Nos bairros tidos como os mais violentos da cidade, como o Parque Jaraguá por exemplo, não é difícil encontrar relatos de criminalidade. Praticamente todo o mundo tem uma história desse tipo para contar, envolvendo a si próprio ou a parentes.
Os furtos e as ameaças são os principais tipos de violência sofrida pela população dessas localidades, que convivem com o crime na porta de casa.
Diferentemente dos bairros considerados “nobresâ€, que são atacados por criminosos de outras regiões, na periferia o ladrão tem rosto conhecido e representa uma ameaça constante. “Os que roubaram a minha casa são todos conhecidos do bairroâ€, conta Helena (nome fictício de uma moradora do Parque Jaraguá que teme ser identificada).
A residência dela foi furtada enquanto os moradores dormiam. “Limparam tudo. Os bandidos levaram até a roupa que eu lavava para foraâ€, lembra, angustiada.
Na ocasião, ela conta que comunicou o fato à polícia, indicou as pessoas que praticaram o crime, mas nada foi feito. “Até hoje eles andam aí, pelas ruas, usando inclusive a roupa que me furtaramâ€, diz a dona-de-casa.
Sentindo-se desprotegidos, muitas vezes os moradores dessas regiões periféricas preferem nem denunciar os criminosos para a polícia. “Se chamar a polícia, eles ameaçam pôr fogo na casa ou fazer coisa piorâ€, conta Joaquim (nome fictício), morador da Pousada da Esperança.
Ele destaca que a região sofre muito com a ação de bandidos do próprio bairro, mas que a população sente-se acuada para denunciar. “Uma vez, eu vi os ladrões entrando numa casa para furtar e chamei a polícia. Eles conseguiram fugir. Alguns dias depois, eles me cercaram e me bateram. Levei oito pontos no cotoveloâ€, conta Joaquim.
Ele diz que os moradores do bairro, um dos mais carentes da cidade, preferem abandonar suas casas a enfrentar os bandidos. “Só numa rua daqui eu contei 56 casas com placa de ‘Vende-se’. As pessoas acabam saindo do bairro por medo dos ladrõesâ€, salienta.
Drogas
Moradora do Parque Jaraguá há 40 anos, a dona-de-casa Ângela (nome fictício) diz que quando o bairro não tinha infra-estrutura era melhor em termos de segurança. “Naquela época, a gente vivia mais sossegado aquiâ€, lembra.
Ela diz que teve que parar de trabalhar para tomar conta de sua casa, que já foi furtada duas vezes. “O bairro é gostoso para viver, mas tem muita violência. A gente não tem sossego aqui.â€
Para garantir um pouco mais de segurança à sua residência, Ângela mandou fazer uma porta de grade para colocar na cozinha. “A segunda vez que me roubaram, eles estouraram a porta de trás de casa. Por isso, reforcei a segurançaâ€, diz.
Helena, outra moradora do bairro, atribui o alto grau de violência da região ao uso de drogas. “Aqui tem droga demais. Em toda esquina tem um traficanteâ€, salienta.
Para quem tem filho adolescente, a preocupação é redobrada. Helena conta que já enfrentou um grave problema na família. “Tem muito mau elemento aqui. Meu filho acabou sendo preso por andar com um delesâ€, destaca.
Ela conta que há cerca de dois anos, o menino pegou uma carona com um amigo, sem saber que o veículo em que estava era roubado. A polícia parou a dupla e prendeu os dois. “Meu filho entrou de gaiato na história, pois ele é um menino trabalhador e nunca se envolveu com a criminalidadeâ€, enfatiza.
Já Ângela, que tem uma filha de 15 anos de idade, diz que não deixa a menina sair sozinha de maneira alguma. “Nem com parentes e nem amiguinhas. Ela só sai de casa se for comigo.â€
Para Ana (nome fictício), também moradora do Parque Jaraguá, o que está faltando não é um policiamento mais ostensivo na região. Ela acredita que o problema é bem mais complexo e exige empenho de toda a sociedade. “Tem que fazer alguma coisa pelas crianças do bairro. Elas crescem na rua, sem estímulo para estudar, para trabalhar e acabam se envolvendo com a criminalidadeâ€, destaca.
De acordo com ela, esse empenho deveria partir da própria população local. “Se todos trabalhassem em prol da comunidade, ficaria mais fácil solucionar o problema.â€