O tenente Jorge Luis Dias enxerga na criação de um conselho municipal a possibilidade de estabelecer maior envolvimento da comunidade bauruense no debate de questões relativas ao aumento da segurança do trânsito local.
Ele afirma que várias campanhas e programas educativos têm sido desenvolvidos ao longo dos anos visando reduzir os acidentes e mortes no trânsito em Bauru. Entretanto, acrescenta ele, tais iniciativas ainda ocorrem em periodicidades reduzidas e atingem parcelas pequenas da comunidade.
“A Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) e a PM têm feito campanhas, mas não existe uma continuidade adequada, pois chega-se a ficar até quatro meses sem elas e poucos acabam se conscientizandoâ€, diz Dias. Por essa razão, segundo o tenente, faz-se necessário a participação de um número maior de pessoas e órgãos nas promoções de campanhas periódicas e no combate às causas geradoras de acidentes.
Tal objetivo poderia ser alcançado pelo conselho que, na visão do tenente, deveria ser composto por representantes da Emdurb, PM, Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) e associações de auto escolas e despachantes. “Hoje as pessoas morrem e poucos se importam com isso, como a própria família ou um ou outro órgão. Entretanto, não se vai a fundo para saber os motivos da morte a fim de evitar que o fato se repitaâ€, considera ele.
Assim, complementa Dias, caberia ao conselho de trânsito buscar soluções e propor atividades mensais de orientações à comunidade para abordar temas como a falta do cinto de segurança, a direção sob o efeito do álcool e o excesso de velocidade. “São causas de acidentes que, quando não matam, agravam a situação das vítimasâ€, destaca ele.
Exemplo dos Consegs
O conselho seguiria os mesmos moldes daqueles já existentes e voltados à segurança, os Consegs, que, segundo o tenente, vêm obtendo resultados positivos. “Com eles, a Polícia Militar não está mais sozinha no combate ao crimeâ€, afirma Dias.
O tenente salienta que a proposta é apenas uma intenção, mas a iniciativa de sua criação poderia partir de qualquer pessoa e até mesmo da PM, Emdurb ou Ciretran. “Entretanto, segundo informações, o órgão competente para tal finalidade seria o Poder Executivo. Mas pretendemos levar a idéia ao comando da PM e, mediante este aval, estaremos montando a proposta para apresentá-la à Prefeituraâ€, revela ele.
Dias conclui fazendo uma sugestão. “Através de uma lei municipal que criasse o conselho, este poderia até repassar parte dos recursos arrecadados com as autuações às campanhas de educação no trânsitoâ€, finaliza ele.
A reportagem do JC consultou, na segunda-feira, 5, a assessoria de imprensa da Prefeitura solicitando a opinião do chefe do Executivo a respeito da possibilidade de criação do conselho. Entretanto, até o fechamento desta edição, na tarde de quarta-feira, não houve resposta.
Apoio
A idéia da criação de um conselho é bem recebida por familiares de vítimas fatais do trânsito em Bauru. É o caso da dona-de-casa Dulcinéia Garcia Greatti e do caminhoneiro Léo Greatti Neto. O casal teve, em julho de 2000, um filho de 22 anos morto após o carro, um Gol, em que se encontrava como passageiro bater em um poste.
Mesmo já tendo se passado quase dois anos, ainda é difícil para o casal falar sobre o episódio, que os marcou profundamente e os faz sofrer até hoje. “Para nós foi traumático, pois ele era um rapaz que não bebia, não usava drogas, trabalhava e estudava. Ainda passamos dificuldades e, vendo o que acontece hoje no trânsito, nos recordamos do que já passamos e nos colocamos no lugar de outros pais que devem estar sofrendoâ€, diz Dulcinéia.
Léo, que até hoje não se conforma com o fato dos supostos culpados pelo acidente que vitimou seu filho sequer terem sido presos ou julgados, acrescenta que a experiência, além de extremamente desagradável, é impossível de ser relatada com exatidão. â€œÉ difícil e não tem nem como falar. Só quem passa por isso que sabe o que éâ€, resume ele.
