Coloridas, divertidas e inofensivas. Até pouco tempo atrás, as pipas eram vistas como inocente brincadeira de criança. No entanto, um ingrediente transformou esse passatempo em caso de polícia e classificou as pipas como perigosas armas nas mãos de crianças. O cerol - uma mistura de cola e caco de vidro ou pó de ferro - , usado para cortar as pipas “concorrentesâ€, tem causado diversos acidentes, levando algumas pessoas à morte.
Para tentar amenizar o perigo das linhas de pipa, a Polícia Militar (PM) determinou, com o aval do juiz da Infância e da Juventude, Ubirajara Maitinguer, a apreensão de menores que estejam utilizando cerol para brincar.
De acordo com o coordenador operacional interino do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPMI), capitão Manoel Messias Mello, a medida foi necessária já que somente as orientações dadas pelos policiais às crianças não estavam surtindo efeito. “Já estávamos fazendo um trabalho preventivo, recolhendo as latas com cerol e aconselhando os menores a não usar mais a substância. Mas esse esforço não foi suficienteâ€, explica o capitão.
Como são inimputáveis, os menores que forem pêgos com o cerol poderão responder por ato infracional, por ferir o artigo 132 do Código Penal, que discorre sobre o fato de colocar a vida de outras pessoas em perigo. Já os pais serão responsabilizados pelo artigo 249 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por faltar com o dever do pátrio poder, ou seja, permitir que seus filhos violem o Código Penal.
“Todas as viaturas estão orientadas a conduzir os menores e seu responsável para a delegacia no caso de surpreendê-los com o cerolâ€, frisa o capitão da PM.
Ele explica que o trabalho da polícia será realizado durante o patrulhamento de rotina nos bairros.
Antecipando-se à determinação, alguns policiais já estavam fazendo a apreensão das linhas com cerol, sem no entanto conduzir o usuário para a delegacia. O sargento Edson Borges, supervisor da Base Comunitária Leste, por exemplo, conta que chegou a apreender 150 latas de linha com cerol em um único dia nas ruas. "Nós chamávamos as crianças e os adolescentes que estavam usando a substância e explicávamos para eles o poder de corte do material", esclarece.
Alguns jovens negavam que estariam utilizando cerol para empinar pipa, mas a linha afiada e pequenos cortes nas mãos deles detectavam o material.
Morte
A linha da pipa com cerol fica tão afiada que tem o poder de degolar uma pessoa. Foi o que quase aconteceu com o motociclista Roberto Carlos Fagundes, 34 anos, no último dia 27. Ele trafegava pela avenida Jânio Quadros, no Jardim Godoy, quando ficou enroscado em uma dessas linhas.
Com o impacto, Fagundes sofreu um corte profundo no pescoço, mas conseguiu sobreviver. Ele mesmo foi pilotando a moto até o pronto-socorro, onde recebeu atendimento e suturou o ferimento.
Se tivesse com uma velocidade um pouco maior, o motociclista poderia ter morrido, como afirmaram os enfermeiros que o atenderam.
A mesma sorte não teve Erinaldo Batista Tavares. Em janeiro de 1999, ele foi atingido por uma linha de pipa na avenida Elias Miguel Maluf e teve a veia jugular atingida. O motociclista foi socorrido, mas não resistiu e morreu antes de chegar ao pronto-socorro.
O número de pessoas atingidas pelas linhas de pipa pode ser muito maior do que realmente aparece. Muitas vezes, o cerol não chega a causar ferimentos graves e a vítima não registra queixa ou mesmo procura o hospital. Mas, de qualquer forma, acaba sendo exposta ao risco.
Hipnotizados
Outro perigo proporcionado pela brincadeira de empinar pipa é o de atropelamento. No entusiasmo de resgatar o papagaio que está caindo, as crianças correm pelas ruas, olhando para o céu, sem se preocupar com o que está pela frente. “A gente nem vê os carros. Eles é que têm que parar para não atropelar ninguémâ€, diz um garoto de 9 anos, morador da Vila Nova Esperança e fã incondicional das pipas.
No último final de semana, um ônibus não conseguiu frear a tempo e acabou matando o estudante Alexandro Leonardo Mendes de Souza, de 17 anos. O motorista do circular disse aos policiais que ainda tentou desviar do rapaz, mas não foi possível.
Em busca de uma pipa, Alexandro seguia de bicicleta em alta velocidade pela rua. Ao chegar a um cruzamento, o estudante teria tentado brecar, mas a bicicleta empinou e o jogou no chão, bem na frente do circular.
De acordo com o tenente Jorge Luiz Dias, comandante do Pelotão de Trânsito de Bauru, é muito difícil para a polícia fazer um trabalho ostensivo tentando prevenir esse tipo de acidente. “A polícia não é onipresente. A gente precisa da ajuda dos pais, que devem orientar os filhos para tomar cuidado nas ruasâ€, esclarece o comandante.
Ele diz que as crianças costumam ficar tão “hipnotizadas†quando vêem uma pipa caindo que não importa o que tem na frente. “Por mais que o motorista seja cuidadoso, às vezes fica difícil adivinhar que um menino vai cruzar o seu caminhoâ€, destaca.
A rede de energia elétrica também acaba sendo alvo da brincadeira. Somente no mês de julho, a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) registrou 48 desligamentos de energia por causa de incidentes com pipas. "Mais de 10 mil pessoas foram atingidas em decorrência disso", destaca o gerente de serviço de campo da região noroeste da CPFL, Wilson Maldonado.
O prejuízo não é só material. O risco de choques pode colocar em perigo a vida de quem se arrisca a empinar pipa próximo dos fios da rede elétrica.
Antena
Tentando se proteger das linhas com cerol, muitos motociclistas estão adotando um novo acessório no seu veículo. Trata-se de antenas para guidão. Elas funcionam como um pára-raios, segurando a linha e quebrando-a antes que ela atinja o pescoço do condutor.
O equipamento está sendo muito procurado na cidade. Em apenas cinco dias, uma loja de equipamentos para motos chegou a vender 100 unidades do produto.
Mesmo assim, ela não é garantia de segurança, segundo o motociclista Marcos da Silva Rio. Ele adotou a antena, mas ainda teme uma linha no meio do caminho. “Dependendo do jeito que eu cruzar com a linha, a antena pode não ser tão útil assimâ€, ressalta.