Este ano, o horário eleitoral começou sem muita ironia da imprensa, sem muito choro dos críticos e sem as tradicionais listas de vídeos mais populares para alugar. E começou com casa cheia, alcançando, segundo o Ibope, já no primeiro dia, 52% de audiência domiciliar, só no horário noturno.
Além de atraírem bom público, os programas começaram quentes, com conteúdos que dominaram todo o noticiário eleitoral da semana. O que está em jogo daqui para a frente é a contabilidade de erros e acertos dos programas de cada candidato, que costumam ser milimetricamente medidos em pesquisas internas das campanhas. Feitos os primeiros ajustes, as próximas pesquisas darão os sinais e a consistência de possíveis mudanças decorrentes da propaganda gratuita.
Os movimentos iniciais estão postos. O PT busca proteger Lula em pontos vulneráveis de imagem. Por exemplo, uma parcela de eleitores não o vê como competente ou preparado. O contraponto, nas cenas para a televisão, foi mostrá-lo misturando-se aos quadros de notáveis do partido, assim como as competências específicas da equipe petista na saúde, na economia nos governos regionais e prefeituras.
Lula tem mais eleitores entre homens (40%) do que entre mulheres (30%). Portanto, revelam objetivo preciso as seqüências da emoção do candidato quando fala de seu passado ou a dramatização de uma situação pungente, como aquela vivida por uma mãe sem condições de pagar remédio para a filha doente que carrega no colo.
Ciro tem de espantar a idéia de que é instável, que suas alianças são dissonantes. Quer, sobretudo, mostrar que é o portador de mudanças com segurança. As músicas de seus programas são suaves, chega a usar uma gangorra com duas crianças, que se equilibra na fusão com o nome Ciro. Seu locutor fala em reconciliar adversários, quase expressando a possibilidade de que, em algum momento, Roberto Freire e ACM poderiam esquecer os gabirus de que falou o senador do PPS e conversar. A idéia é tranqüilizar o eleitor. O candidato apresenta suas propostas com objetividade, mas de forma algo ansiosa.
Serra destaca e detalha a proposta de criação de emprego área estratégica para definir votos, como mostram as pesquisas. No entanto, a demanda é tão forte e as circunstâncias econômicas tão difíceis que a desconfiança do eleitor é proporcional. O programa do tucano ampara-se de todos os lados, cria um clipe musical atraente e de fácil assimilação, detalha ponto a ponto sua proposta de emprego – carteira de trabalho na mão.
A estratégia de combate é necessária a Serra e, com o tempo de que dispõe, sobra-lhe espaço suficiente para uma comunicação basicamente positiva, como o eleitor gosta. Resta ver se essa tática será produtiva.
Poucos pontos que conseguir tirar de Ciro – e só as próximas pesquisas poderão dizer - seriam suficientes para mudar o tom de sua campanha. (A autora, Fátima Pacheco Jordão, é articulista da Agência Estado)