08 de julho de 2026
Cultura

Tópicos da Construção/ Des-Construção


| Tempo de leitura: 4 min

Dentre as principais características que modificaram as perspectivas de pesquisa nas artes plásticas, pois promoveram uma mudança qualitativa na visão artística no final do século 20, destaca-se uma que diz respeito a mudanças profundas que se processaram diretamente no pensamento e gestão da espacialidade, ampliando o foco de atenção para o entorno e não só concentrando-se no objeto único, como aconteceu na modernidade.

Um pensamento dotado de imaginação coerente e, creio eu, convincente, pois está vinculado à experiência vital do nosso corpo frente a estímulos espaço/ temporais.

Os espaços construídos pelos artistas podem ser densos e apaixonados, ilimitados ou invioláveis, delicados e íntimos, confrontadores ou iniciáticos mas, no instante em que o espectador interage e dialoga com a estética desses espaços, seu corpo pode-se fazer mais fluido, mais aberto, mais espacial. Em fim, se faz mais poético e a obra verdadeiramente acontece.

Obviamente, o espaço por nós criado não é literal e, portanto, não pode ser contido ou reduzido a palavras, fotografias, diagramas, ou quaisquer outros meios de representação.

O principal veículo é ele mesmo e só a fina percepção de se ser e de se estar no espaço, nos permite vivenciar a obra, vivenciando o espaço onde ela acontece. Deste modo, se faz imprescindível a presença do espectador in loco.

Nada pode substituir a experiência espacial, nem sequer minha arriscada tentativa de expressar com palavras uma experiência que nos é tão pessoal. Embora devo admitir que acredito que as palavras podem, sim, nos persuadir a procurar uma relação mais profunda e profícua da realidade, principalmente quando e, como até acontece em nosso caso, a palavra faz parte da obra e, vindo aquém do seu valor semântico, se faz sintaxe, ícone enquanto signo estético.

A exposição Construção/ Des-construção é na verdade uma grande metáfora do processo criativo no universo, da mente e suas ressonâncias, como registros materiais e energéticos do nosso fazer.

A exposição como um todo é um grande poema onde se urde na trama um tráfego intenso e permanente entre o verbal e o não-verbal, entre a materialidade do mármore e a imaterialidade do vídeo, entre a fluidez da pintura, a agilidade do traço, o brilho do metal fundido, a maciez translúcida da parafina derretida, e claro, os incontáveis fragmentos da brita do mármore e o preto azul profundo das lascas do carvão vegetal, e a lógica analógica da história dos números nas palavras.

No início, o uni verso, de onde o quadrado se eleva como plano e forma, pattern do espaço. O cubo, o grande cubo preto, surge consagrando o âmbito da espacialidade da obra, da razão intrínseca da geometria à sensibilidade perceptiva dos materiais, do objeto consumado da pintura/ escultura, ao território dos artistas e suas liberdades poéticas que chegam e transformam a percepção intuitiva da esfera cósmica em cubo, o círculo em quadrado, em traços que se cruzam ... o todo dentro do qual haverá de dar-se à luz, à parte.

Em fim, outro todo, o grande cubo branco que pela energia imanente e eterna da batida constante no vídeo, é feito mármore sólido e consciente.

Nasce à imagem e semelhança da forma-mãe, o cubo, hexaedro que a mente constrói em sua racionalidade. Forma que impõe-se no ritmo e na simplicidade geométrica e que, com sua percussão/ repercussão, vai contaminando todas as formas processadas nas obras e no território que geramos.

Entretanto, a utilização da simplicidade geométrica não é um fato isolado ou exclusivo da produção artística de uma época ou um período determinado, pois como analisa Lairana, “quem quando criança não desenhou essas figuras geométricas tão aparentemente simples?”, e como ela mesmo conclui entorno disto - “ter um objeto de estudo concreto ou abstrato, sob diferentes pontos de vista é uma experiência fascinante” - e completa - “O treino do inatingível é uma experiência mística.”

• Serviço

Exposição “Des-Construção”, com obras de Laranjeira, Yara Martini, Gisele Aidar e Lairana, até o dia 31 de agosto, no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”. Av. Nações Unidas, 8-9. Telefones: (14) 235-1072 ou 235-1092

(O autor, José dos Santos Laranjeira, é escultor, designer, mestre em artes pela Unicamp, professor do departamento de artes RG da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp-Bauru e doutorando pela Universidade de Barcelona (UB))