08 de julho de 2026
Articulistas

Bauru Sem Limites


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O caderno do JC “Bauru 106 anos” contém duas entrevistas fundamentais para reflexões sobre a cidade que já foi “sem limites”. A historiadora Lídia Possas defendeu “o respeito às representações de bairro” e alertou para a perda da nossa identidade, enquanto a cientista política Maria Teresa Kerbauy disse da necessidade de renovação das lideranças políticas como forma de criar uma nova identidade. Aqui a elite se subdividiu em grupos, cada qual cuidando dos seus interesses, e a comunidade se sente desmotivada porque ninguém é capaz de sensibilizá-la, torná-la agente do seu próprio destino, convencendo-a de que é possível mudar a realidade. Bauru carece de “capital social”, como ensina Putnan, um autor ao qual fui introduzido pela dra. Maria Teresa. Esse capital é constituído por níveis de participação e de organização que uma sociedade possui. Se a sociedade não está tramada, na sua base, por associações de bairro, conselhos e outros tipos de organizações legitimamente constituídas a partir das bases; se ela não tem iniciativa; se a confiança social entre os grupos sociais não existe ou é pequena, a cidade não vai vencer seus desafios. Aquele sociólogo fez uma pesquisa durante 25 anos na Itália para descobrir porque uma cidade prosperava e outra não, embora com recursos equivalentes. E ele descobriu que as comunidades bem-sucedidas eram exatamente aquelas que tinham uma história de organização social, que possuíam, portanto, um estoque maior de capital social. Ninguém pode se sentir co-participe de prioridades decididas à sombra dos gabinetes. Como bem observou a historiadora, a estrada de ferro acabou e “as lideranças locais que apareceram não souberam construir uma nova representação.”

A identidade é uma obra aberta em que as colaborações são contínuas e permanentes, um processo de reconstrução constante. Em Bauru, infelizmente, é desenvolvida a partir de propostas autocráticas. Ainda se percebe a surrada política clientelista, gerada por mentes solitárias, administradas por estruturas de hierarquia verticalizada e controladas por uma burocracia que se alimenta das carências que supostamente quer suprir. Falta capital humano, incentivo à formação de parcerias que ampliem uma esfera pública não-estatal para descentralizar a gestão, distribuir o poder e estimular o co-governo, única forma de democratizar procedimentos. É verdade que os prefeitos gastam energia para administrar as futricas do dia-a-dia e não dispõem de tempo a perder nos meandros da moderna administração pública. Isso requer profissionais com dedicação exclusiva, que possuam uma sólida base teórica e prática para inovar e reinventar os padrões que já deveriam ter ficado no passado. Bauru está cheia de cabeças-pensantes dispostas a colaborar com a cidade.

O vereador também não é culpado, pois ele é fruto de um ambiente e de uma cultura política maior que o compele a agir assim. As câmaras se tornaram escritórios de despachantes e os vereadores se elegem através da corrente clientelista da intermediação política.

Democracia é uma rede de convivência, uma rede pactuada de conversações para resolver os conflitos, ao invés de procurar soluções pela imposição da força, de cima para baixo. Cooperação é a emoção que nos leva a acolher o outro no nosso próprio espaço de vida e, portanto, fazer coisas junto com ele, compartilhando valores e objetivos. Desenvolvimento é uma fórmula que cada localidade cria para se expressar no mundo. Desenvolvimento não existe porque, de repente, uma cidade tem muitos prédios, ou tem hospital, ou tem asfalto, ou penitenciárias. Isso é um efeito, às vezes até indesejável em certas situações. O que a cidade precisa é encontrar sua vocação e desenvolver suas potencialidades. Bauru já teve a sua simbologia na ferrovia, na filantropia, na aviação, no abacaxi, nos meios de comunicação. Agora não tem mais nada. Precisamos fazer como a Vila Vicentina que para sobreviver inventou um churrasco, hoje tradicional e substancial para o seu custeio. Marília desenvolveu uma indústria alimentícia fortíssima a partir do tacho de cobre e do macarrão fabricado manualmente.

É verdade que isso tudo não se faz por decreto mas, um governo pode induzir, atuar em parceria com a sociedade, descobrir fórmulas, relações sinérgicas novas e mais inteligentes entre os atores. A cooperação é uma característica constitutiva do ser humano. A competição não é. O que nos tornou humanos foi a capacidade de desenvolver uma emocionalidade cooperativa. Dói pensar que Bauru já teve tudo isso. Agora é correr atrás do elo perdido. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)