08 de julho de 2026
Articulistas

Coisas do Brasil...


| Tempo de leitura: 3 min

Trabalho no Arquivo da Unesp, ao lado do Museu e da estação ferroviária.

O Arquivo é lugar de pesquisas, mas serve também como muro de lamentações de velhos ferroviários. Costumo colher seus depoimentos para rechear a história da ferrovia. No meio das conversas, as infalíveis confissões de inconformismo pela brutalidade do sucateamento ferroviário.

No cotidiano do Arquivo, vejo cenas e ouço casos, que poderiam até resvalar para um saudável folclore, não fossem eles reveladores de uma tragédia, no meio de tantas outras que infelicitam este país.

Não faz muito, recebi uma lingüista alemã e um geógrafo inglês, ambos falando um português perfeito, interessados em recolher material pertinente às suas respectivas áreas de atuação. Diferentes na nacionalidade e na especialização profissional, identificaram-se, contudo, na perplexidade e na indignação diante dos nossos escombros ferroviários.

Tem os casos também do dia-a-dia, quando, não raro, surpreendo pais ou mães, tentando explicar aos filhos menores que aquela velha máquina exposta em frente ao Museu e ao lado do Arquivo é uma locomotiva, e não um ente de outro planeta. Afinal, embora transitando da puberdade para a adolescência, esses jovens nunca souberam o que é viajar de trem. Não me esqueço de uma jovem professora do 1.º grau, que levou seus aluninhos para conhecer o Arquivo e ficou sem resposta diante da pergunta de um deles: “Professora, como é andar de trem?”

As histórias são intermináveis, mas quero contar uma, que me foi passada pelo Paulão, professor como eu, quarenta anos de amizade.

Disse-me o Paulão que, há uns 10 anos mais ou menos, um cientista suíço, chamado Stols, veio ministrar cursos numa de nossas instituições. Logo ficou sabendo das delícias de um passeio, naturalmente impensável no seu pequenino país.

Era aquela célebre pescaria, rotineiramente organizada por bauruenses do ramo. Fretava-se um vagão da Estrada de Ferro Noroeste, com cozinha e dormitório, para engatá-lo a um trem regular da ferrovia, que, naquele tempo chegava à fronteira com o Paraguai e a Bolívia. Em pleno Mato Grosso, optava-se por estacionar o vagão num desvio, próximo ao rio Aquidauana, ou rio Miranda, ou ainda o Pantanal, paraísos a escolher. Uma semana daquela tal vida que se pediu a Deus.

Claro que o suíço embarcou e adorou o passeio. Despediu-se do Paulão e prometeu um dia voltar.

E não é que, meses atrás, Stols escreveu ao Paulo, informando de uma próxima viagem ao Brasil, e a Bauru? Com educação, mas com indisfarçável ansiedade, sondou o Paulo sobre a possibilidade de se organizar outra vez o inesquecível passeio a Mato Grosso.

Também com educação, mas sem maiores rodeios, o Paulão respondeu a carta, informando da impossibilidade de repetir a dose. E explicava por que: o trem acabou!

Entre perplexo e inconformado, o suíço não teve dúvidas. Ligou imediatamente para o Paulão, falando aquele português carregado de erres:

- Paulo, meu amigo, o que você quis dizer, com “o trem acabou”.

- Eu quis dizer que acabou!

- Como, Paulo? Acabou o trem? O que é isso?

- Stols, acabou o trem, não tem mais, é o fim! Agora, eles estão...

O suíço agradeceu, e nem esperou o Paulo completar a informação:

- ... Agora, eles estão vendendo a estação!

Seria demais para o Stols, um suíço que mora numa cidadezinha ligada por ferrovia, há mais de um século, com todos os países da Europa e o extremo oriental da Ásia. (O autor, João Francisco Tidei de Lima, é historiador e diretor do Museu Ferroviário)