A proibição da venda do álcool etílico em estado líquido desde ontem por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão ligado ao Ministério da Saúde, provoca estranheza e reclamação nos consumidores, mas pode causar um efeito colateral ainda mais grave. Mais de 50 mil empregos, diretos e indiretos, estão em risco em todo o País.
A afirmação é do diretor-presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Envasadores de Álcool (Abraspea), José Carlos Rezende, que declara ter feito a estimativa levando em conta não só a produção e o engarrafamento, mas também a produção de frascos e tampas, por exemplo.
O argumento da Anvisa para proibir a venda é que o álcool líquido é prejudicial à segurança das pessoas, pois é apontado como responsável por um grande número de acidentes domésticos. A apresentação do produto em forma de gel e com embalagens de 500 gramas poderia evitar queimaduras.
Por enquanto, a Abraspea conseguiu uma liminar na Justiça desobrigando as empresas associadas de cumprir a determinação da Anvisa. No Brasil, há 71 engarrafadores de álcool, segundo Rezende, mas apenas 12 empresas são filiadas à associação. Entre elas, a Usina da Barra, a Usina Nova América e a Companhia Nacional de Álcool. “Tivemos que entrar judicialmente para ver se sobreviveríamosâ€, diz Rezende.
Na Usina da Barra, em Barra Bonita, ninguém foi encontado para se pronunciar sobre o assunto.
Para o presidente da Abraspea, o consumidor será prejudicado com o álcool gel. Em primeiro lugar, devido ao preço: de duas a três vezes maior para uma quantidade menor que a das embalagens de um litro do líquido. A segunda questão, diz Rezende, se refere à concentração: enquanto o líquido tem 96% de álcool e 4% de água, o gel tem 65% de álcool e 35% de água em sua composição.
“A nossa tônica é que o grande vitorioso (com a liminar) é o consumidor, que vai conseguir continuar comprando um litro de álcool no supermercado por R$ 1,60, por exemploâ€, declara Rezende.
Embalagem
De acordo com o presidente da Abraspea, a associação sugeriu à Anvisa modificações para dar mais segurança às embalagens de álcool líquido. “Propusemos colocar tampa americana, que crianças não conseguem abrirâ€, revela Rezende.
Segundo ele, os frascos de álcool líquido já seguem as determinações de segurança do Instituto de Metrologia (InMetro), como resistência da embalagem a quedas. “Desde 1999 as embalagens estão certificadasâ€, diz Rezende.
Na opinião do presidente da Abraspea, o Ministério da Saúde deveria alertar a população para o risco de acidentes, e não proibir. “Precisava o Ministério da Saúde fazer um programa como fez com o cigarro. Proibiram o cigarro? Não, fizeram uma campanhaâ€, observa.
Plantações
Na opinião do presidente da Associação de Plantadores de Cana da Região de Jaú (Associcana), Paulo Brandão, as plantações da região não devem ser prejudicadas com a proibição do álcool líquido, pelo menos por enquanto.
Para Brandão, no entanto, há o risco do consumidor deixar de comprar o produto em forma de gel. “Onera muito. Hoje se compra um litro de álcool por pouco mais de R$ 1,00, e agora o preço (do gel) vai para mais de R$ 3,00â€, diz.
Na opinião de Brandão, a Anvisa poderia ter tomado outro tipo de medida para prevenir queimaduras antes de decidir pela proibição. “Foi uma medida muito radical. O risco de pegar fogo é uma coisa muito complexaâ€, observa. E completa: “Faz ‘500 anos’ que o álcool é líquido, porque agora vai ser gel?â€, questiona.
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Supermercados e consumidores
Os supermercados de Bauru já estão se preparando para o fim do álcool líquido nas prateleiras, mas os consumidores - pegos de surpresa - ainda estão receosos quanto ao uso do gel.
O gerente de supermercado Alexandre Bernardino Fernandes Júnior, diz que sua loja já trabalhava com álcool em gel antes da determinação da Anvisa. Segundo ele, o consumidor deve se acostumar com a nova apresentação. “Depende muito do público, até o consumidor se acostumar ao produto. Álcool é um produto que todo mundo usaâ€, diz.
Na opinião de outro gerente de supermercado, Sebastião da Silva, o álcool em gel deve provocar estranheza entre os clientes. “O consumidor está acostumado a comprar isso no supermercado. Vai ter reclamação simâ€, declara. Segundo ele, a loja já estava se preparando para a proibição e segurou as vendas.
“Depois de tanto tempo, agora que foram achar problema, que tem perigo? Deixa os dois. Quem tem preferência por comprar o gel, compra. Quem não tem, compra o líquidoâ€, opina a secretária Valquíria Querubim, 36 anos, que afirma nunca ter experimentado o gel na limpeza doméstica.
Por outro lado, a professora Veralice Leutwiler, 40 anos, afirma que seu consumo de álcool é muito grande. Além disso, conta, ela trabalha em uma creche onde são utilizados de três a quatro frascos de álcool por dia para limpeza e assepsia. “Na minha opinião, a diferença de preço é muito alta. Para quem tem um consumo grande, como vai fazer para comprar o álcool em gel?â€, questiona.
O professor Antônio Miguel Garcia, 44 anos, concorda que o preço deveria ser mais acessível, mas procura ver os benefícios da proibição. “Vem bem menos no gel e é bem mais caro. De qualquer forma, como é para evitar acidentes, eu acho válidoâ€, observa.
A auxiliar pedagógica Maria Capossi, 49 anos, admite que o argumento de evitar acidentes domésticos é suficiente para incentivar a compra de álcool em gel. “Em termos de segurança é o melhor, mas eu ainda não pesquisei preços porque nunca comprei o gelâ€, declara.