08 de julho de 2026
Geral

Mente pode superar físico de atleta

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

Mente sã, corpo são. Quantas gerações seguem essa doutrina e conseguem tirar o melhor proveito desse equilíbrio que, nos dias atuais, pode ser tão facilmente abalado? Para os atletas que precisam de superação a cada prova, diariamente novas drogas e baterias de exercícios surgem para reforçar essa busca. Entretanto, o professor de educação física e psicólogo Léo Rizzo faz parte de uma equipe que se supera não só pelo corpo, mas pela mente, que é treinada para vencer os limites de cada indivíduo de maneira salutar e equilibrada.

Rizzo, que nasceu em Duartina e aplica seu trabalho em universidades e grupos de psicologia esportiva no País inteiro, colhe resultados de seleções em campeonatos mundiais. Ele esteve na cidade para um curso no Bauru Tênis Clube e conversou com o JC:

Jornal da Cidade - Como todo esse processo de treinamento mental começou? Léo Rizzo - Os russos sistematizaram o treinamento mental impulsionados pela corrida espacial e pela perspectiva de pousar na Lua. Os cientistas sabiam que os astronautas teriam sérios problemas orgânicos assim que saíssem da órbita gravitacional da Terra, pela mudança de uma série de fatores. A questão era como reverter e minimizar o aparecimento destas condições desfavoráveis. Os cientistas sabiam também que não podiam contar com o efeito da gravidade. A solução foi encontrada no Oriente, onde os praticantes de ioga eram enterrados vivos e os monges tibetanos viviam nas montanhas geladas apenas de calção. Os cientistas foram pesquisar as manifestações daquelas pessoas nos momentos de dificuldade e perceberam que usavam técnicas de controle mental aliadas a exercícios de respiração. Dessa pesquisa russa surgiu o treinamento para os astronautas entre os anos 50 e 60, mas já em 1920 o médico americano Edmund Jacobsen sistematizou um trabalho chamado relaxamento muscular progressivo. Outro estudo foi desenvolvido na Alemanha pelo cientista Johannes Schutz, que é pai do treinamento autógeno, mais conhecido no meio terapêutico. Esses pesquisadores foram os primeiros a estudar a integração corpo e mente.

Em 1970, esse conhecimento extrapolou para o esporte e seus resultados puderam ser vistos na Olimpíada de Winnipeg, no Canadá, em 1976. Os russos e os alemães chegaram na frente e, na comunidade científica, todos acreditavam que os atletas estavam dopados. Uma parte da comunidade esportiva alertou que poderiam estar fazendo outros treinamentos. O ministro dos esportes da Alemanha Oriental deu uma declaração de que aquelas vitórias dos alemães e dos russos eram devidas aos novos e revolucionários métodos de treinamento. Ele também disse que abriria as escolas do seu país para as demais comunidades.

JC - Hoje, sabe-se que houve muito dopping na antiga União Soviética e na Alemanha. Como eles conseguiram provar a pesquisa e a descoberta do método de treinamento mental no esporte? Rizzo - No final da década de 70 houve um congresso de psicologia mundial em Milão, na Itália, e estava representando os Estados Unidos, um psicólogo responsável pelo treinamento dos astronautas que foram à Lua, chamado Charles Garfield. E em seu encontro com os russos, foi convidado para passar por uma experiência. O Garfield tinha sido levantador de peso internacional e aceitou o desafio. Em 71, oito anos antes deste encontro, ele tinha atingido sua marca máxima: 165 quilos. Mas em 79 sua marca era de apenas 125 quilos. Os russo sugeriram que para a experiência dar resultado seria muito importante um levantamento de 130 quilos e que seria possível. Eles fizeram um trabalho de alta ciência e o atleta conseguiu levantar os 130. Após essa conquista, os russos conduziram o ex-atleta a um relaxamento e realizaram um ensaio mental do que ele realizaria em seguida: levantar novamente os 160 quilos. Ele se viu levantando a barra, ouviu o barulho da queda dos pesos, sentiu o trabalho que fez. Ao final do trabalho, com controle de ansiedade e de reações metabólicas, Garfield surpreendeu e levantou 165 quilos. Ele quase enlouqueceu quando descobriu que os russos tinham descoberto um método científico para se alcançar o rendimento máximo. Garfield tem até um livro sobre o assunto “O Rendimento Máximo: Técnicas do Treinamento Mental dos Grandes Campeões”, que se tornou uma bíblia para quem adota a técnica. Os americanos, então, montaram um grande time de cientistas para estudar todos esses aspectos e levar aos atletas um trabalho sistematizado.

