No domingo, dia 4 de agosto, tivemos a rara oportunidade de rever o bispo emérito de Bauru, d. Cândido Padin, que celebrou juntamente com o bispo d. Luiz Antonio Guedes e diversos sacerdotes a missa das 19 horas, na Catedral do Divino Espírito Santo. Quem não participou, perdeu. Perdeu momento de profunda riqueza espiritual proporcionado pelo pastor que faz da sua vida um engajamento permanente pela Igreja testemunhando os autênticos valores evangélicos.
Na homilia, d. Padin foi enfático ao abordar a campanha pela superação da fome. Exortou os fiéis a participarem do mutirão que fortalece os laços da fraternidade e da solidariedade dos seus participantes na solução desse grave problema que assola o Brasil e outros povos do mundo, especialmente da África. Quem não assistiu, perdeu. Perdeu uma autêntica aula de Economia e Humanismo dentro da maior fidelidade ao Evangelho.
Não basta, ensinou o bispo emérito, a cesta básica. Ela é importante para mitigar, momentaneamente, a fome, mas é necessário tomar consciência de que as estruturas iníquas em que vivemos têm de ser transformadas para que não haja mais tanta miséria e degradação da dignidade humana.
Em seguida conclamou a todos a se engajarem na luta pela transformação da sociedade, tornando-a mais humana e mais justa, onde não haja mais tanta concentração de riqueza nas mãos de uns poucos enquanto milhões de seres são atirados na pobreza e na marginalidade. Quem não ouviu perdeu. Perdeu a mais genuína lição de fé e política.
Após a cerimônia, d. Padin fez o lançamento de seu livro “Itinerário de uma vidaâ€, editado pela Edusc, no qual relata fatos marcantes de seu apostolado nestes longos anos de sacerdócio. Outras lições de modéstia e plenitude de vida cristã fluem do texto que vale a pena conhecer, especialmente quando ensina que... “Se ainda restarem alguns fiapos da sua fé, agarre-se a eles, pois são fiapos de um tecido muito forte que resiste a esses embates. É o tecido da coragem viril, que se robustece na medida em que é usado. Ao contrário, o abatimento e o medo de enfrentar as contradições consomem as últimas forças de resistênciaâ€.
Um dos mais ilustres bispos do Brasil e da América Latina, conhecido para além destas fronteiras, exerceu diversos cargos na hierarquia da Igreja. Foi participante ativo do Concílio Vaticano II, exerceu importantes funções no Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano), participou da Conferência de Medellin, foi vice-reitor da PUC-SP para a Pastoral, participou da III Conferência dos Bispos da América Latina - As Conclusões de Puebla e Medellin e do Congresso de Teólogos do Terceiro Mundo, em Ghana, entre outras atividades internacionais.
Lição de coragem e fidelidade ao Evangelho, d. Padin nos ofereceu no período da ditadura militar, quando teve papel destacado na defesa dos postulados democráticos, insurgindo-se contra a famigerada Lei de Segurança Nacional sendo por isso perseguido e marcado pelos detentores do estado de arbítrio.
O episódio narrado no livro, a seguir, testemunha a sua coragem... “Logo nos primeiros dias da Revolução de 64, tive de intervir energicamente para impedir que os dez integrantes das equipes nacionais da JUC e da JEC permanecessem detidos sem qualquer comprovação de culpa. Foram retirados violentamente do apartamento em que moravam, em Botafogo, no Rio, às 6h da manhã, e levados para local ignorado. Ao ser informado do fato, iniciei as tentativas para localizá-los. Só no fim da tarde tive indícios de que haviam sido levados para o Ministério da Marinha. Dirigi-me para lá em minhas vestes episcopais, para alegar minha condição de bispo nomeado para acompanhar os militantes da Ação Católica. Custou para confirmarem que os rapazes estavam lá e para me apresentarem ao oficial encarregado.
(...) O relógio marcava trinta minutos depois da meia-noite. Com a ajuda de Deus, eu voltava na Kombi com os dez rapazes das equipes da JUC e da JEC. Sabia que se os deixasse ali por uma noite apenas, eles corriam risco de desaparecer. Na verdade, durante todo aquele dia, eles não tinham sido sequer interrogados e nem foram chamados nos dias subseqüentes, demonstrando a completa desnecessidade da prisão†(págs. 158 e 161).
Vamos ler este “Itinerário de uma vida†para não perdermos as grandes lições de fé, humanismo, apostolado, compromisso e justiça que ele ensina. (Isaias Daibem)