A carência de uma posição ideológica clara e definida nos partidos brasileiros faz com que o eleitorado perca a confiança e caminhe para a desilusão política.
Para a historiadora Sônia Mozer, essa constatação pode ser comparada de maneira simples.
â€œÉ muito difícil uma criança corintiana tornar-se um adulto palmeirense. Somos firmes na escolha do nosso time de futebol. Perdendo ou ganhando, nós estamos com eleâ€, exemplifica.
Ela afirma, porém, que essa fidelidade em relação ao partidos políticos não existe.
“Nossos partidos não têm essa definição ideológica e nem existe essa fidelidade partidária. É impossível que uma pessoa seja de esquerda hoje, de direita ontem e de centro amanhãâ€, diz.
Sônia avalia que o grande eleitorado não consegue fazer essa leitura política.
“A política é muito personalista. As pessoas estão acostumadas a votar não em partidos, idéias ou programas, mas em pessoas.â€
Ela não acredita que uma eventual reforma político-partidária consiga inverter a atual situação.
“Uma definição ideológica dos partidos é mais importante do que uma reforma partidária que diminua ou aumente o número de legenda.â€
A historiadora defende que, “aparentementeâ€, a definição de esquerda e direita perdeu força após o esfacelamento da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
“Entretanto, ainda continua a haver posições de mudanças e posições conservadoras, que vulgarmente você pode chamar de esquerda e direitaâ€, avalia.
Crise de identidade
Já o historiador João Francisco Tidei de Lima acha que o País atravessa uma crise de identidade política. “O Brasil não tem uma tradição democrática. Nossa tradição é oligárquica e autoritáriaâ€, opina.
Ele diz que o funcionamento dos partidos brasileiros com suas respectivas plataformas, desde à esquerda até a direita, foi muito breve.
“Ele se deu durante intervalos entre regimes autoritários, de uma forma sem continuidade, atropelado por golpes, crises institucionais.â€
O historiador diz ter dúvidas de que a bagunça ideológica que assola o País tenha como protagonista a globalização.
“Muitos falam da globalização, encarada como uma nova divisão internacional do trabalho, falam das fronteiras nacionais que estão sendo ignoradas, que o nacionalismo está em baixaâ€, analisa.
Mas Lima lembra que as últimas eleições na França foram marcadas “profundamente†pela ideologia.
“Foi uma eleição ideologizada. Então, eu discordo de que as ideologias não existem mais.†Ele complementa argumentando que a França também está sob os efeitos da globalização e é de primeiro mundo.
“A França não está fora da globalização. E no entanto, as eleições francesas revelaram uma profunda ideologização.â€
Para o historiador, não é possível atribuir o atual quadro político brasileiro a uma nova realidade. “Eu acho que o principal problema é a falta de uma cultura democrática que nós não temos.â€