Por ser caminhoneiro, Léo afirma que anda pouco nas ruas bauruenses, mas o suficiente para presenciar abusos. “Principalmente dos jovens durante os finais de semanaâ€, conta Léo.
Para Dulcinéia, a luta pela conscientização deve envolver o conselho e, principalmente, as famílias das vítimas. Exemplo disso é que o casal, após o acidente, concordou em expor o carro batido em plena avenida Getúlio Vargas. “Muitas não gostam de expor, mas tal atitude para nós não ajuda, pois não irá trazer nosso filho de volta. Serve de exemplo e, se pelo menos uma pessoa se conscientizar, já terá valido a penaâ€, enfatiza ela.
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Penas mais severas
O vereador bauruense Luiz Carlos Valle (PSB) é outro que também já experimentou o gosto amargo e cruel de perder um filho, de 20 anos e que havia acabado de ingressar na universidade, em um acidente na cidade.
Para Valle, a criação do conselho é uma idéia excelente e emergencial. “Vejo-o como algo importante e urgente, pois tudo que for implementado como política de diminuição de acidentes e discussão dos problemas que levam ao aumento do número de mortes deve ser estimuladoâ€, afirma ele.
Segundo o vereador, existe um certo descaso do Congresso Nacional com o trânsito no País, responsável, conforme Valle, por mais mortes do que doenças como o câncer e a aids. “Morte no Brasil é uma guerraâ€, define Valle. Ele acrescenta que modificações nas leis de trânsito, como a obrigatoriedade do uso do cinto, melhoraram os índices do setor, mas muito ainda precisa ser mudado.
Para o socialista, o Brasil precisa combater a impunidade e de uma legislação mais severa aos infratores. “Nos Estados Unidos, uma pessoa detida embriagada ao volante imediatamente é presa. Já no nosso País, poucos são punidos. Colabora para isso a falta de aparelhamento da polícia, que deveria possuir bafômetrosâ€, destaca Valle. E complementa: “Os que dirigem embriagados deveriam até ser presos, pois tem ceifado milhares de vidas.â€
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Auxílio mútuo
Dados da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social informam que muitas pessoas tornaram-se portadoras de deficiências físicas em virtude de acidentes automobilísticos. Segundo o último censo a respeito, realizado em 1994 em Bauru, cerca de 1,5% - aproximadamente 5 mil pessoas - da população local é portadora de alguma deficiência física.
Apesar disso, na lista de prioridades da política municipal da própria Secretaria, os deficientes ocupam apenas o quinto lugar. A reportagem do JC procurou, na segunda-feira, 5, a assessoria de imprensa da Prefeitura solicitando a opinião da secretaria do Bem-Estar sobre o assunto e à respeito do conselho de trânsito. Entretanto, até o fechamento desta edição, na tarde de quarta-feira, não houve resposta.
Para o presidente do Conselho Municipal da Pessoa Deficiente (Comud), Francisco Takao Kajino, o conselho de trânsito já deveria existir há muito mais tempo e poderá criar uma relação de auxílio mútuo. â€œÉ um órgão que poderá discutir e nortear o que tem de ser feito na solução de vários problemas da cidadeâ€, considera ele.
Kajino enfatiza que o conselho de trânsito poderia trabalhar para alertar os motoristas sobre o mau uso do estacionamento reservado aos deficientes físicos. “Muitos os ignoram e a Polícia, que se esforça muito para conscientizar a população, muitas vezes fica receosa de fiscalizar tal atitude, pois não existe uma legislação a respeito, apenas um decreto municipal que regulamentou o assuntoâ€, diz o presidente.
Outro assunto abordado pelo conselho, segundo Kajino, poderia ser a forma de uso dos sinais de trânsito pelos deficientes visuais. “O ideal seria a existência de avisos sonorosâ€, conclui ele.