08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sobre religião


| Tempo de leitura: 5 min

Senhor diretor. Aborrece-me escrever sobre o assunto religião, mas a carta publicada no último dia 8, sobre “Aparição de sinais e imagens”, me impele a fazê-lo. Ainda que o assunto seja polêmico eu lhe confesso que não pretendo travar polêmicas com ninguém e que esta é minha primeira e última carta sobre o assunto.

A ilustre missivista que se gaba de ler a Bíblia afirma que não se inclui entre os que chamam a Virgem Santíssima de “Nossa Senhora”. Mas é a própria Bíblia que nos desperta todo o amor que temos por Maria. Desde o primeiro instante, a saudação angelical nos diz que ela “encontrou graça diante de Deus”. E mais, ante a confissão do anjo de que ela geraria um filho, ela disse-lhe: “Como se fará isso, pois não conheço homem? E respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado filho de Deus.”

Depois, em visita à sua prima, ouviu de Isabel, que estava cheia do Espírito Santo, estas palavras: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Bem-aventurada és tu, que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas.” E Maria acaba por dizer: “Eis que doravante me proclamarão bem-aventurada todas as gerações porque fez em mim grandes coisas o Todo Poderoso, e santo é o seu nome.”

Portanto, eu me orgulho de saudar Nossa Senhora, que alcançou graça diante de Deus. Minha geração está entre aquelas que a saúdam como bem-aventurada, como “Nossa Senhora”, com regozijo, com alegria, com a graça de Deus. A ilustre missivista fique com sua crença, mas não diga que ela é bíblica, pois não é.

Quanto ao fato de crer só em Jesus Cristo... algo está errado nesta forma de encarar o fato. Se não, vejamos: no livro do Êxodo, Deus Pai, o Todo Poderoso, o Supremo criador, se socorre de um homem, Moisés, para tirar o seu povo do Egito. Atendeu, não sem reclamar, aos seus apelos de que não tinha o dom da palavra, e seu irmão, Aarão, foi com ele ao faraó do Egito. Ora, por que Deus teria se valido de um homem para tão importante missão? Não poderia ele mesmo ter feito tudo sozinho?

Da mesma forma, Cristo, não poderia ter-se desincumbido da sua missão sozinho? Por que teve que confiar nos discípulos? O que a missivista tem a dizer sobre o episódio de Saulo, que um outro missivista narra em sua carta no mesmo dia 8? Certamente, Deus e Cristo puseram homens para cuidar dos homens. Profetas, gente santa. E não havia Bíblia para se invocar. Aliás, havia o Pentateuco, nas mãos dos hebreus, no tempo de Cristo. É por isso que temos que ouvir os padres nas Igrejas, e os irmãos separados, ouvir os seus pastores.

Se o negócio está em seguir apenas a Bíblia por que temos que perder tempo com padres e com pastores? Pois é... nós os católicos temos fé nos nossos sacerdotes. E mais que isso, temos fé em nossos santos que durante a vida na terra fizeram a vontade de Cristo. E pedimos-lhes forças para que caminhemos para Cristo, que é o “caminho, a verdade e a vida”. Pelos santos vamos até Ele.

“Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, eu vo-lo darei, para que o Pai seja glorificado no Filho” (João, XIV, 13-14); “Se vós permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á feito” (João, XV, 7); “E tudo quanto nós lhe pedirmos, receberemos d’Ele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é do seu agrado” (1.ª João, III, 22). Ora, se as petições dos justos são atendidas já neste mundo, em virtude das promessas de Cristo, quanto mais não o serão quando feitas por justos vivendo na glória. É, pois, valiosa a intercessão dos santos.

A intercessão dos Santos é aconselhada por Deus: “Tomai sete touros... ide ao meu servo Jó... O meu servo Jó... orará por vós e admitirei propício a sua face” (Jó, XLII, 8). “Quando Abimelec quis tomar por mulher Sara, esposa de Abraão, Deus lhe apareceu e lhe disse: Devolve agora a mulher deste homem, que é um profeta, e ele rogará por ti, para que conserves a vida” (Gen. XX, 1-8). “Orai uns pelos outros, para serdes salvos, porque a oração do justo, sendo fervorosa, pode muito” (Tiago, V, 16). Os Santos no céu tornam-se nossos intercessores: “E tendo aberto o livro, os quatro animais e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um cítaras e taças de ouro cheias de perfume, que são as orações dos santos” (Atos, V, 3).

Quanto aos falsos profetas, a ilustre senhora certamente está se referindo aos das novas igrejas que pululam por aí. Quanto a condenação de imagens da Bíblia, é outra história mal contada. Quem quer que leia o Antigo Testamento com isenção de ânimo, verá apenas que Deus proíbe imagens de deuses para adorar. Ele não proibiu a confecção de imagens. Se não, vejamos: “Farás também dois querubins de ouro batido, nas duas extremidades do oráculo. Um querubim esteja de um lado e outro de outro” (Ex. XXV, 18). “E para o altar em que se queima o incenso, deu do ouro mais fino para que dele se fizesse a figura dum carro de querubins que estendessem as suas asas, e cobrissem a arca da aliança do Senhor. Todas estas coisas, disse o rei, me foram dadas escritas pela mão de Deus.” “O povo veio a Moisés e disse-lhe: Pecamos murmurando contra o Senhor e contra ti. Roga ao Senhor que afaste de nós essas serpentes. Moisés intercedeu pelo povo, e o Senhor disse a Moisés: Faze uma serpente de bronze (isto é, imagem) e levanta-a num poste. Todo o que for mordido, olhando para ela será salvo.”

Eu sou feliz porque sou católico. A minha Igreja, que louva seus santos, pois tem santos para louvar, dá a explicação para essas aparições de imagens. Impõe sua voz com maturidade sobre o tema, e dispensa comentários. Sou grato pela publicação desta na Tribuna do Leitor, e agradecendo sua atenção, firmo-me respeitosamente. (Armando Persin - RG: 1.984.227)