11 de julho de 2026
Cultura

Livro costura fatos reais com literatura

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 4 min

Fascinado pelo interesse das pessoas na história de Eny, Lucius de Mello resolveu contá-la, mas sabia que o processo seria árduo. Além das pessoas entrevistadas e da busca por documentos e cartas, também anexadas no livro, o autor, num trabalho jornalístico, recorreu à historiadora paulistana Marli Rodrigues para pesquisar a vida da prostituta e sua família em São Paulo e os episódios no Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Mello contratou estagiários para pesquisar em Bauru os jornais das épocas de 40 a 70 para poder contextualizar a história e saber como a sociedade bauruense encarava a prostituição e construção do “império Cezarino”, iniciado com uma mera viagem ao interior para curar bronquite, adquirida nos Pampas.

A saga da família de Eny começou na Itália, em Salerno, no ano de 1800. Era um clã da alta burguesia que vivia de plantar uvas e fazer vinho. Sua avó se chamava Magdalena e traiu a irmã Rosa Maria, na disputa por Nicolau Cezarino, um fogueteiro que imigrou ao Brasil e morreu numa explosão da própria fábrica de fogos de artifício.

Essa traição, vergonha da família, foi guardada por muitos e muitos anos. “Eu consegui revelar séculos depois este segredo. A avó de Eny fugiu da Itália para seduzir o marido da irmã Rosa, que ficou lá esperando os negócios de Nicolau prosperarem para vir ao Brasil. Magdalena engravidou, gerou José Cezarino, o pai de Eny, mas rejeitou o filho criado pela irmã, que via diabos nos campos de uva e achava que aquilo era um castigo divino”, comenta Lucius de Mello.

Entretanto, confessa que apesar de toda a pesquisa histórica que fez para contar a trajetória da família de Eny, o início do livro tem uma carga maior de ficção, onde conseguiu mostra seu talento como romancista.

“O livro é baseado numa história real, documentada, mas para não ficar uma biografia seca, uma grande reportagem, resolvi usar a literatura para dar o charme que a personagem fez a vida inteira por merecer. As costureiras foram sempre as confidentes de Eny. Então, costurei um vestido de fatos reais, mas arrematei com literatura, para ficar bonito. A prostituição naquela época era realmente glamourosa”, revela o escritor.

Na preservação dos fatos, com um texto mais jornalístico, Lucius denota a influência e a importância de Eny na cidade de Bauru, praticamente um mito: uma cafetina caridosa, que sustentava muitas famílias além da sua e que foi recebida até pelas freiras enclausuradas.

Muitas decisões políticas foram tomadas nas salas dos bordéis, que tiveram em seu apogeu nos anos 50. Pela casa de Eny na Rua Castro Ribeiro, hoje Presidente Kennedy, passaram noites personalidades como João Goulart, Ivete Vargas, Adhemar de Barros e Carvalho Pinto. Já na mansão do trevo viriam Jânio Quadros e Paulo Maluf.

A única visita que Eny gostaria de ter recebido e não recebeu, apesar de tê-lo encontrado várias vezes, foi Getúlio Vargas, um ídolo, que teve a cafetina como cabo eleitoral a cada eleição disputada. Mello narra com detalhes e carinho a amizade da cafetina e do ex-prefeito e ex-deputado Nicola Avalone Jr., o Nicolinha, a quem ajudou eleger muitas vezes e quem sempre a socorreu no problemas com a polícia. E, como não poderia deixar de ser, os seus verdadeiros amores.

Tudo isso trabalhando com flashback, uma briga do passado e presente durante a agonia de Eny no leito de morte no Hospital Beneficência Portuguesa, no seu último dia de sua vida. A cafetina morreu pobre e tendo apenas a companhia da enfermeira Madalena. No livro Mello realiza o sonho de Eny, tendo todos que passaram por sua vida vindo lhe dar adeus.

Fernando Morais, autor de “Olga”, “Chatô, o Rei do Brasil” e “Corações Sujos”, assina o prefácio e elogia o trabalho do jornalista, admirado pela riqueza do texto de um repórter de televisão acostumado a escrever notícias para frações de minutos. “Acho que o jornalismo em breve perderá um repórter, mas a literatura já comemora o encontro com um grande escritor.”

O dramaturgo bauruense Mauro Rasi, que não conheceu a cafetina pessoalmente, “foi ao bordel com a mente”, escreve a orelha do livro e confessa ter saudade do tempo de pecado que fazia da cidade uma Babilônia. “Era só falar de Bauru que se pensava em sacanagem, quase tão famosa quanto o sanduíche”...