09 de julho de 2026
Articulistas

Se nós nos calarmos


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Com o título “Se nós nos calarmos...” (ou o martírio dos monges de Tibirina), René Guitton editou o livro publicado no fim do ano passado e, agora, reproduziu, em fevereiro, pelo Le Grand Livre du Mois, em Paris. De que trata esse livro?

Lembremo-nos. Em 21 de maio de 1996, sete monges foram degolados por indivíduos pertencentes, na Algéria, a uma facção que balança entre o islã e o islamismo. Que fizeram os monges? Nada, a não ser fiéis aos mandamentos da sua ordem religiosa, trapistas que eram. E a facção ortodoxa islâmica conhecida por GIA (Grupo Armado Islâmico) os executou num ritual macabro: foram degolados. Quais sejam as razões desse evento fatal, até se poderá entender ou compreender e, até, comungar, mas não se poderá calar diante desse ato bárbaro.

Eram monges, que renunciaram ao mundo, aos prazeres desta vida fútil, onde predomina o culto do dinheiro. Eles viviam fiéis a Deus, assim como ao seu engajamento monástico.

Não é difícil interpretar o que se passa na Tunísia e, em geral, no norte da África, onde se misturam as religiões oriundas de Abraão e onde a presença da Igreja, na terra islâmica, cumpre seu ministério salvífico.

Guitton, que passara toda a sua juventude naquela região, diante da selvageria macabra, procurou, com minúcia, a verdade. Fez um trabalho jornalístico de investigação, em busca das causas que levaram membros da GIA a praticar ato tão cruel.

Com o auxílio de testemunhos dos familiares das vítimas, dos monges da comunidade trapista, das mais altas autoridades religiosas, cristãs e muçulmanas, de políticos locais com sensibilidade humana, de políticos franceses de expressão, de agentes dos serviços secretos e de testemunhas anônimas, Guitton tentou elucidar o fato. Percorreu todos os labirintos franceses, marroquinos e algerianos. O resultado é surpreendente, pois o livro é o testemunho da insanidade consentida e da barbaridade com que agiram os algozes.

Constrange a qualquer ser humano que os terroristas mantiveram os monges, sob seqüestro, durante 56 dias, encarcerados e deram conhecimento da autoria e da sua macabra intenção. De nada adiantaram os apelos, as vigílias, as orações e os reclamos das consciências de milhares de pessoas de todas as confissões. Mas, insensíveis a todos, degolaram os monges, que estavam no monastério à beira do Monte Atlas para levar o perdão, a reconciliação, pois os monges se apartaram das vaidades do mundo para orar e, ali, escolheram o local, não para morrer, mas para amar.

E o fizeram, obstinados à fé que abraçaram, destinando seu sacrifício aos mais pobres, humilhados que são a cada dia pelo desprezo dos poderosos. Na homilia, em Paris, pela memória dos assassinados, o Cardeal de Paris, Lutisger, orou pelos sete irmãos trucidados, pedindo perdão por eles e, na cerimônia, apareceu uma faixa que resume tudo: “Se nós calarmos, as pedras gemerão por eles”. E, lembrando o apóstolo Lucas, concluiremos, por Christian, Christophe, Luc, Paul, Michel, Bruno-Christian e Celestin, que: “Eu vos digo a vós, meus amigos: não temais aqueles que matam o corpo e, depois disso, não podem fazer mais nada” (XII, 4). (O autor, Jayme Vita Roso, é advogado, é Conselheiro da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - ADVB -, da Federação Interamericana de Advogados (FIA) e do Instituto dos Advogados de São Paulo - IASP. e-mail: vitaroso@dialdata.com.br)