Saímos com o grupo de mergulhadores da Aquasports na noite do dia 30 de julho, todos animados, ansiosos e temerosos para enfrentar a jornada (um dia de viagem) até a cidade de Caravelas, Sul da Bahia, de onde partiríamos de barco com destino ao paraíso chamado Abrolhos. .
Nosso grupo era bem heterogêneo, porém todos com os mesmos sentimentos em comum: desfrutar de momentos mágicos em baixo e em cima d’água e trazê-los na memória para nossa realidade diária.
Caravelas foi fundada em 1503, está situada no extremo Sul da Bahia, distante 886 km de Salvador. Possui um patrimônio histórico-arquitetônico muito valioso do início da história do Brasil. Ficou conhecida como a Princesa dos Abrolhos, título recebido do desbravador mineiro Teófilo Otoni em 1857. Além de ser a principal base de embarque para o arquipélago, possui ainda um grande banco de recife de corais e o segundo maior manguezal em biodiversidade do Brasil.
Acordamos bem cedo e após o café da manhã partimos para o cais onde três barcos nos esperavam. O tempo não estava muito bom, mas conforme embarcávamos o sol foi surgindo e aliviando a angústia da galera.
Após quatro horas de viagem no imenso azul do oceano acompanhados do show das baleias, avistamos Abrolhos, distante 70 km da costa. Foi o bastante para deixar a mente navegar na linda paisagem.
O paraíso marinho brasileiro é formado por cinco ilhas; Santa Bárbara, Siriba, Redonda, Sueste e Guarita, onde os bichos reinam quase sozinhos. Santa Bárbara é a maior ilha e a única habitada pelos pesquisadores do Ibama e pelos homens da marinha, que cuidam do farol, instalado ali em 1861 como garantia aos desavisados. O nome surgiu de um alerta feito por Américo Vespúcio. “Quando te aproximares da terra, abre os olhosâ€.
O fato de ser um ecossistema riquíssimo e reunir na mesma área todas as espécies de corais da costa brasileira, como os corais cérebro, só encontrados ali, fez com que se tornasse o 1.º Parque Nacional Marinho do Brasil. Chamou até a atenção, pela sua beleza, de Jacques Custeau (1982).
Convivem em paz nas águas 160 espécies de peixes como os frades, frades brancos, peixes-anjo, os budiões, os badejos (grandes e mansos), os cirurgiões, raias, baiacus, moréias, tartarugas... num show de vida que acontece quase na superfície. A visibilidade da água no verão pode chegar a 20 metros, e nos outros meses, em torno de 10 metros. Em terra estão várias espécies de aves marinhas, residentes ou migratórias, entre elas os atobás mascarados e marrons, as fragatas, os beneditos e as grazinas.
De julho a novembro, o arquipélago é invadido pelas baleias Jubarte, que migram para as águas mornas e tranqüilas de Abrolhos para uma festa no mar. Ali elas acasalam e amamentam seus filhotes.
O projeto Baleia Jubarte (1988), além de estudar e proteger as baleias, monitora o impacto do turismo, limitando o número de embarcações e orientando os turistas na chegada ao parque.
A baleia Jubarte pode atingir 16 metros e pesar até 40 toneladas, é extremamente dócil e famosa por suas acrobacias e pelo seu “cantoâ€. No período reprodutivo, os machos emitem verdadeiras canções para atrair as fêmeas e afastar possíveis rivais.
Mal chegamos e já estávamos prontos para o mergulho na língua da Siriba, fomos recebidos por toda fauna marinha que tínhamos direito. Os mergulhos realizados no parque são feitos a uma profundidade de 12 metros, aproximadamente, possibilitando que passássemos grande parte do nosso tempo cercados de estímulos visuais e sonoros maravilhosos.
Após o Noturno, passei um rádio para os outros barcos convidando para uma festa a bordo, à noite do Capitão... uma alegria geral ! As fantasias afloraram na mente dos mergulhadores, fomos contagiados por um bom som e pela luz das estrelas, éramos movidos por uma energia contagiante e por nenhum instante lembrávamos das nossas aflições do dia-a-dia e da alta do dólar! É incrível o bom-humor que os mergulhadores têm!
