O assunto tratado aqui deveria ser lido ao som de um samba-canção, com aquelas histórias que têm tudo para não dar certo, mas acabam tendo um final feliz. E, como na música, está tudo se encaminhando para eles ficarem juntos. Só depois de tanta briga, de tantos desentendimentos que a gente repara que eles nasceram um para o outro.
Por enquanto nada foi oficializado. Dizem que eles estão se conhecendo melhor. Os amigos comuns fingem que entendem, para não atropelar as coisas, nem forçar uma situação. Mas, ao que tudo indica, só faltam os proclamas, o anuncio oficial para dizer que o PSDB e o PT não podem mais viver separados. Um precisa do outro. E o enlace definitivo pode acontecer logo mais, depois das eleições.
E não importa quem seja o vencedor, Lula ou Serra, os dois vão precisar ficar juntos para tentar sobreviver. Porque, apesar da descoberta de tantas afinidades, o ano que vem não será nenhuma lua-de-mel.
Os cálculos feitos por aqueles que não precisam ganhar eleições, e por isso não têm interesses definidos desde já, dão conta de que três dos quatro anos do próximo presidente serão de aperto e sofrimento para poder pagar as dívidas e os juros feitos nesses acordos salvadores com o FMI. Haverá cortes para todos os gostos, inclusive no setor social, que os candidatos insistem em dizer que será priorizado.
Aos desatentos é preciso dar o aviso: cuidado! O PT pode ganhar a eleição e pode também se meter na pior enrascada da sua vida.
Mas pode acontecer outro fato inusitado: José Serra ser o vencedor. É difícil, mas Santo Expedito, o santos dos impossíveis, e Nossa Senhora Desatadora de Nós já foram postos de sobreaviso através de rezas e novenas dos tucanos mais fiéis para que o milagre aconteça. Então, nos palácios, o tonitroar das ruas vindo dos gentios será ensurdecedor. Vai se descobrir quanto era bom poder fazer reformas com a ajuda dos conservadores e das maiorias que apreciam a estabilidade.
Não se pode esperar muito dos dois partidos que até agora equilibravam a balança da governabilidade. O PMDB e o PFL são confederações com caciques e morubixabas distintos e com interesses diversos. Jogam a favor deles mesmos e não vão querer abrir mão de espaço nesse latifúndio.
Dessa forma parecem mais claras as razões pelas quais o PT e o PSDB estão se olhando nos olhos. A primeira vez foi quando os dois se posicionaram a favor do acordo com o FMI. Agora começam a perceber que um precisa do outro. Haverá um período de turbulência nas relações, é claro. As eleições são disputas renhidas, que ninguém quer perder e sempre deixam seqüelas.
Mas não tem cabimento, nos dias de hoje, um casamento tradicional. Os dois serão independentes e guardarão suas identidades. Só que estarão juntos. O interessante é que o chamego entre os dois continua valendo mesmo se, numa eventualidade, o vencedor for Ciro Gomes. Aí poderia haver a divisão dos tucanos em dois grupos. E o dos pragmáticos embarcaria na canoa de Ciro Gomes, já no primeiro turno, se a candidatura de Serra se despedaçar realmente.
Com Ciro vitorioso, eles teriam uma espaço imenso no seu governo. E o expoente maior de todo o grupo seria o ex-governador Tasso Jereissati, que deve ser eleito senador pelo Ceará.
E certamente o tema musical seria outro. Traria na sua letra referências a traição, mágoa, abandono, solidão, perfídia e desilusão. Termos fartamente encontrados nos milhares de sambas-canções compostos sob o efeito de uma monumental dor-de-cotovelo. (O autor, Fernando José Dias da Silva, é articulista da Agência Estado)