Moradores das margens do córrego Vargem Limpa, interditado pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) na quarta-feira não foram avisados, até a tarde de ontem, que a água estava contaminada por chumbo. Eles alegam que só têm informações através dos veículos de comunicação. A sinalização prometida pela Semma não foi colocada e crianças e animais continuam usando a água para consumo e atividades recreativas.
A dona de casa Maria Abelaneda mora há seis meses no Parque Bauru/Mirim, a cerca de 200 metros do córrego. Ela garante que não foi avisada sobre a interdição. “Eu não tenho filhos pequenos e não uso aquela água para nada.â€
Maria alega que a maioria das informações que ela obtém sobre a contaminação da terra e os perigos que corre como moradora são dos veículos de comunicação. “Ouço no rádio, vejo na televisão e leio no jornal.â€
Ela diz que a equipe da saúde esteve lá e avisou o que estava acontecendo, mas já faz tempo. “Eles vieram aqui e coletaram sangue das crianças. Falaram o que estava acontecendo, mas nunca mais voltaram.â€
A vizinha dela, Luzia Gomes de Almeida Ferrarini é mãe de duas crianças, uma de 9 e outra de 3 anos. “Meus filhos fizeram exame de sangue. O menino está com 18 microgramas por decílitro de sangue. A menina com 12.â€
A mãe conta que compareceu em todos os lugares onde foi chamada. “Falaram que elas estavam contaminadas, mas o remédio não veio até hoje. Não sei o que fazer, ninguém fala nada para a gente.â€
Luzia diz que foi avisada para não deixar as crianças em contado com a terra. “Aqui é tudo terra, como vou fazer para evitar que elas entrem em contato com a terra?â€, questiona.
Ela acha que a falta de informação prejudica ainda mais a situação. “Eu comprei essa casa e não posso sair daqui. Se está tudo contaminado, eles têm que ajudar a gente a sair desse lugar.â€
Animais mortos
Gilda Madureira Rocha mora no Parque Bauru a cerca de 200 metros do córrego Vargem Limpa e tem quatro filhos pequenos. “Eles não avisaram que o córrego estava contaminado. Acho que eles deveriam avisar.â€
Ela garante que seus filhos não freqüentam o córrego. “As crianças estão proibidas de ir naquele córrego. Mas os animais, como o nosso cachorro, não temos como segurar.â€
A reclamação da mulher é da falta de tratamento. “Foram coletados sangue das crianças e um deu 31 microgramas por decilitro de sangue e o outro, 29. Não recebemos um comprimido e nem sabemos se eles têm que tomar algum remédio.â€
Ela garante que nenhum de seus filhos apresentou qualquer sintoma diferente. Mas, os animais morrem logo após o nascimento. “Não sei se tem alguma coisa, mas a cadela dá cria e todos os cachorrinhos morrem em menos de uma semana. Um vizinho até mudou daqui, porque criava animais e todos morriam logo depois de nascer.â€
Fazendo a travessia
Ontem, sob forte calor, a equipe do Jornal da Cidade não encontrou crianças brincando na água, porém é comum elas atravessarem o córrego de pé no chão. Vacas de propriedades rurais vizinhas costumam matar a sede no local.
Alessandro Inácio, morador do Parque Bauru, e seu irmão menor atravessaram o córrego com o pé no chão, mas garantiram que não costumam fazer isso. “Eu fui buscar meu irmão e cortamos caminho, por isso pisamos na água.â€
Inácio conta que as crianças da favela Ferradura Mirim costumam descer para o córrego quando a temperatura aumenta. “No Verão, elas ficam nadando por aqui.â€
Estigma
O estigma da contaminação do solo e da água já contabiliza prejuízos para os moradores e chacreiros da região, mesmo antes da Direção Regional de Saúde (DIR-10) divulgar os riscos a que a população está exposta. Muitos estão colocando à venda suas casas e terrenos com medo da contaminação pelo chumbo.
Placas de vende-se em casas e terrenos são muitas no Jardim Tangarás, Parque Bauru e Bauru Mirim. As ofertas são tentadoras: casas por R$ 6.500 e terrenos a partir de R$ 3.500. Placas de troca também são comuns.
Ninguém quer falar sobre o assunto, mas a desvalorização por conta do estigma é visível. Os moradores evitam tocar no problema, com medo que a divulgação dos fatos prejudique ainda mais a situação.
Um chacareiro, que pediu para não ser identificado, confessou que planta verduras há anos no Jardim Tangarás. “Desde que começou essa história tenho tido dificuldades em comercializar as verdurasâ€, confessa.
Ele explica que há cerca de três meses a Cetesb esteve em sua propriedade e analisou as verduras e o solo. “Eles disseram que o solo não estava contaminado. Minha propriedade é longe demais da fábrica.â€
Já a análise das verduras ele não tem o resultado. “Eles ficaram de passar o resultado em três semanas, mas não apareceram mais.â€