08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Ingerência consentida


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De uns oito anos para cá, minha situação econômica deteriorou-se muito, beirando a insolvência. Estudei várias saídas e quando nada mais me restava, fui aos bancos, às financeiras e aos agiotas. Levantei o que pude e de peito estufado, voltei a sorrir, todo “pimpão”. Observava meus parentes, vizinhos e amigos invejando minha privilegiada situação. Porém, a bonança pouco durou. Tapei todos os buracos possíveis, promovi festas, embalos e coisas do gênero. Nada fiz de concreto para não retornar à situação anterior. Voltei à estaca zero, pior do que antes.

Se já existiam poucas saídas, agora encontrava-me num beco sem saída. Meus credores perderam a docilidade, estavam cada vez mais ousados. Não ligavam mais cobrando, já enviavam emissários à minha porta e, diante de minha irredutibilidade, vieram pessoalmente. Sondaram minha vida, levantaram meus bens e vieram com propostas cada vez mais indecentes. O cerco estava se fechando. Da última vez, um deles instalou-se em meu sofá, ligou minha TV num programa que odeio assistir, dizendo só arredar pé com “dim-dim” no bolso. Passou a comer, beber e dormir às minhas custas, já olhando para minha esposa com gulosos olhos. Outros foram cercando o quarteirão, meus passos eram seguidos dia e noite, verdadeiro reality show.

Com a privacidade totalmente comprometida, precisava dar um basta em tudo. Mas como? Eles eram numerosos, muito mais poderosos. Teria que ser um plano daqueles. Matutei muito, criei coragem, reuni todos na sala, comunicando-lhes que, a partir daquele momento, estava decretada a minha moratória, concordata, falência, ou qualquer outra coisa. Seria o calote. A princípio demonstraram um certo choque, recompondo-se rapidamente, tomando uma decisão em conjunto, que foi fixada num quadro bem visível, no centro da sala: “O dono dessa residência é aquele que tem moeda forte. No mundo das finanças globalizadas e desreguladas, aqueles que dependem do investimento externo para rolagem de suas dívidas privadas e públicas não podem discutir, nem muito menos alterar as políticas impostas pelos credores. Querendo sobreviver é de bom alvitre aceitar calado a interferência das organizações internacionais e dos Estados estrangeiros.” (Conselhos dados por Robert Cooper, fiel escudeiro do inglês Tony Blair, explicando para a turba o funcionamento do novo imperialismo anglo-americano.)

Como bom brasileiro que sou, cordial ao extremo, não gostando de briga, só indo às ruas quando o assunto é futebol, aceitei tudo pacificamente. Já nem voto mais qual vai ser o cardápio do próximo almoço. Agora, só me resta trabalhar (e muito), receber e repassar tudo para os novos administradores do pedaço, que sabem melhor do que eu como proceder e gerir meu negócio e minha vida. (Henrique Perazzi de Aquino - RG: 9.710.205-2)