10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Dólar tem novo recorde; maior parte da população é afetada

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

As consecutivas altas do dólar - que ontem bateu o quarto recorde seguido e fechou a R$ 2,995 (para venda) - podem ter diversos reflexos na vida do cidadão comum. Entre eles está um possível corte no repasse de recursos para diversas áreas, como educação, saúde, entre outras. A inflação também pode sofrer alguma alteração, já que a economia brasileira é bastante dependente de componentes importados. A avaliação é de economistas consultados pela reportagem.

De acordo com o economista Wagner Ismanhoto, para o Governo Federal conseguir pagar as dívidas externa e interna (da qual um terço do valor é lastreado em dólar), precisará buscar dinheiro em alguma fonte. “Essas fontes sempre são os recursos destinados a áreas sociais, como educação e saúde. Então, o cidadão comum já começa a ser prejudicado nesse momento”, aponta.

Ele afirma que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a soma de alta do dólar com instabilidade econômica e política pode causar muitos danos à sociedade como um todo. “Quando as empresas de diversos setores da economia não conseguirem mais arcar com o aumento de custos, começarão a elevar os preços ao consumidor. Isso tem impacto direto na inflação, que também gera reflexos no nível de emprego”, afirma.

Importações

O economista e delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), Reinaldo César Cafeo, observa que, atualmente, o Brasil tem um volume de importação de produtos da ordem de US$ 60 milhões, o que representa cerca de 12% a 15% de tudo o que se produz no País.

“Com a disparada do dólar, esses produtos passam a valer mais na moeda brasileira, gerando uma série de reflexos na cadeia produtiva. O grande problema é que alguns componentes geram impacto em toda essa cadeia. Isso quer dizer que nos mercados concentrados, onde existem os oligopólios de determinados grupos econômicos, o resultado é a imposição do aumento de preços ao consumidor. Isso inclui o setor de serviços e as tarifas administradas, cujos contratos estão em dólar ou em IGPM (Índice Geral de Preços do Mercado). Ou seja, companhias elétricas ou de telefonia, por exemplo, podem querer um reajuste maior de tarifas”, observa Cafeo.

Outro exemplo é o caso das companhias aéreas. Com o combustível comprado em dólar e o leasing - para aquisição de aeronaves e diversos equipamentos - fixado em dólar, o aumento dos preços das passagens torna-se inevitável.

Desemprego

Uma elevação no nível de desemprego também pode ocorrer. O motivo, segundo os economistas, seria a conseqüência da competição de mercado nos mais diversos setores da economia.

“Num setor em que a competição é acirrada, dificilmente o empresário consegue repassar aumento de preços para o consumidor. O resultado é promover a diminuição da margem de lucro. Mas no momento em que isso é feito, os negócios podem entrar em sérias dificuldades financeiras e até mesmo ir à falência. O reflexo disso seriam as demissões de funcionários. Tudo isso significa desaceleração no crescimento econômico do País”, analisa Cafeo.

Além de todos esses reflexos, o preços dos combustíveis são influenciados pelo dólar, o de diversos produtos agrícolas também e mais todos os produtos e equipamentos que dependem de componentes importados. Se o dólar influenciar a inflação na economia brasileira, a Caderneta de Poupança - atual menina dos olhos de um grande número de investidores - também pode ser prejudicada.

Para Cafeo, o governo tem condições de jogar pesado para não deixar o quadro se agravar ainda mais. O superávit acumulado - em torno de R$ 3,5 bilhões - registrado no primeiro semestre deste ano seria um dos aliados nessa situação, como também, lançar mão de títulos cambiais. “Agora, o câmbio deve ser muito bem monitorado para que o dólar possa ficar, pelo menos, na faixa dos R$ 2,80", conclui o economista.

Quanto à inflação, Cafeo diz que a elevação seria mínima - como reflexo da alta do dólar -, passando de 5,8% ao ano para cerca de 6% ao ano. “No momento atual, não existe ambiente para que se tenha uma inflação de 30% ao ano, por exemplo. Contudo, dada a conjuntura atual, meio ponto percentual a mais no índice de inflação causa um mal estar tremendo, como causava no passado quando subia 10%, pondera.

Escalada do dólar

No início do Plano Real, em junho de 1994, a moeda brasileira valia R$ 1,00 para cada US$ 0,85 (sobrevalorização do real na faixa de 20%). Em 1995, época da crise mexicana, ultrapassou a barreira da paridade (R$ 1,00 X US$ 1). Quando houve o choque especulativo monetário em janeiro de 1999 e o governo ampliou a banda cambial, o real saltou de R$ 1,20 (para cada dólar) para R$ 2,10, depois se acomodou em R$ 1,98.

De lá para cá, foi sofrendo diversas desvalorizações frente à moeda norte-americana. Ontem, o dólar fechou a cotação das bolsas de valores a R$ 2,995 para venda. Segundo o economista Reinaldo César Cafeo, de 1999 para cá (dias atuais) a desvalorização acumulada (acima da inflação) do real frente ao dólar gira em torno de 40%.