Jaboticabal - Dezessete dias após seu nascimento, a bezerrinha Penta, o primeiro clone da América Latina, está pronta para dar continuidade aos estudos de reprodução animal da equipe do professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Jaboticabal, Joaquim Mansano Garcia. “Vamos estudar a carga genética que as mitocôndrias carregam e ver o que acontece no processo de clonagem, desde o embrião até o indivíduo adultoâ€.
O professor considera que as vantagens de se obter clones de gado nelore é o melhoramento da espécie e cita Penta como exemplo: ela nasceu em 11 de julho com 42 quilos, quase quatro a mais do que os bezerros nascidos por fecundação natural, após 290 dias de gestação, ou onze meses. A bezerrinha representa para Garcia e sua equipe o final de algumas pesquisas e início de outras. “Os melhoramentos do gado nelore serão estudados através do cloneâ€, afirma.
Penta nasceu do trabalho de uma equipe de cinco pesquisadores envolvidos diretamente e cerca de 24, indiretamente no projeto “Estudos da função e herança do DNA mitocondrial nos bovinos: um modelo animal produzido com neloreâ€, iniciado em dezembro de 1999 e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O professor explica que o objetivo principal da pesquisa é estudar a herança da mitocôndria e saber a influência que ela exerce nos animais nelore das subespécies bos-taurus-indicus, originária da Índia, e bos-taurus-taurus, originária da Europa. Garcia diz que esses animais fazem parte de uma mesma raça e diferenciam-se através da subespécie.
Segundo ele, a criação de um clone fazia parte do projeto, pois durante o estudo foi necessário a utilização de mais de 100 embriões clonados, que sofreram interrupções durante o seu desenvolvimento. Para chegar ao nascimento de Penta, 19 embriões foram colocados em 15 mães de aluguel, quatro iniciaram a gestação, mas apenas uma deu à luz a bezerrinha.
O animal não tem pai, a célula que deu origem a ela foi retirada da calda de uma fêmea nelore da subspécie bos taurus indicus, uma vaca Pura de Origem Importada (POI) que sempre teve antecedentes indianos, com 17 anos. O óvulo, cientificamente chamado de oócito, que abrigou a célula-mãe, foi de uma vaca de origem holandesa da subespécie taurus e a mãe de aluguel foi um animal de abatedouro com origem zebu, que rejeitou a bezerrinha logo após o nascimento. Para o desenvolvimento do clone, está sendo necessária uma mãe-de-leite.
Clonagem
“Com a clonagem não será mais necessária a presença do machoâ€, diverte-se Garcia. O professor explica que a célula-mãe foi colocada em um óocito anucleado, ou seja, houve a fusão de óvulo sem núcleo com a célula da pele da calda de uma vaca. O processo de fecundação é induzido através de componentes químicos.
Segundo ele, essa é uma reprodução assexuada, pois não existem contatos de gameta, a fecundação ocorre de célula para célula (no caso, da célula-mãe para o óocito receptor). “Com o advento da clonagem o indivíduo é núcleo idêntico, tem todas as características da vaca doadora da célula-mãe e seus pais são os mesmos gametas que originaram esta vacaâ€.
Garcia diz que o objetivo do trabalho é estudar a carga genética, ou seja, o DNA que a mitocôndria carrega, de forma extra nuclear, para ver o que acontece com ele no processo de clonagem. O professor revela que na fecundação normal do gado, o DNA do espermatozóide desaparece, permanecendo sempre o materno. “Existem mutações nas 13 enzimas codificadas pelo DNA mitocondrial, queremos checar se isso traz alguma vantagem entre as subespéciesâ€.
De acordo com Garcia, a mitocôndria é uma organela que se uniu a uma célula mantendo seu DNA primórdio. Essa segregação mitocondrial foi o que originou o nascimento da Penta através de células de animais adultos. A experiência foi feita para saber o que se dá com essa mitocôndria, se a célula doadora de núcleo desaparece, permanece ou reproduz mais que as outras.
O professor diz que nos embriões existem flutuações, um exemplo é o caso da própria bezerrinha, que apresenta aproximadamente 3% de mitocôndria do núcleo indicus que deu origem a ela e o restante, 97%, de origem taurus, ou seja, da vaca doadora do oócito receptor.
Ele considera que as vantagens de se obter clones de gado nelore é o melhoramento da espécie animal. “Podemos clonar um bom reprodutor que já está morrendoâ€. Por outro lado, a maior desvantagem, para ele, é a possibilidade de destruição da variabilidade genética porque os animais ficam suscetíveis aos mesmos vírus ou condições ambientais. “Os riscos de extinção da espécie são maioresâ€.
Um outro problema na clonagem apresentado por Garcia é que não existe regulamentação na área animal para a produção de clones que já estão sendo gerados em países como, por exemplo, o Canadá. Segundo ele, macacos também estão sendo clonados, o que é um passo para que esse tipo de experimento seja feito em humanos.
Quanto à clonagem humana, ele aponta a principal vantagem: terapia gênica através da constituição de órgãos e tecidos. “Nos transplantes não haverá mais rejeição, pois poderão ser retiradas células idênticas de um embrião feito através da clonagemâ€. Mas adverte sobre o problema de variabilidade da espécie e a respeito das questões sócioculturais: “clonagem humana envolve ética, filosofia e religiãoâ€, conclui.
Mitocôndrias
As mitocôndrias são organelas, ou parte de células com funções determinadas, que se uniram a uma célula numa simbiose (associação na qual os dois organismos recebem benefícios) bem sucedida. É responsável pela produção de energia ou respiração celular. Como ela se incorporou em uma célula, carregou consigo um DNA e o mantém inalterado. A herança mitocondrial é transmitida pela célula materna.