08 de julho de 2026
Geral

Aposentadoria exige preparo e apoio

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

Liberdade ou uma nova prisão? O significado da aposentadoria pode tomar várias proporções na vida de um trabalhador que acaba de deixar mais de 30 anos de atividades e de repente se vê sem a rotina da cadeia produtiva.

“Eu fiquei observando que as pessoas com um pouco mais de idade me procuravam até de maneira informal e me diziam que estavam se aposentando e indo embora. Eu respondia: “Que legal, vai ficar tranqüilo”. Mas percebia que não era bem assim. Existia um sentimento de incerteza e de uma certa angústia com a situação”, argumenta o psicólogo Luiz Carlos Canêo, professor doutor em psicologia organizacional e do trabalho e coordenador do Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Estadual Paulista (CPA-Unesp).

Esse período de incerteza, motivou o professor que trabalha com esse conteúdo teórico em sala de aula a discutir com os alunos a elaboração de um projeto de extensão para associar a teoria e a prática.

O piloto foi posto em prática, em 1998, com 12 funcionários da Unesp que estavam a um ou dois anos da aposentadoria. Tempo em que as pessoas começam a vivenciar o drama. Hoje, o projeto já se transformou num Programa de Reflexão para a Aposentadoria e tem núcleos na Unesp, prefeitura municipal, Polícia Militar, e em breve ganhará um grupo no Centrinho.

A fundamentação para esse trabalho está, segundo Canêo, na construção da identidade que é exercida pelo trabalho em nossa sociedade. “Quando uma pessoa entra no processo de aposentadoria, a grande maioria relata uma sensação de incômodo e até sofrimento pela nova etapa”, revela o psicólogo, explicando que o trabalho passa a ser a referência de vida das pessoas e essa angústia representa justamente a perda deste elo. Algumas pessoas lidam bem com a situação e procuram superar o impasse, outras precisam de apoio para não perder o referencial.

O profissional cita que uma simples de abertura de crediário no comércio pode gerar este questionamento. “Quando se está empregado se diz: trabalho na Unesp, quando se aposenta: sou aposentado da Unesp, mas essa palavra aposentado pesa e gera uma série de pensamentos pejorativos como: velho, descartado, fora do mercado, e até “bagaço”. É um sentimento muito negativo, diria até de exclusão.”

Organograma

É nesse sistema produtivo, que as pessoas organizam suas vidas, horários, programas e amizades. “Na nossa sociedade capitalista, toda a identidade de uma pessoa gira em torno do trabalho. Você é o que você faz.”

Dessa maneira, o programa visa refletir essa insegurança. O pesquisador aponta que em muitos casos o trabalhador tem a preocupação em perder o seu cotidiano articulado e voltar para um contexto que já não tinha mais contato, como o dia-a-dia dentro de casa, que pode atrapalhar a rotina doméstica, fazendo com que se sinta duplamente excluído. Afinal, o professor também constatou que a família também não está preparada para este retorno.

Muitas vezes, até a fantasia invade o espaço na tentativa de reverter o ócio. Ora a pessoa quer viajar, pescar ou fazer qualquer atividade possível ou até mesmo inviável pelas condições econômicas ou de repetição que podem cansar o aposentado.

Refletindo

Para minimizar essa cisão, o grupo de reflexão inicia seu trabalho pesquisando a importância real deste trabalho e da conseqüente aposentadoria na vida do indivíduo. Dessa forma, garante-se a compreensão das aflições do grupo, sem deixar de conhecer cada participante.

Todo o processo individual é sigiloso. Mas as discussões partem sempre dos resultados predominantes no grupo. “As questões são abordadas no geral, mas cada um tem sua parcela de participação e identidade com o problema. E percebem que seu drama não é único.”

Resultados

O psicólogo Canêo revela que a idéia é espalhar as células do programa para que toda a sociedade tenha acesso a essa reflexão. Ele comenta que em alguns casos, o drama da aposentadoria pode gerar problemas como alcoolismo ou depressão. A pergunta é sempre o que será feito a partir de amanhã.

As preocupações variam da volta aos estudos à realização de sonhos profissionais simples, mas deixados de lado pela obrigação ou pela busca de um trabalho que lhe desse proventos e não prazer.

“Essa sociedade está atrelada a uma política de cobrança e de uma relação onde só o trabalho que gera valor pessoal e lucro. O que não dá lucro é desconsiderado, marginalizado. Isso contamina as pessoas”, reflete Canêo.

Por isso, o programa busca reintegrar o aposentado ao cotidiano fazendo com que ele descubra o significado da existência do trabalho em sua vida e perceba que mesmo na condição de aposentadoria, a pessoa não é “carta fora do baralho”.

