A história que vou narrar aconteceu no ano de 1944, em Capituva. O vilarejo de Capituva ficava entre Promissão e Avanhandava, por onde passavam os trilhos da estrada de ferro ex-NOB. O meu pai era ferroviário e trabalhava em turnos de 24 por 24 horas, eu era um adolescente e aguardava uma oportunidade para vir estudar em Bauru, no Liceu Noroeste.
O vilarejo possuía apenas duas ruas perpendiculares e uma delas tinha o início no pátio da estação, a uma distância aproximada de 500 metros do córrego Barra Mansa, onde eu pescava diariamente garantindo, assim, a mistura para as nossas refeições que eram precárias devido a grande guerra.
Ao sair de casa para a pescaria, a minha mãe sempre recomendava para que eu só pescasse na ponte e nas duas laterais, porque o local era limpo, sem o perigo de cobras. Como as minhas pescarias eram todas à tarde, o local ficou bem cevado, porque eu jogava grande quantidade de quirera de milho e arroz misturados. Os peixes que eu pescava eram tambiús, lambaris de rabo vermelho, piabas, piauçus, peixe canivete, tabaranas, piaparas e até piranhas. Quando o meu pai entrou em férias, o telegrafista João de Araújo Lacerda, que é de Bauru, foi substituí-lo e ficou encantado com a quantidade de peixes que eu pescava todos os dias no período da tarde.
O Lacerda passou a me acompanhar nas pescarias e, como o córrego era piscoso, sugeriu que deveríamos continuar até a noite. As espécies de peixes pescados à noite eram bagres, mandis, traíras e mandiúvas. Eu ficava pescando embaixo da ponte enquanto o Lacerda ficava num dos poços da lateral. Debaixo da ponte, eu fazia os meus arremessos com a linha bem comprida para atingir o outro lado do poço, onde ficava o Lacerda.
Num dos meus arremessos, senti uma grande puxada e dei uma enorme fisgada. Após a fisgada, notei que toda a linha estava para fora da água e parecia que até voava. Eu já pensei tratar-se de um enorme peixe-voador ou mesmo até uma solha, porém, esses peixes só são encontrados em águas salgadas. A linhada, o anzol e o peixe fisgado naquela escuridão voaram em direção ao Lacerda, que estava do outro lado do poço. O Lacerda, aos gritos, dizia:
- Virgem! Que peixe é esse...?
Com a lanterna fomos até a árvore onde o peixe estava enroscado e se batia muito para se desvencilhar dos galhos. Amedrontados com o enorme barulho da galhada, verificamos tratar-se de um enorme morcego que estava fisgado em uma das asas. A conclusão que chegamos foi que no momento do meu arremesso, por uma coincidência o morcego passou voando e enroscando as asas no anzol, sendo fisgado por mim, embaixo daquela ponte. (Dorival Nogueira é pescador e contador de histórias)