A “fórmula sagrada†da política externa dos EUA para o Oriente Médio é, atualmente, a “mudança de regimeâ€. Hamid Karzai está firmemente instalado no governo do Afeganistão, aos palestinos deu um ultimato para que substituam Yasser Arafat e, agora, a atenção norte-americana está se voltando para Sadam Hussein. Mas antes que isso siga adiante, Washington enfrenta uma singular e difícil situação. É que, talvez, deva se envolver em uma confusa mudança de regime em sua aliada Turquia.
Um velho amigo dos EUA, Bulent Ecevit, atual primeiro-ministro turco, agora é uma pessoa politicamente queimada e, já que seu governo está ficando em ruínas, converteu-se em um pesado fardo para Washington. Mas, para invadir o Iraque, Washington necessita desesperadamente da ajuda turca. O caminho mais viável para Bagdá, do ponto de vista militar, passa pelo Norte do Iraque, fronteiriço com a Turquia, e a base aérea melhor situada para servir de plataforma de lançamento nessa direção está em Incirlik, no sudoeste da Turquia, onde encontram-se estacionados 50 aviões norte-americanos de combate.
A tendência turca para cooperar com os interesses ocidentais na região não está em discussão. Os turcos tiveram papel ativo na “guerra ao terrorismo†dos EUA e, nos próximos seis meses, 1400 soldados turcos assumirão o comando da Força Internacional de Segurança no Afeganistão. O problema é que a Turquia está sofrendo pressões de vários lados. A economia continua em sua pior forma desde 1945 e, como maior devedor do Fundo Monetário Internacional (FMI), a Turquia está balançando à beira da suspensão de pagamentos. Mas o pior de tudo é que, assim como a saúde do velho Ecevit piorou muito recentemente, também sua coalizão de governo se desmorona. Uma série de defecções faz com que o partido de Ecevit passe de maior para o menor integrante do governo, o que obriga o primeiro-ministro a consentir na realização de eleições antecipadas em novembro deste ano.
Os EUA têm dificuldades para conseguir que uma renitente Turquia apóie o plano para invadir o Iraque. A Turquia teme a possibilidade de que em uma era pós-Sadam seja criado um estado autônomo curdo, o que poderia animar os 20 milhões de curdos do sul da Turquia a pressionar para obterem mais direitos fundamentais.
Com os interesses financeiros e estratégicos que estão em jogo, é provável que os EUA se comprometam a fundo na política turca. Tão logo o pró-ocidental e ex-ministro de Relações Exteriores, Ismail Cem, forme um novo partido com os desertores do partido de Ecevit, prevê-se que Washington colocará todo seu peso para apoiá-lo. E com todas as promessas de ajuda para o pagamento da dívida e de fornecimento de armas que os EUA são capazes de colocar sobre a mesa, o mais provável é que os turcos não se coloquem no caminho da invasão do Iraque. (O autor, Ian Urbina é editor-associado do Middle East Report, com sede em Washington)