O professor da Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, José Carlos Martinez, sofreu ferimentos no rosto após levar uma cadeirada durante uma invasão de alunos à sede da reitoria da universidade em São Paulo, na manhã de ontem.
Cerca de 150 estudantes tentavam impedir que o Conselho Universitário votasse a implantação do Programa de Ampliação de Vagas da Unesp, que prevê a criação de novos câmpus e cursos, em 2003.
As portas de vidro do prédio e da sala do conselho - onde ocorreria a votação - foram arrebentadas. Na sala, dois professores foram atingidos por cadeiradas e um terceiro se feriu com estilhaços da porta. Alunos também se machucaram e disseram ter sido agredidos por professores.
A reunião do Conselho Universitário começou por volta das 9h30, com a presença de 62 dos 67 conselheiros, presidida pelo reitor da Unesp, José Carlos Souza Trindade. Um grupo minoritário de conselheiros tentou, sem sucesso, retirar a urgência da votação do projeto de expansão.
Os alunos fizeram contato com o conselheiro Carlos da Fonseca Brandão, 37 anos, professor e membro da Associação dos Docentes da Unesp (Adunesp), também contrária ao plano da reitoria.
Sabendo que haveria a votação, os alunos decidiram fazer a ocupação. Forçaram a entrada no prédio e acabaram por estilhaçar a porta de vidro. Os seguranças da Unesp não agiram.
Depois de passar pelas catracas os alunos subiram 17 andares, a maioria pelas escadas. Na sala, dois assessores da reitoria seguravam a porta pelo lado de dentro. O reitor rejeitou a proposta de um professor para que fosse permitida a entrada dos alunos.
Mais uma vez a porta foi forçada e estilhaçada. Pelo menos dez alunos se cortaram. Houve confusão e agressões. "Eles estouraram o vidro. Quando eu vi, já levei uma cadeirada no rosto", disse o professor José Carlos Martinez, 52 anos, que sofreu escoriações na face.
"Um professor me pegou pelo braço e pelo cabelo e quis me colocar dentro do elevador", conta Luciana Gonzaga, 18 anos, que faz serviço social no campus de Franca. Confundida com uma aluna, a repórter de “O Estado de São Paulo†Renata Cafardo, 25 anos, levou um tapa no rosto dado por um professor. “Ele estava descontroladoâ€, declarou a jornalista.
A ocupação do auditório continuou até 12h40, quando alunos e o conselho chegaram a um acordo. A reitoria se comprometeu a só convocar nova reunião do conselho em três semanas e a receber uma comissão de alunos, professores e servidores, para negociação na próxima semana. Em seguida, foi anunciado que a reunião estava suspensa e a saída foi pacífica.
Ocorrência
Dois dos três professores feridos registraram a ocorrência no posto policial do Serviço de Emergência do Hospital do Servidor Público Estadual. O boletim será encaminhado ao 78.º DP (Jardins). O professor José Afonso Carrijo Andrade recebeu cinco pontos na testa. Seu colega Luiz Guilherme Wadt, também com escoriações, foi medicado na enfermaria da própria Unesp.
“Não esperava essa violênciaâ€, disse o reitor, que permaneceu o tempo todo no auditório, mas se negou a usar da palavra. Em uma coletiva após os incidentes ele disse que jamais falaria sob pressão.
Segundo ele, a manifestação foi feita por um número restrito de alunos que não representa a totalidade dos universitários. Trindade disse que vai instaurar uma sindicância para avaliar as agressões físicas e ao patrimônio da Unesp, mas não pensa em punição. A Unesp tem hoje 15 câmpus.
Os estudantes prevêem para o próximo final de semana empossar a nova diretoria do DCE, no Conselho de Entidade Estudantis da Unesp, e a partir daí indicar os novos conselheiros. Os alunos se dizem contra o plano de expansão e que a reunião do Conselho foi marcada, de maneira proposital, para ontem, véspera das eleições para estabelecer um novo DCE.
Programa
O Programa de Ampliação de Vagas da Unesp prevê a criação de oito câmpus no Estado em 2003. O projeto foi aprovado quanto ao mérito em fevereiro deste ano, mas resta a aprovação do estudo de viabilidade feito sobre as localidades, os cursos a serem criados, os custos e os projetos pedagógicos para as novas unidades.
Segundo a reitoria, o estudo envolveu professores especialistas na formulação de projetos pedagógicos, parcerias com as prefeituras para fornecimento de infra-estrutura e recursos adicionais à Unesp para a contratação de pessoal necessário.
A assessoria da reitoria informou que o plano priorizou a localização dos novos câmpus em regiões desprovidas de universidade pública. As cidades escolhidas foram Sorocaba, Iperó, Registro, Tupã, Dracena, Rosana, Itapeva e Ourinhos.
Em caso de aprovação, o número de vagas para o vestibular de 2003 poderá ter o acréscimo de 345 novas vagas. Em relação ao vestibular de 2002, com 5.525, o número de vagas passaria para 6.016, incluindo os 146 vagas de cursos já existentes já aprovadas.
Atualmente, o número de alunos em cursos de graduação em universidades públicas estaduais paulistas - Unesp, USP e Unicamp - é de apenas 5,5% do total, sendo o restante atendido majoritariamente pela rede particular.