08 de julho de 2026
Geral

Perspectivas contra Parkinson animam

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

A evolução da medicina e da indústria farmacêutica nos últimos anos trazem perspectivas animadoras para o o tratamento do Mal de Parkinson. A afirmação é da médica neurologista Mônica Santoro Haddad, especialista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Ela esteve em Bauru anteontem coordenando dois eventos. O primeiro foi uma reunião de atualização profissional para médicos, fonoaudiólogos, cardiologistas, fisioterapeutas e outros profissionais de saúde. O segundo foi uma palestra para pacientes parkinsonianos e seus familiares, com a participação de aproximadamente 80 pessoas. Acompanhe trechos da entrevista.

Jornal da Cidade: Quais são as perspectivas, hoje, para o tratamento do Mal de Parkinson? Mônica Haddad: As perspectivas envolvem, principalmente, o desenvolvimento de drogas neuroprotetoras e neuro-restauradoras. São remédios que possibilitariam, num primeiro momento, reduzir o ritmo de progressão da doença e, de uma forma ideal, provocar a recuperação das células que estão sendo perdidas no quadro parkinsoniano. Esses procedimentos também envolvem opções cirúrgicas, como implante de células-tronco, por exemplo.

JC: Com os tratamentos disponíveis hoje, é possível retardar a evolução da doença? Haddad: Existem, teoricamente, algumas drogas que teriam essa função neuroprotetora. Seria uma tentativa de desacelerar a progressão da doença. Ainda não há drogas comprovadamente eficazes em seres humanos com essa finalidade, mas as evidências experimentais apontam algumas substâncias com esse efeito, então, temos usado visando essa finalidade neuroprotetora.

JC: São perspectivas só de tratamento mais eficaz ou também indicam a cura? Haddad: As perspectivas a médio prazo são de tratamento mais eficaz. A longo prazo, a gente acredita que sejam de cura.

JC: Em quanto tempo? Haddad: É sempre difícil prever - não gostamos de criar expectativas. Mas, na última década, houve um avanço muito grande na compreensão dos mecanismos subjacentes da doença. A gente acredita que, nesse ritmo, nos próximos anos já deveremos ter algo mais eficaz para controle da doença. A cura, propriamente dita, é algo que não podemos prever.

JC: É difícil prever. Mas já é possível pensar nessa cura? Haddad: Sim, já é possível pensar, porque o nível de conhecimento que atingimos nos permite criar condições para que as pesquisas cheguem a esse ponto.

JC: Qual é a maior dificuldade do tratamento hoje? Haddad: É a decorrente do uso de múltiplas medicações. São pacientes que precisam tomar vários remédios e fazer diversas terapias de apoio. E a maior dificuldade é que o paciente compreenda a necessidade desse tipo de tratamento. Sem contra a dificuldade social, já que o custo desse tratamento é muito alto.

JC: Há alguns dias, o Ministério da Saúde determinou que o Sistema Único de Saúde (SUS) deverá começar a fornecer gratuitamente todos os medicamentos disponíveis hoje no Brasil para o tratamento do Mal de Parkinson. Como essa notícia foi recebida pelos médicos? Haddad: Isso, na verdade, é uma luta antiga nossa, encabeçada pela Associação Brasil-Parkinson. Como o Ministério da Saúde tem uma política que eles chamam de medicamento de alto custo (uma lei que obriga o fornecimento gratuito de remédios caros cujo uso é contínuo e para tratar doenças crônicas), a gente sempre considerou que os medicamentos do parkinsoniano também deveriam ser incluídos nesse tipo de política. Então, a determinação é recebida com contentamento, porque é uma postura esperada há bastante tempo.

JC: A imprensa divulgou que serão todos os medicamentos disponíveis no mercado brasileiro. Os profissionais confirmam isso ou serão apenas as drogas mais baratas? Haddad: A gente acredita que sejam todos. Na verdade, o mercado brasileiro dispõe de todas as categorias de medicamentos necessárias. Existem medicamentos no Brasil semelhantes aos importados. As drogas mais tradicionais já estavam incluídas na lista do SUS. A gente acredita que estejam sendo incluídos os medicamentos mais novos, de introdução mais recente (...) Mas eu ainda não tenho conhecimento da portaria e da listagem dos remédios incluídos.

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O que é

De acordo com a médica Mônica Haddad, o Mal de Parkinson é uma doença degenerativa do sistema nervoso central em que há uma perda de neurônios de uma área específica do cérebro chamada “substância negra”. A perda dessa substância acarreta diversas alterações na motricidade do paciente, o que resulta em sintomas como tremores, diminuição da velocidade de movimentos e rigidez muscular.

Quadros depressivos e alterações de sudorese, salivação e produção das glândulas sebáceas também são freqüentes, segundo ela. Trata-se de uma doença progressiva. O tratamento disponível hoje alivia os sintomas e permite que o paciente conviva com a patologia com qualidade de vida.

Estatísticas internacionais indicam que o Mal de Parkinson atinge uma em cada 150 mil pessoas no mundo. “Isso representa cerca de 0,75% da população. A idade média de início da doença [e entre os 50 e 60 anos, mas ela pode se manifestar em qualquer faixa etária. Cerca de 10% dos pacientes apresentam os primeiros sintomas antes dos 40 anos, o que chamamos de parkinsionismo juvenil”, explica.

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Aposentado diz que custo alto dificulta tratamento

O professor aposentado Antonio de Souza Borges, 64 anos, recebeu o diagnóstico do Mal de Parkinson há cerca de três anos. Segundo ele, o custo do tratamento chega a quase R$ 400,00 por mês. “Cada caixa do remédio custa R$ 128,00”, afirma.

Questionado sobre a determinação do Ministério da Saúde de que o Sistema Único de Saúde (SUS) comece a distribuir gratuitamente todos os medicamentos disponíveis no Brasil para o tratamento da patologia, ele se mostra animado.

“Tem um fundo político, com certeza. Mas é muito válido, porque o aposentado que ganha um salário mínimo de aposentadoria não consegue custear esse tratamento”, observa.

Ele afirma que, se o medicamento usado por ele estiver entre os de distribuição gratuita, ele não hesitará em inscrever-se num posto de saúde para recebê-lo.

“Imagine se eu não vou querer economizar quase R$ 400,00 por mês! Tomara que isso se torne realidade. E que perdure, que não seja só na época da política, porque a gente vê que todas essas coisas, quando se trata de beneficiar o povão, é sempre em função de algum interesse. Quando acaba a motivação, vai tudo por terra”, pondera.

Segundo assessoria de imprensa do Ministério da Saúde, os medicamentos deverão estar disponíveis a partir de setembro. Com a distribuição, o órgão federal pretende ampliar em até cinco vezes o número de pacientes atendidos pela rede pública, passando de 2 mil para 10 mil pessoas.

A recomendação do ministério é para que os portadores da doença procurem os centros municipais de assistência à saúde do idoso e façam uma consulta para que seja elaborada uma lista dos remédios necessários. Desta forma, é possível garantir a distribuição das drogas sem desperdício.

• Serviço

O Programa Municipal de Atendimento ao Idoso (Promai) de Bauru fica na praça Rodrigues de Abreu, 3-60. O atendimento é feito das 7h às 17h. O telefone é (14) 235-1531.