Até há poucas décadas, a lepra era tratada como uma peste abominável, da qual toda a sociedade queria distância. Citada diversas vezes na Bíblia, foi associada à impureza e aos vícios, de modo que quem sofria com esta doença contagiosa deveria ser mantido longe das “pessoas de bemâ€. Os doentes eram excluídos, isolados e mandados para longe das cidades.
No início do século passado, em 1927, incomodada com a presença dos leprosos na cidade, a sociedade bauruense (copiando outras) se uniu para comprar uma fazenda longe da zona urbana e despachar os doentes para lá. Criou-se uma comunidade de leprosos, que foi crescendo ano após ano. Era o embrião do Instituto Lauro de Souza Lima, hoje uma referência mundial no tratamento da doença.
Em 1934, o Governo do Estado decidiu intervir nestas estruturas privadas e investiu em melhorias e mandou médicos para lá. A comunidade próxima de Bauru recebeu o nome de Asilo-Colônia Aimorés. A internação era compulsória - qualquer pessoa que recebesse o diagnóstico de lepra era imediatamente conduzida para estes asilos, pela polícia.
“Nós morávamos numa fazenda, em Itápolis. Quando suspeitaram que minha mãe tinha lepra, ela foi morar numa casa separada da família. Não podia ir à casa de ninguém. Um dia, um camburão foi buscá-la láâ€, conta Nivaldo Mercúrio, 73 anos, morador do Instituto Lauro de Souza Lima.
“Foi muito triste. Funcionários do DPL - que era Departamento Profilaxia Lepra - jogaram gasolina e queimaram a casa dela com tudo dentro. Era 1935, ela tinha 32 anos e quatro filhosâ€, completa.
Ele conta que os filhos só viram a mãe uma única vez depois da internação. “Ainda assim, havia uma mesa enorme separando a gente. Ela estava a uns cinco metros de distância. Em 1940, ela morreuâ€, relata.
Drama pessoal
Nivaldo e os três irmãos continuaram na fazenda de Itápolis, morando com os avós. Em março de 1943, apareceu uma mancha no braço dele. Um médico amigo da família foi examiná-lo e alertou: podia ser lepra. Em segredo, o profissional começou a tratar o jovem na fazenda, mas o único remédio conhecido era uma planta apelidada de “chamugaâ€.
Dois anos mais tarde, um exame acusou positivo e Nivaldo, aos 17 anos, foi levado para o Asilo-Colônia Aimorés. Sem um remédio, a doença evoluiu. Ele recebeu o primeiro medicamento (Promid) em 1947. Mais tarde, recebeu o tratamento e foi curado.
“Mas as seqüelas ficaram. Tive reações ao tratamento, dor nos nervos e articulações, tive deformidades nas mãos e perdi parte de um pé, que lesionou e virou câncerâ€, conta.
Em 1970, os internos destes asilos-colônia foram declarados livres e poderiam voltar para a cidade. Alguns preferiram ficar. Nivaldo é um dos 74 moradores que permanecem no Instituto Lauro de Souza Lima. Segundo ele, cerca de 30 moradores tiveram hanseníase. Os demais moradores são familiares que optaram por mudar-se para lá.
“Aqui é um lugar muito bom de se viver. Moro sozinho e me acostumei. Vim para cá aos 17 anos e comecei a trabalhar. Se saísse daqui para procurar emprego na cidade, o patrão mandaria embora logo que soubesse que eu era ex-morador do asilo. Preferi ficar aqui, onde ainda trabalhoâ€, conclui.
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História de avanços recentes
Os registros históricos mostram que a hanseníase é uma das doenças mais antigas da humanidade. No entanto, o primeiro medicamento eficaz no controle da patologia só surgiu no final da década de 40.
“Antes disso, os médicos davam uma planta para a gente. Em 1946, chegou o Promid. Era o primeiro remédio que aparecia, mas só tomava quem podia comprar. Ele custava 1.000 cruzeiros na época. Para você ter uma idéia, eu ganhava 50 cruzeiros por mês e teria que trabalhar 20 meses para pagarâ€, conta Nivaldo Mercúrio, 75 anos, morador do Instituto Lauro de Souza Lima (leia mais nesta página).
Segundo ele, só um ano depois a Câmara dos Deputados determinou que o medicamento fosse distribuído a todos os pacientes. Ainda assim, não era a cura. A droga apenas controlava a doença e tinha que ser tomada por toda a vida.
“A Mycobacterium leprae não cresce em meios de cultura (artificiais), o que dificulta a realização de pesquisas. Só na década de 60, quando se conseguiu cultivar o bacilo na pata de um camundongo, é que os estudos pela cura da hanseníase avançaramâ€, comenta o médico infectologista Fernando Monti.
Hoje, o tratamento dura seis a 12 meses e, quando termina, a pessoa está completamente curada. Quando a infecção é identificada logo no início, a doença não deixa seqüelas. Mas o diagnóstico tardio pode resultar em lesões e deformidades permanentes.