O cantor, compositor e escritor Chico Buarque disse certa vez, em uma entrevista, que ao compor a canção “Construção†não pensou no problema dos operários - “evidente, aliás, sempre que você abre a janela†- mas sim na experiência formal, no jogo de tijolos. “Na hora em que componho não há intenção - só emoção. Em ‘Construção’, a emoção estava no jogo de palavras (todas as frases terminam com proparoxítonas). Agora, se você coloca um ser humano dentro de um jogo de palavras, como se fosse... um tijolo - acaba mexendo com a emoção das pessoasâ€.
É justamente a emoção da música escrita em 1971 que inspira os trabalhos da mostra coletiva de fotografia “Ouça a Imagem!â€, que ficam em exposição até sexta-feira no setor de vivência da Universidade do Sagrado Coração (USC).
De acordo com a assessoria da USC, para a jornalista e professora Joyce Guadagnucci, coordenadora da mostra, não se trata apenas de ver fotos estáticas, mas de olhar para elas e ouvir o que cada uma tem a dizer. Trata-se de uma fusão entre imagem e som que pode ser vista (ou ouvida) em cada detalhe do evento que também conta com ambientação de som.
No total, são 21 trabalhos, cada um deles no tamanho de um metro por 60 centímetros. Os autores das fotos são sete alunos do curso de Jornalismo da USC: Aline Furlanetto, Allan Russo Catto, Fernanda Moraes, Hérica Rodrigues, Marcos Leandro, Rafael Tadashi e Renata Leão.
Antes de sair em campo com a máquina fotográfica, os participantes discutiram a letra da música “Construção†e fizeram suas interpretações pessoais da obra. Baseados na emoção, como sugere Chico, ficaram livres para experimentar. Embora cada um tenha seguido seu rumo, as cenas da construção civil predominam.
Quem visitar a exposição, além de ver as imagens, vai ouvir uma trilha sonora criada a partir da música “Construçãoâ€, gravada por vários intérpretes e mesclada com depoimentos de trabalhadores da construção civil, muitos dos quais recitam trechos da letra. A trilha foi gravada pela banda Lord Byron, de Jaú, com arranjos dos alunos Rafael Agustini e Allan Russo Catto.
• Serviço
“Ouça a imagem!â€, exposição fotográfica baseada na obra “Construçãoâ€, de Chico Buarque no setor vivência da USC. A entrada é franca. Rua Irmã Arminda, 10-50, Jardim Brasil. Informações: (14) 235-7292.
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Disco traz canções clássicas
“Construção†é a principal canção do disco - homônimo - que Chico Buarque lançou em 1971, logo após a volta da Itália, onde se auto-exilou por quase um ano.
Considerado um dos melhores discos da carreira do compositor, o álbum, que pode ser encontrado em CD numa versão remasterizada, além da música, ainda traz composições hoje consideradas clássicas, como “Deus lhe Pagueâ€, uma espécie de continuação de “Construçãoâ€; “Cotidianoâ€; “Desalentoâ€, em parceria com Vinicius de Moraes; “Samba de Orlyâ€, outra com Vinicius e desta vez com Toquinho, seu parceiro nos show na Itália; e “Minha Históriaâ€, versão para a “Gesubambinoâ€, de Lucio Dalla e Pallotino. Todas já foram regravadas diversas vezes por outros intérpretes. (Gustavo Cândido)
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“Construçãoâ€
Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.
Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo Bebeu e soluçou como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público.
Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado.
(Chico Buarque)