JC - Até hoje os americanos adotam o método? Rizzo - Os Estados Unidos têm hoje um centro específico de treinamento mental nos esportes. Todo atleta que vai defender os EUA passa por um trabalho nessa área. Lá, trabalho de psicologia nos esportes está incorporado, faz parte do treinamento. É diferente do que ocorre no Brasil, onde um ou outro atleta ou time contrata um psicólogo. Nas olimpíadas de Atlanta, a delegação tinha 30 psicólogos; em Sidney eram 100 profissionais numa delegação de menos de 600 atletas. Isso denota a importância que eles dão ao treinamento.

JC - Mas no Brasil isso ainda é muito recente, em torno de cinco anos é que se fala em psicologia nos esportes em uma ou outra modalidade. De fato, o que está sendo feito? Rizzo - Em Sidney, oficialmente o Brasil contratou um consultor organizacional, o Roberto Shiniashiki, muito famoso, mas que não tem nada a ver com esporte. Ele foi fazer algumas palestras para os brasileiros a convite do Comitê Brasileiro, que não reconhece o trabalho feito há anos por muitos profissionais do esporte. Mas nós estamos num momento em que as coisas começam a acontecer. A Regina Brandão já trouxe o ouro de Barcelona com o vôlei masculino. O Nuno Cobra levou o Ayrton Senna à condição de ídolo. Eu já consegui algumas medalhas com a Seleção Brasileira de Basquete Feminino sob o comando do bauruense Antônio Carlos Barbosa. Levei o vôlei do Bauru Atlético Clube (BAC) à divisão especial e também participo do grupo que trabalha com a turma do vôlei de praia.

JC - Esse treinamento é diferenciado para cada modalidade ou para cada atleta? Rizzo - O trabalho é voltado para o indivíduo.

JC - Isso significa que na mesma sala posso ter um nadador, um enxadrista e um jogador de basquete? Rizzo - Se o clube ou os psicólogos não tiverem tempo para um trabalho individual, podemos adaptar para vários atletas. Existe o ideal e o possível. O ideal é trabalhar com a mesma modalidade.

JC - O que está sendo feito para que esse trabalho seja mais acessível, conhecido e reconhecido por todos? Rizzo - Há uma série de universidades que estão disponibilizando essa linha de estudo em nível de pós-graduação. Os profissionais também estão se multiplicando e se unindo na divulgação do método de psicologia esportiva. Algumas escolas já adotam nas grades de graduação, como onde eu ministro aula, na antiga Escola Paulista de Medicina. Nós estamos dando um salto e em alguns anos vamos estar presentes na rotina de todos os atletas.

JC - Além do melhor desempenho, quais as outras vantagens do treinamento mental? Rizzo - A formação da pessoa que vai se tornar mais competitiva, mas menos egoísta. Pois o treinamento trabalha com potencialidades que ela possui. O atleta vai manter-se centrado e afastado de contusões.

JC - Em termos práticos, qual é a linha mestra desses treinamento? Rizzo - O treinamento mental vai utilizar recursos que já existem no indivíduo, através de exercícios de respiração e relaxamento, imagens, que são as visualizações e as auto-afirmações. Todo mundo pensa, respira e fala, mas precisamos fazer de maneira consciente e positiva. A própria perspectiva de se negar alguma coisa ou afirmar que o adversário é sempre melhor já diminui esse potencial. Podemos reconhecer as qualidades dos outros, mas não valorizá-las a ponto de deixar com que elas atrapalhem. Nós vamos organizar esses recursos em cada um. Não é uma produção de campeões em série, mas é lembrar que a mente é que controla o corpo e é perfeitamente capaz de fazê-lo melhorar a performance. O corpo não é deixado de lado, mas vai estar conectado com o melhor dele. Já fiz um atleta deficiente de Marília, o Aurélio, que almejava chegar em vigésimo numa maratona. Chegou em segundo, somente tendo a devida noção do que era capaz. Condicionamento físico ele tinha, faltava o equilíbrio.