08 de julho de 2026
Articulistas

Sem palpites


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Com a crise, só mesmo um irresponsável pode arriscar palpite na eleição presidencial. Atenção: esta eleição pode ser diferente de todas as demais. Parece que ela vai ocorrer num clima de violenta turbulência econômico-financeira. Um cenário que muda o comportamento do eleitorado e dos próprios candidatos. Neste clima de terror, eleitores e candidatos são levados a adotar outra maneira de proceder. O ritmo muda, o ambiente fica mais emocional, o tom do debate sobe, os nervos ficam à flor da pele.

Se tudo funcionasse como o previsto, estariam nas melhores posições os dois candidatos que representam as maiores forças políticas constituídas — o governo, através da candidatura tucana de José Serra, e a oposição, na figura do PT e de Lula. No começo da movimentação eleitoral, até se imaginava que o embate final seria mesmo entre as duas forças. Mas logo o cenário foi se alterando. Aconteceu o episódio Roseana Sarney; depois apareceu Anthony Garotinho. José Serra conseguiu se aprumar um pouco. Mas apareceu Ciro Gomes para dar uma nova mexida na posição dos candidatos. Agora Ciro pode ameaçar até o primeiro lugar, sempre ocupado, de forma olímpica, por Lula.

Mesmo os que gostam de prever o passado, de arengarem que já tinham alertado para que determinado fato iria acontecer, não imaginaram que dois candidatos da oposição podem disputar o segundo turno. De acordo com as indicações das pesquisas de hoje iriam para o segundo turno Lula e Ciro Gomes, o que já demonstra a estranheza da situação, já que os representantes das forças conservadoras não aparecem nesses números colhidos juntos à população. Onde andará a direita e os governistas que não aparecem nas pesquisas. Pode ser que estejam todos escondidos na candidatura de Ciro Gomes, “ o melhor candidato do governo na oposição”.

São perguntas que não podem deixar de ser feitas. Será que o governo conseguiu uma impopularidade tal que foi raspado, excluído dos primeiros lugares da corrida? Será que José Serra ficará mesmo disputando a lanterna com Garotinho? Se houvesse alguma coerência no processo esta idéia não poderia passar pela cabeça dos mais ajuizados. O governo não é de quatro, é de oito anos. Tem uma máquina respeitável. Palanques em quase todos os Estados. Mas mesmo assim a campanha governista vai mal.

É mais uma prova de que só os irresponsáveis podem, nesse momento, arriscar qualquer palpite sobre o desfecho da sucessão presidencial. Ninguém sabe o que vai acontecer na próxima semana. Ninguém tem a menor idéia se nós estaremos ou não solventes no dia da eleição. Tudo muda com uma rapidez espantosa, tomando de surpresa todo os envolvidos. De certo apenas é que nós vamos ficando desmoralizados cada dia mais. A declaração do secretário do Tesouro norte-americano, Paul O’Neill, recomendando que Brasil e Argentina ponham em prática “políticas que assegurem que o dinheiro que recebem seja bem aproveitado e não saia do país direto para uma conta na Suíça”, dá bem a idéia de como nós estamos sendo tratados pelo nosso grande irmão do Norte. Nós que, com muita arrogância, não admitíamos comparações com a Argentina, somos agora colocados no mesmo embrulho da forma mais negativa. O’Neill usou como referência, para a citação em conjunto, a figura exótica do ex-presidente argentino, Carlos Menem, acusado de facilitar o contrabando de armas na época que mantinha a paridade do peso com o dólar e era elogiado por Fernando Henrique e por economistas de nomeada que ditavam regras das suas torres de cristal. São tempos difíceis os de agora, que não deixam imaginar quem pode ser o novo presidente. E que já levaram muitos programas de governo para a lixeira. (O autor, Fernando José Dias da Silva, é jornalista)