08 de julho de 2026
Auto Mercado

Paixão do passado

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Desde criança, o gerente de produção bauruense Celso Geraldo Sposito demonstrava que o seu gosto por carros iria se estender para muito além do jardim de infância.

Logo aos 10 anos, ele já ajudava seu tio, que era mecânico, nos consertos. Pouco depois, aos 14, já se aventurava na direção dos fordinhos. “A primeira vez que guiei foi quando saí, de marcha-a-ré, com um Ford 1928 da garagem da casa do meu tio”, relembra Celso.

Apesar disso, a vontade para tornar-se um motorista habilitado veio tarde na vida do gerente, que somente aos 25 anos, depois de uma “forcinha” da esposa, tomou a decisão. “Não sei explicar o porquê disso, mas só tirei a carta graças às pressões da Clarice, que me alertava dos perigos de andar sem o documento”, confessa ele.

Entretanto, a paixão pelos automóveis, especialmente os antigos, nunca se arrefeceu no coração de Celso. Ao contrário. Ia aumentando à medida que ele também crescia e tornava-se um adulto. Tanto que o gerente já foi dono, entre outros, de um Dodge, Simca, DKV e Gordini, mas atualmente ele estaciona em sua garagem um Fusca 1968, um Fiat 147 1984 e um Chevrolet Impala 1968.

Destes, o mais venerado por Celso é o imponente Impala cor gelo do mar com verde metálico, equipado com transmissão automática de duas marchas e um respeitável motor V8. Este, apesar de fazer o veículo superar “fácil”, segundo o gerente, os 150 km/h na estrada, cobra um preço alto na hora de abastecer: quatro km/litro de consumo na cidade.

Para consegui-lo, Celso viveu praticamente um caso de amor paralelo ao seu casamento. A “paquera” com o Impala demorou cerca de seis meses e iniciou-se em janeiro de 1.999, data em que o carro chegou a Bauru, vindo de Assis, para ser comercializado inicialmente com um professor. Como este não se interessou pelo automóvel, surgiu a chance para Celso realizar seu sonho de possuir um Chevrolet fabricado entre as décadas de 50 a 70.

Entretanto, fechar o negócio exigiu muita paciência do gerente. “O veículo ficou pelo menos seis meses em um estacionamento para ser vendido. Eu, durante esse período, ficava só namorando-o. Comecei pedindo um certo valor para comprá-lo, pois ele não se encontrava em bom estado de conservação e teria de gastar para arrumar várias coisas. Nem assim o estabelecimento queria vendê-lo”, conta Celso.

Depois de mais alguns meses, o gerente retornou ao estacionamento e deu um “ultimato” para selar a compra. “Disse que pagaria um tanto pelo Impala e que, se ele quisesse, deveria me ligar até o meio-dia. Deu certo, pois quando faltavam cerca de dez minutos para o prazo se encerrar, o carro já estava na frente da minha casa”, afirma ele.

Reformas

Após ter realizado seu sonho alimentado desde a infância, Celso teve de se preocupar com a restauração do Impala, atividade que consumiu exatos nove meses e deu muito trabalho ao gerente, mas que foi suficiente para deixar o veículo em estado impecável de conservação.

Ele se recorda que um dos itens que mais lhe custou sacrifício foi um vidro da porta direita do Chevrolet. “Estava viajando a serviço a Piracicaba e, ao passar em frente a um ferro velho, resolvi parar e perguntar ao dono se possuía o acessório. Ele respondeu que devia ter, mas que na hora não podia atender e pediu para voltar outro dia”, relembra Celso. E continua: “Argumentei que era de fora e não dava. Ele respondeu secamente que era problema meu.”

Diante da “educação” britânica do dono do ferro velho, Celso não teve outra opção senão aceitar as condições e retornar outro dia a Piracicaba. “Fui a uma chácara com ele, que retirou o vidro de um outro Impala, e paguei sem pechinchar. Aí meu Chevrolet ficou completo”, destaca o gerente.

Além das restaurações no carro, Celso também teve de resolver outro problema, desta vez em sua residência: arrumar um lugar para colocar o Impala, uma vez que a garagem era pequena. Sob os protestos da esposa, o bauruense aumentou a porta de entrada, acabou com um jardim e construiu uma cobertura, que contribuiu para escurecer a frente da casa. “A Clarice reclama até hoje disso”, conta Celso, rindo.

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Apelidos

Celso revela ser impossível andar com seu Impala pelas ruas sem escapar das mais variadas brincadeiras, que acabam rendendo apelidos engraçados e curiosos ao automóvel.

A maioria deles associa-se ao tamanho do carro, que tem 5,6 metros de comprimento por 2,1 metros de largura, e ao fato de ser um modelo “beberrão” de gasolina. “Já ouvi o chamarem de barca, devido a suas dimensões, e até de P-36, em homenagem aquela plataforma de petróleo da Petrobras que acabou afundando”, revela ele. E acrescenta: “Alguns também o batizaram de disco voador.”

Mas quem pensa que Celso se chateia com isso está enganado. Ele, além de encarar com muito bom humor e naturalidade, quer mesmo é curtir o Impala. “Para mim, o que vale é o prazer de tê-lo”, destaca o gerente.

Por isso, uma das maneiras que o bauruense encontrou para estar sempre próximo não só ao Chevrolet, mas também aos seus demais carros antigos, é a hora da limpeza. “Sou escravo dos automóveis nos finais de semana, pois perco os sábados lavando-os e nem saio de casa. Além disso, aos domingos sempre corro atrás de encontros do gênero. Quem reclama é a esposa, que afirma que preciso dar uma variada nas horas de lazer”, diz Celso.

Grande por fora e por dentro, o Impala é um carro com várias qualidades, conforme o bauruense. “Além de ser confortável, é uma delícia para viajar e não dá problemas mecânicos”, enfatiza ele. Dificuldades, segundo Celso, só mesmo para estacionar e, em caso de necessidade, encontrar peças de reposição. “Há como importar do Canadá, onde até hoje é possível encontrá-las”, frisa ele.

Por isso, vendê-lo é uma hipótese sequer aventada por Celso. “Se um dia eu precisasse, o Impala seria a última opção”, garante o gerente.