08 de julho de 2026
Bairros

População se cala diante de ameaças

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 3 min

Nos bairros tidos como os mais violentos da cidade, como o Parque Jaraguá por exemplo, não é difícil encontrar relatos de criminalidade. Praticamente todo o mundo tem uma história desse tipo para contar, envolvendo a si próprio ou a parentes.

Os furtos e as ameaças são os principais tipos de violência sofrida pela população dessas localidades, que convivem com o crime na porta de casa.

Diferentemente dos bairros considerados “nobres”, que são atacados por criminosos de outras regiões, na periferia o ladrão tem rosto conhecido e representa uma ameaça constante. “Os que roubaram a minha casa são todos conhecidos do bairro”, conta Helena (nome fictício de uma moradora do Parque Jaraguá que teme ser identificada).

A residência dela foi furtada enquanto os moradores dormiam. “Limparam tudo. Os bandidos levaram até a roupa que eu lavava para fora”, lembra, angustiada.

Na ocasião, ela conta que comunicou o fato à polícia, indicou as pessoas que praticaram o crime, mas nada foi feito. “Até hoje eles andam aí, pelas ruas, usando inclusive a roupa que me furtaram”, diz a dona-de-casa.

Sentindo-se desprotegidos, muitas vezes os moradores dessas regiões periféricas preferem nem denunciar os criminosos para a polícia. “Se chamar a polícia, eles ameaçam pôr fogo na casa ou fazer coisa pior”, conta Joaquim (nome fictício), morador da Pousada da Esperança.

Ele destaca que a região sofre muito com a ação de bandidos do próprio bairro, mas que a população sente-se acuada para denunciar. “Uma vez, eu vi os ladrões entrando numa casa para furtar e chamei a polícia. Eles conseguiram fugir. Alguns dias depois, eles me cercaram e me bateram. Levei oito pontos no cotovelo”, conta Joaquim.

Ele diz que os moradores do bairro, um dos mais carentes da cidade, preferem abandonar suas casas a enfrentar os bandidos. “Só numa rua daqui eu contei 56 casas com placa de ‘Vende-se’. As pessoas acabam saindo do bairro por medo dos ladrões”, salienta.

Drogas

Moradora do Parque Jaraguá há 40 anos, a dona-de-casa Ângela (nome fictício) diz que quando o bairro não tinha infra-estrutura era melhor em termos de segurança. “Naquela época, a gente vivia mais sossegado aqui”, lembra.

Ela diz que teve que parar de trabalhar para tomar conta de sua casa, que já foi furtada duas vezes. “O bairro é gostoso para viver, mas tem muita violência. A gente não tem sossego aqui.”

Para garantir um pouco mais de segurança à sua residência, Ângela mandou fazer uma porta de grade para colocar na cozinha. “A segunda vez que me roubaram, eles estouraram a porta de trás de casa. Por isso, reforcei a segurança”, diz.

Helena, outra moradora do bairro, atribui o alto grau de violência da região ao uso de drogas. “Aqui tem droga demais. Em toda esquina tem um traficante”, salienta.

Para quem tem filho adolescente, a preocupação é redobrada. Helena conta que já enfrentou um grave problema na família. “Tem muito mau elemento aqui. Meu filho acabou sendo preso por andar com um deles”, destaca.

Ela conta que há cerca de dois anos, o menino pegou uma carona com um amigo, sem saber que o veículo em que estava era roubado. A polícia parou a dupla e prendeu os dois. “Meu filho entrou de gaiato na história, pois ele é um menino trabalhador e nunca se envolveu com a criminalidade”, enfatiza.

Já Ângela, que tem uma filha de 15 anos de idade, diz que não deixa a menina sair sozinha de maneira alguma. “Nem com parentes e nem amiguinhas. Ela só sai de casa se for comigo.”

Para Ana (nome fictício), também moradora do Parque Jaraguá, o que está faltando não é um policiamento mais ostensivo na região. Ela acredita que o problema é bem mais complexo e exige empenho de toda a sociedade. “Tem que fazer alguma coisa pelas crianças do bairro. Elas crescem na rua, sem estímulo para estudar, para trabalhar e acabam se envolvendo com a criminalidade”, destaca.

De acordo com ela, esse empenho deveria partir da própria população local. “Se todos trabalhassem em prol da comunidade, ficaria mais fácil solucionar o problema.”