09 de julho de 2026
Bairros

Moradores ainda utilizam córrego Vargem Limpa

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Moradores das margens do córrego Vargem Limpa, interditado pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) na quarta-feira não foram avisados, até a tarde de ontem, que a água estava contaminada por chumbo. Eles alegam que só têm informações através dos veículos de comunicação. A sinalização prometida pela Semma não foi colocada e crianças e animais continuam usando a água para consumo e atividades recreativas.

A dona de casa Maria Abelaneda mora há seis meses no Parque Bauru/Mirim, a cerca de 200 metros do córrego. Ela garante que não foi avisada sobre a interdição. “Eu não tenho filhos pequenos e não uso aquela água para nada.”

Maria alega que a maioria das informações que ela obtém sobre a contaminação da terra e os perigos que corre como moradora são dos veículos de comunicação. “Ouço no rádio, vejo na televisão e leio no jornal.”

Ela diz que a equipe da saúde esteve lá e avisou o que estava acontecendo, mas já faz tempo. “Eles vieram aqui e coletaram sangue das crianças. Falaram o que estava acontecendo, mas nunca mais voltaram.”

A vizinha dela, Luzia Gomes de Almeida Ferrarini é mãe de duas crianças, uma de 9 e outra de 3 anos. “Meus filhos fizeram exame de sangue. O menino está com 18 microgramas por decílitro de sangue. A menina com 12.”

A mãe conta que compareceu em todos os lugares onde foi chamada. “Falaram que elas estavam contaminadas, mas o remédio não veio até hoje. Não sei o que fazer, ninguém fala nada para a gente.”

Luzia diz que foi avisada para não deixar as crianças em contado com a terra. “Aqui é tudo terra, como vou fazer para evitar que elas entrem em contato com a terra?”, questiona.

Ela acha que a falta de informação prejudica ainda mais a situação. “Eu comprei essa casa e não posso sair daqui. Se está tudo contaminado, eles têm que ajudar a gente a sair desse lugar.”

Animais mortos

Gilda Madureira Rocha mora no Parque Bauru a cerca de 200 metros do córrego Vargem Limpa e tem quatro filhos pequenos. “Eles não avisaram que o córrego estava contaminado. Acho que eles deveriam avisar.”

Ela garante que seus filhos não freqüentam o córrego. “As crianças estão proibidas de ir naquele córrego. Mas os animais, como o nosso cachorro, não temos como segurar.”

A reclamação da mulher é da falta de tratamento. “Foram coletados sangue das crianças e um deu 31 microgramas por decilitro de sangue e o outro, 29. Não recebemos um comprimido e nem sabemos se eles têm que tomar algum remédio.”

Ela garante que nenhum de seus filhos apresentou qualquer sintoma diferente. Mas, os animais morrem logo após o nascimento. “Não sei se tem alguma coisa, mas a cadela dá cria e todos os cachorrinhos morrem em menos de uma semana. Um vizinho até mudou daqui, porque criava animais e todos morriam logo depois de nascer.”

Fazendo a travessia

Ontem, sob forte calor, a equipe do Jornal da Cidade não encontrou crianças brincando na água, porém é comum elas atravessarem o córrego de pé no chão. Vacas de propriedades rurais vizinhas costumam matar a sede no local.

Alessandro Inácio, morador do Parque Bauru, e seu irmão menor atravessaram o córrego com o pé no chão, mas garantiram que não costumam fazer isso. “Eu fui buscar meu irmão e cortamos caminho, por isso pisamos na água.”

Inácio conta que as crianças da favela Ferradura Mirim costumam descer para o córrego quando a temperatura aumenta. “No Verão, elas ficam nadando por aqui.”

Estigma

O estigma da contaminação do solo e da água já contabiliza prejuízos para os moradores e chacreiros da região, mesmo antes da Direção Regional de Saúde (DIR-10) divulgar os riscos a que a população está exposta. Muitos estão colocando à venda suas casas e terrenos com medo da contaminação pelo chumbo.

Placas de vende-se em casas e terrenos são muitas no Jardim Tangarás, Parque Bauru e Bauru Mirim. As ofertas são tentadoras: casas por R$ 6.500 e terrenos a partir de R$ 3.500. Placas de troca também são comuns.

Ninguém quer falar sobre o assunto, mas a desvalorização por conta do estigma é visível. Os moradores evitam tocar no problema, com medo que a divulgação dos fatos prejudique ainda mais a situação.

Um chacareiro, que pediu para não ser identificado, confessou que planta verduras há anos no Jardim Tangarás. “Desde que começou essa história tenho tido dificuldades em comercializar as verduras”, confessa.

Ele explica que há cerca de três meses a Cetesb esteve em sua propriedade e analisou as verduras e o solo. “Eles disseram que o solo não estava contaminado. Minha propriedade é longe demais da fábrica.”

Já a análise das verduras ele não tem o resultado. “Eles ficaram de passar o resultado em três semanas, mas não apareceram mais.”