Entretanto, o professor ressalta que o projeto não envolve só o lado emocional. Trabalha a vida lá fora e a relação com a família, os parentes, os vizinhos. Ensina a usar o tempo, que tanto lhe faltava, em novas vivências, de forma criativa. Orienta para qualidade biológica de vida, abordando aspectos de saúde, alimentação e exercícios. Bem como, oferece respaldo às questões burocráticas do processo de pré e pós aposentadoria.

“Não tem receita, a gente só passa a reflexão. A resposta são eles que encontram”, comemora.

Após a seqüência de encontros, há um retorno depois de um mês para checar os avanços. Um novo bate-papo ocorre dois meses mais tarde e felizmente são poucos os casos que precisam de apoio extra-reuniões.

A idéia agora é socializar o programa e a médio prazo implantá-lo em associações de bairro e empresas para erradicar o sofrimento que a aposentadoria pode provocar. â€œÉ uma questão de saúde mental, de bem viver.”

Quando floresce o ipê...

“Por aqui passei e ajudei a construir um novo tempo.” A frase na placa de bronze sob a sombra de um ipê branco simboliza a primeira turma do grupo de reflexão para a aposentadoria realizado na Unesp, em 1998, pelo coordenador do CPA, Luiz Carlos Canêo e pelas alunas Juliana Lopes e Márcia Feliciano.

Foram os 12 funcionários prestes a deixar o campus que plantaram a árvore próximo ao prédio das secretarias e bem perto da janela do oficial administrativo Eugênio Franzé, 64 anos. Há quase quatro anos é ele quem rega o ipê.

Franzé já ultrapassou 40 anos de trabalho. Só na universidade são 18, passou pela Fundação Educacional de Bauru (FEB), Universidade de Bauru (UB) e Unesp e ainda diz que tem um tempo para chegar a sua aposentadoria, em fevereiro de 2003, quando pretende judiar da sua turma.

“Eu também estou dando um tempo para meu companheiro aprender o serviço, porque se isso não acontecer eles vão me perturbar em casa. Vou até cortar o telefone”, brinca o escriturário que sempre trabalhou no arquivo.

“Todo documento que passa pela minha mão eu leio e três, quatro anos depois eu sei onde ele está.” Os companheiros de sala denunciam a memória de seu Eugênio. Ele sabe indicar onde está a ficha de um aluno que já deixou a faculdade em meio a um arquivo de 2,6 mil caixas de pastas. É capaz de indicar a prateleira e a posição da ficha.

Para Franzé, a aposentadoria representa “continuar levando a vida sem pensar que está velho”. Quer praticar esporte, fazer natação, ir a festas e se enturmar com a terceira idade, coisas que até agora não conseguiu fazer, com a tranqüilidade da missão cumprida.

Sobre a participação no programa de reflexão, o funcionário público aponta que “esse cursinho abriu a mente da gente, todas as discussões estão sendo aproveitadas desde já”.

A missão de regar o ipê que a cada agosto floresce e marca um momento trabalhado, ainda não foi delegada. Mas Franzé tem a certeza de que outros colegas irão fazê-lo com o mesmo carinho.

“Afinal, esta árvore é um pouco de cada um de nós.”

O programa na prática

Segundo as alunas que levam o programa de preparação para a aposentadoria a campo, o projeto, que é dividido em cinco módulos e dez encontros (três horas cada), com grupos de, no máximo, 12 pessoas, visa de forma específica:

• Levar o grupo a compreender a aposentadoria como um processo de mudança.

• Refletir com os participantes o significado do trabalho e da aposentadoria.

• Discutir os estereótipos existentes sobre a aposentadoria e a condição de estar aposentado, na tentativa de desmistificá-los e, assim, propiciar um maior entendimento sobre essa fase da vida.

• Mostrar a importância dos vínculos familiares e sociais, nessa etapa de transição entre o trabalho formal e a aposentadoria.

• Refletir sobre a saúde dos participantes e a importância da prevenção de determinados distúrbios característicos da terceira idade, bem como a importância de lazer e de atividades esportivas.

• Trazer informação sobre procedimentos jurídicos necessários para a requisição da aposentadoria.

• Trabalhar a elaboração de novos projetos de vida e o que é preciso para colocá-los em prática.

• Facilitar a elaboração de atividades alternativas, com enfoque no aprendizado e ajustes às novas circunstâncias.

Números e sentimentos

95% dos trabalhadores que participaram do programa de reflexão para a aposentadoria realizado na Unesp, em 98, estavam satisfeitos com seu trabalho

90% não pretendia continuar trabalhando após a aposentadoria

50% não esperava coisas boas

45% teria mais tempo para a família e os amigos

42% pensavam na oportunidade de lazer

33% iria arrumar outra ocupação

25% achava que a vida iria piorar

25% demonstrava ansiedade

21% se preocupava com o salário

16% iria dar maior assistência à família

14% temia a solidão e o deixar de fazer o que gosta