilha poderia gerar o fim prematuro da popular administração de Aznar. Da Galicia à Catalunha, o país pedia por uma resposta. O governo de Madri, depois de avaliar cuidadosamente as opções, respondeu ao gesto marroquino com a recuperação do controle da ilha seis dias depois. Logo após, foi hasteada a bandeira espanhola e a ilha foi evacuada.

Contudo, o que uma ilha espanhola do tamanho de um campo de futebol, a 200 metros da costa marroquina, tem de tão especial para gerar uma mobilização internacional onde participaram Otan, União Européia e Estados Unidos? Nada. O problema não está em Perejil. Esta foi apenas um meio de o governo de Rabat pressionar alguns países com vistas à solução de outras questões. Após intensas discussões e sob os olhos da mediação norte-americana, a ilha de Perejil recuperou seu status quo. Além disto, Marrocos e Espanha acenaram com a normalização de suas relações diplomáticas após as declarações Ana Palácio (Ministra de Assuntos Exteriores espanhola), uma vez que ambos países já não possuíam embaixadores em lados opostos.

Todos os movimentos militares e diplomáticos estão interligados nesta questão. O envolvimento da Otan, mesmo que distante, simplesmente por declarações de seu secretário-geral George Robertson, se fazia necessária, uma vez que o território de um de seus membros foi violado. Porém, a parte mais emblemática desta questão reside no papel da União Européia. Esta decisão do governo de Rabat está ligada a posição central desta contenda, o Saara ocidental.

Marrocos espera contar com o apoio norte-americano, inglês e francês para reconhecer sua soberania sobre o Saara, hoje detentor de certa autonomia. Se ainda não há uma posição concreta da UE sobre o tema, dividindo-se em quatro visões, como declarou Javier Solona (Alto Representante de Política Exterior e Segurança da UE), talvez seja possível cooptar valiosos apoios, seja dentro ou fora da UE. Logo, a tomada da pequena ilha espanhola é apenas uma cortina de fumaça que encobre uma jogada política internacional de maior envergadura.

As segundas intenções marroquinas podem ir além, e Espanha e União Européia devem estar preparadas para os próximos movimentos diplomáticos. Especula-se que a questão do Saara, se bem desenvolvida, abre caminho para as discussões acerca de Ceuta e Melilla. Contudo, quanto a isto, Madri já está se prevenindo, uma vez que triplicou a oferta de financiamento para os dois territórios. O governo espanhol pode se mobilizar frente a esta negociação na área econômica, visto que a Espanha é o segundo maior parceiro comercial do Marrocos e 38% de todos estrangeiros residentes no reino Espanhol são provenientes daquele país. Vale lembrar que a maior receita do Marrocos é a de estrangeiros que remetem recursos para seu país de origem.

Além de poder exercer esta pressão, Madri ainda pode contar com o auxílio de Washington, pois é um dos mais fiéis aliados na guerra contra o terrorismo. A invasão de Perejil pelo Marrocos ocorre pouco antes da votação da ONU acerca do Saara, logo, está foi a senha para que os líderes enxergassem um embate diplomático muito maior do que qualquer conflito militar. (O autor, Márcio Chalegre Coimbra, é advogado)