A invasão de alunos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) no prédio da Reitoria, em São Paulo, na manhã de anteontem, está causando polêmica entre os representantes do câmpus de Bauru no Conselho Universitário (CO). As opiniões se dividem quanto à responsabilidade do reitor José Carlos Souza Trindade no tumulto e em relação a quem iniciou as agressões.
A sessão extraordinária do CO iria votar o Programa de Expansão de Vagas da Unesp, que prevê a criação de oito novos câmpus no Interior em 2003. Para os manifestantes, a verba destinada à criação das novas unidades deveria ser aplicada na melhoria dos câmpus já existentes. Com a invasão, a votação foi adiada para daqui a três semanas.
O professor da Faculdade de Engenharia da Unesp/Bauru José Carlos Martinez levou uma cadeirada no rosto, que provocou escoriações e luxação no septo. Martinez é assessor da Pró-Reitoria de Extensão e assessor de gabinete do reitor.
Segundo o professor, ele tentava, com o auxílio de outro assessor, impedir a entrada dos estudantes na plenária. O grupo batia nas paredes e gritava palavras de ordem em uma ante-sala, separado dos conselheiros apenas por duas portas de vidro. “Com aquela pressão, o vidro não resistiu, então nós pulamos de lado. Nesse momento, enquanto me virava, levei uma cadeirada no rostoâ€, relata Martinez.
Ainda de acordo com ele, os assessores feridos foram levados para o Hospital do Servidor, registraram Boletim de Ocorrência no 78.º DP e fizeram exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML).
Martinez afirma que os manifestantes que forem identificados - havia vários fotógrafos no local - poderão ser obrigados a pagar pelos prejuízos (leia texto abaixo). Segundo Martinez, o estudante ainda não identificado que arrebentou uma das portas, avaliada, segundo ele, em R$ 20 mil, foi “muito bem fotografadoâ€. “Vai ter uma punição bravaâ€, declara.
Ânimo
Na plenária de anteontem, havia seis conselheiros representando o câmpus de Bauru - os diretores e um professor de cada uma das três faculdades. No entanto, havia outros alunos e professores que saíram de Bauru para protestar contra a votação.
“O ânimo por parte dos alunos estava muito elevadoâ€, afirma o diretor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC), José Carlos Plácido. “Em 23 anos de Unesp, nunca havia presenciado nada dessa naturezaâ€, conta ele. “Foi assustador, estávamos atônitos.â€
Na opinião de Plácido, as discussões sobre os novos câmpus e a expansão de vagas vêm ocorrendo desde outubro do ano passado - e estão abertas às sugestões dos alunos. “Seria exatamente nessa reunião que a gente poderia ter as discussões, as defesas em relação à parte contrária. Teríamos a dimensão da Unesp como um todoâ€, diz.
Para o professor representante da FAAC, Luiz Fernando da Silva, a invasão só ocorreu porque o reitor foi “intransigenteâ€, pois o número de estudantes na ante-sala estava crescendo. “Pedimos ao reitor que recebesse a comissão de estudantes, para que eles expusessem suas idéiasâ€, conta Silva.
“À medida em que foi rejeitado (o pedido), em que houve intransigência por parte do reitor em receber essa comissão, os ânimos começaram a ficar exaltadosâ€, completa o professor.
De acordo com Silva, que sofreu ferimentos com estilhaços de vidro, as agressões não partiram dos estudantes, e sim dos assessores - Martinez inclusive - que queriam impedir o acesso à plenária. A porta de vidro não teria resistido à pressão.
“Nesse momento que estoura a porta de vidro, os estudantes vêm entrando para a sala, e os assessores, de uma menira apavorada, começam a pegar cadeiras e ir para cima dos estudantesâ€, declara Silva.
Para o professor, o impasse poderia ter sido resolvido sem violência, se o reitor tivesse autorizado a entrada da comissão de estudantes. “Se fosse recebida essa comissão, como estava sendo reivindicado e como os conselheiros colocaram na plenária para o reitor, posso dizer que a situação teria se solucionado inteiramenteâ€, afirma Silva.
“Massa de manobraâ€
O diretor da Faculdade de Engenharia (FE) da Unesp/Bauru, Lauro Henrique Mello Chueiri, declara que foram os alunos que começaram a agressão, e afirma que, quando Martinez foi atingido por uma cadeira no rosto, ele não estava com nenhuma na mão.
Segundo Chueiri, ele não ficou sabendo de nenhuma solicitação para que autorizassem a entrada dos estudantes. “Se eles (os estudantes) solicitaram para o reitor (a entrada na plenária), e ele negou antes da reunião, ninguém ficou sabendoâ€, afirma.
Para o diretor da FE, a alegação dos estudantes de que a plenária fora marcada para a véspera da escolha de seus representantes no CO não procede. “Eles (os estudantes) não têm representantes porque não indicam. Tem lá dez cadeiras vagasâ€, diz Chueiri.
Segundo ele, há cerca de quatro meses, numa plenária sobre a questão da moradia, os estudantes teriam argumentado a mesma coisa - e até agora não elegeram seus representantes.
“A invasão foi só dos alunos, mas acho que teve incentivo de outras pessoas. Eu mesmo presenciei um professor mandando aluno entrarâ€, declara Chueiri. Na opinião dele, os manifestantes de anteontem eram “massa de manobraâ€. “Eu não sei se eles (os estudantes) sabem porque estão brigandoâ€, finaliza.
Investigação
Integrantes da reitoria e do departamento jurídico da Universidade Estadual Paulista (Unesp) reuniram-se hoje para montar uma comissão de sindicância que vai apurar as responsabilidades na confusão de anteontem, no prédio da reitoria.
É o início de um diagnóstico dos estragos causados pela invasão por 150 alunos, que impediram a reunião do Conselho Universitário, onde seria votado um plano de expansão da instituição. Serão escolhidas três pessoas para monitorar a apuração.