08 de julho de 2026
Articulistas

Dissonância cognitiva


| Tempo de leitura: 3 min

O presidente FHC utilizou-se da teoria da dissonância cognitiva para explicar a instabilidade que atinge a economia brasileira, quando da sua visita ao Uruguai. Esse conceito é muito utilizado em comunicação e em estudos psicossociais para refletir a defasagem entre determinado fato e o que dele se percebe ou informa. Para quem não tem obrigação de saber, explico que dissonante é o que destoa da nossa cognição, ou seja, do que conhecemos, da nossa percepção. Quando tomamos conhecimento pelos noticiários que o Brasil é o campeão mundial em taxas de juros elevadas, isso causa uma dissonância na cabeça das pessoas acostumadas a raciocinar dentro de princípios lógicos comuns a Aristóteles, Spinoza ou a qualquer dos mortais. Todos sabem que juros reais praticados em nível parecido com o dos países civilizados redunda em incremento à produção, maior competitividade para o comércio exportador, aumento do consumo, mais vendas, entrada substancial de moedas fortes que estão nos faltando, geração de milhões de postos de trabalho, menos de impostos sonegados para serem reaplicados em saúde, educação e segurança, entre outros benefícios. Com esses conhecimentos elementares na cabeça dá raiva concluir que os governantes não querem ver a nação feliz.

Um alemão da Escola de Frankfurt chamado Lazarsfeld fugiu do seu país por causa das dissonâncias causadas pela propaganda nazifascista que se chocava com a sua cosmovisão. Nos Estados Unidos estudou os efeitos da dissonância cognitiva na comunicação e chegou a conclusões simples mas muito interessantes. Existe uma tendência entre os leitores e ouvintes de abandonarem a recepção de tudo o que violenta a sua lógica, opinião ou sonho acalentado. Se o São Paulo perde na decisão não quero ler o noticiário sobre a derrota e sequer ver os lances principais na televisão. Quando os candidatos na televisão prometem transformar isso aqui em Paraíso, dói nos ouvidos e a gente desliga o receptor rapidinho.

Para FHC há uma clara dificuldade dos agentes financeiros e das empresas avaliadoras de risco de abarcar a realidade do nosso país, o que os inclina a preferir visões negativas. Essa atitude leva à enunciação de “profecias que se auto-realizam” e acaba induzindo a crises. Ora, quando o presidente que já faliu o País duas vezes – na âncora cambial e agora com o endividamento-jumbo – diz que os fundamentos da economia vão bem, as taxas de desemprego estão estáveis, há superavit nas contas públicas, balança comercial positiva, foram descobertas novas jazidas de petróleo pela Petrobras, safra recorde de grãos, etc., os credores respondem com cortes às linhas de crédito, o capital especulativo bate asas e o risco-Brasil aumenta.

– Meus sais. Lá vem aquele louco outra vez com mania de grandeza.

O governo brasileiro, desde Pedro II, está longe de se autofinanciar. Todos os anos precisa bater às portas do mercado em busca do dinheiro que lhe falta, oferecendo altas taxas de juros que acabam inflando a dívida, comprometendo a produção e estancando o crescimento. É natural que o presidente do Federal Reserve fique preocupado com o dinheiro tomado à poupança dos carpinteiros, encanadores e velhinhas aposentadas norte-americanas. O Brasil nunca melhora. A miséria aumenta, a concentração de renda é cada vez mais forte e o dinheiro some para os bancos suíços. As propinas, de 5% foram para 10% e agora passam de 100%. Assim não dá...

Será que existe alguém capaz de enfrentar esse cenário complexo e dar conta do recado se for eleito? (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)