08 de julho de 2026
Bairros

Usar cerol agora é considerado crime

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

Não basta ver o colorido das pipas no céu. As crianças e adolescentes buscam mais emoção e travam uma verdadeira “batalha aérea” com os colegas, usando a sua pipa para derrubar a do companheiro. O jogo até poderia ser divertido, não fosse por um agravante. A substância usada para “tirar relo” (expressão usada pela garotada para definir a disputa) deixa a linha da pipa muito perigosa e mortal.

Conhecida como cerol, a mistura extremamente cortante pode ser uma arma nas ruas e locais de movimento de motos e bicicletas. Isso porque o pó de vidro e a cola usados no preparo do produto deixam a linha tão afiada que ela tem o poder de degolar uma pessoa.

O motociclista Roberto Carlos Fagundes, 34 anos, sentiu na pele essa possibilidade. Ele sofreu um profundo corte no pescoço, no último dia 27, ao passar com a sua moto na avenida Jânio Quadros, no Jardim Godoy. Uma linha com cortante se enroscou em seu pescoço e ainda causou escoriações nos ombros. A vítima conseguiu romper a linha com a mão e se dirigiu ao pronto-socorro.

Lá foi constatado que, se ele estivesse trafegando com uma velocidade um pouco maior, o acidente poderia ter sido fatal.

O entregador Marcos da Silva Rio, 26 anos, passou pelo mesmo susto há três anos. Ele estava com sua moto no Jardim Bela Vista quando sentiu a linha no pescoço. “Eu parei a moto para me desenroscar e acabei cortando o dedo”, conta.

Para a “sorte” dele, o ferimento mais grave foi na mão e não no pescoço. “Ainda bem que eu estava subindo a rua e a velocidade era menor”, constata.

Já o programador de computador Clériston Aparecido Gomes Martinelo, 19 anos, foi “atropelado” por uma linha com cerol no último dia 27, também no Jardim Bela Vista. Embora não tenha se ferido, ele ficou revoltado com a situação. “Nós não temos segurança para andar nas ruas. A qualquer momento, podemos ser surpreendidos por essas linhas”, conta.

Ele diz que tentou reclamar com o rapaz que empinava a pipa, mas teve como resposta a indiferença. “Ele me ignorou e fingiu que nem estava ouvindo o que eu estava falando”, frisa.

Além de ter deixado uma marca no joelho do motociclista, a linha riscou o tanque de combustível e a placa com a marca da moto. “Imagine só o poder de fogo dessa linha. Se riscou o acessório da moto, poderia ter me matado”, salienta Martinelo.

Foi o que aconteceu com o motociclista Erinaldo Batista Tavares, em 1999. Ele foi atingido por uma linha com cerol na avenida Elias Miguel Maluf, e morreu antes de chegar ao hospital.

Na época, o menor que estava com a linha que feriu Tavares foi encaminhado para a delegacia, onde foi lavrado um ato infracional por homicídio culposo.

Código Penal

Tentando fazer um trabalho preventivo, muitos policiais já estavam, há cerca de dois meses, recolhendo latas de linha com cerol, encontradas com crianças nas ruas.

De acordo com o sargento Edson Borges, supervisor da Base Comunitária Leste da Polícia Militar, eram retiradas uma média de 20 latas por dia na sua região. “Durante a apreensão, nós procurávamos orientá-los sobre o perigo do cerol”, conta.

A medida fez com diminuísse o número de linhas com cortante, segundo o sargento, mas não resolveu o problema. “Teve época que a gente chegou a pegar 150 latas de linhas com cerol em um dia nas ruas”, salienta o sargento.

O Conselho Tutelar da estância de Barra Bonita também realizou o trabalho de recolhimento das latas com cerol no mês passado. De acordo com o conselheiro Paulo César Benjamin, o objetivo é prevenir acidentes. “Nós já apreendemos mais de 100 pipas”, ressalta.

A polícia e o Juizado da Infância e da Adolescência de Bauru decidiram tomar medidas mais duras. Na última segunda-feira, foi baixada uma determinação para que os policiais, em patrulhamento ou em buscas diretas, apreendessem não só as latas com as linhas, mas também seus usuários.

Segundo explica o capitão Manoel Messias Mello, coordenador operacional interino do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPMI), a medida foi necessária devido à gravidade do problema. “Nós tentamos fazer um trabalho meramente de orientação, mas não foi suficiente. Então, tivemos que adotar medidas mais drásticas”, salienta.

O adolescente flagrado utilizando o cerol em sua linha deverá ser encaminhado para a delegacia, juntamente com os pais, para ser lavrado o ato infracional, baseado no artigo 132 do Código Penal, que discorre sobre o ato de colocar a vida de outra pessoa em perigo. Como é inimputável, o menor não será penalizado. Mas seus pais serão qualificados no artigo 249 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por descumprimento do dever do pátrio poder, ou seja, por ter permitido que seus filhos brinquem com substância perigosa.

Como penalidade, eles terão que pagar uma multa que pode variar de três a 20 salários de referência - em valores atuais, de R$ 600,00 a R$ 4 mil. Dependendo do caso, o menor poderá também ser penalizado com medidas sócio-educativas.

Difícil coibir

Para Sandra, mãe de um adolescente de 14 anos, é muito complicado para os pais proibirem os filhos de usar cerol. Ela, que preferiu não divulgar o sobrenome, diz que está encontrando muita dificuldade para evitar que seu filho brinque com a substância. “Não tem jeito. Se ele não usa o cerol, os outros cortam a pipa dele”, salienta.

Ela diz que o menino chega em casa nervoso pois não consegue brincar sossegado. “Ele não estava usando o cerol, mas não conseguia colocar o brinquedo no ar. Logo vinha alguém com cerol e derrubava a pipa”, destaca.

Mesmo contra a orientação dela, o menino conseguiu cerol na rua e usou na linha. “A gente vê criança de oito anos fazendo a substância. Eles pegam lâmpadas ou garrafas do lixo e preparam o cerol”, conta.

Frustrada diante da falta de controle da situação, Sandra sugere que sejam proibidas as pipas em Bauru. Ela considera que este é um brinquedo extremamente perigoso e que não há como segurar o filho para que não brinque também. “A criançada não acha que é errado usar o cerol. E não adianta você segurar o seu filho se os outros pais não fazem o mesmo.”