Embalados no balanço do mar, acordamos bem cedo para os nossos mergulhos do dia.
Rumo ao Rosalina, que estava carregado de cimento e cerveja e bateu em dois grandes chapeirões partindo no centro junto às caldeiras e às máquinas.
Começamos nosso mergulho pelo cabo de proa da nossa embarcação que estava amarrado em uma bóia no centro do navio. Logo encontramos os sacos de cimentos todos ainda empilhados e amarrados. A proa emerge na maré baixa, quando a água está mais rasa, a partir dela podem ser vistos os guinchos de proa, cabeços de amarração, escadas e as entradas dos porões, todas as estruturas de convés como guinchos, mastros e guindastes sobre o navio. No centro, as caldeiras e máquina a vapor e outros porões com mastros e guinchos caídos. Os mergulhadores aptos fizeram penetrações nos seus porões e parte do casario. Saindo do convés de polpa em direção ao fundo atingimos o hélice e o leme presos nos recifes.
Após o almoço, iniciamos uma corrida de bóias no mar. Afinal, o que mais tínhamos a fazer....
Nosso próximo mergulho foi nos chapeirões fundos, descemos pelo cabo de proa e iniciamos o mergulho contornando os imensos chapeirões que surgiam dos 20 metros de profundidade até a superfície formando enormes cogumelos habitados por inúmeras espécies de anêmonas e peixes.
O mergulho noturno fechou o dia com chave de ouro. Moréias, baiacus e tartarugas acompanharam nossa aventura.
Iniciamos o último dia presenciando o primeiro mergulho da Magda e da Vanessa. Ali pudemos perceber como muitas vezes banalizamos nossas experiências e desperdiçamos os momentos únicos que a vida nos proporciona.
A Magda surgiu do fundo e fiquei apreensiva com o que pudesse ter ocorrido, fui de encontro para ajudá-la pensando no pior, mas logo que ela pôde se expressar olhei ao redor e todos estavam com os olhos cheios de lágrima. Ela nos disse emocionada: “ É maravilhoso, um silêncio, senti o coração batendo no meu peito, me senti viva... tudo era tão bonito!†e fez questão de agradecer ao instrutor que a levou ao fundo.
Para nós, que trabalhamos com isso, conduzir uma pessoa assim no fundo é a recompensa por tantas outras dificuldades. Magda, obrigada pela sua luz!
Depois dessa vamos para a água...
Caímos nas cavernas da Siriba, esperavam por nós dois badejos enormes que se juntaram ao grupo e nos acompanharam pelas caverninhas. Eram tão dóceis que parecíamos nos comunicar.
Nossa despedida foi nos chapeirões rasos da Sueste, tomamos a direção na bússola e lá fomos nós e os amigos badejos, chegamos num jardim de cogumelos gigantes cheio de passagens... É triste mais chegou a hora, o dupla sinaliza “ok vamos subirâ€... e a forma melhor de se despedir e agradecer foi dar cambalhotas feito crianças em estado de graça.
Tínhamos ainda a volta ao continente e o encontro com as baleias Jubarte. Lá estavam elas num show para todos os lados. Dentro da água e no barco eram click’s para todos os lados.
Agradeço aos mergulhadores Betinho, Daniel, Dolírio, Fernanda, Fernando, Helenice, Henri, Hugo, Iracema, Jules, Juliana, Leo, Marcinho, Marcelo di Donato, Marcelo Sampaio, Marcão, Marco Vendra, Maria Inês, Neide, Neto, Paulo, Reiner, Rennie, Silvinho, Valdez e Zapa, as iniciantes Magda e Vanessa e a nossa mascote Agnes pela participação. Sem vocês minha aventura não seria a mesma.
Que todos possam lembrar e cultivar a cada dia os sentimentos que despertaram em cada um, e como dizia o Rennie, que este seja o pior dia de nossas vidas!
Galera “Abrolhos para a vida!†Até o próximo mergulho. (Christina Sampaio - Dive Máster - Aquasports)