08 de julho de 2026
Geral

PM pode exigir 1,70m para corporação

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

A nova geração de brasileiros aumentou de tamanho, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para acompanhar o crescimento da população e enfrentar os “marginais”, cada dia mais altos, a Polícia Militar (PM) está estudando a possibilidade de exigir 1,70 metro de altura dos interessados em ingressar na corporação. Atualmente, exige-se 1,65 metro.

A mudança ainda não está formalizada. Oficiais da PM estão realizando estudos de antropometria para chegar a uma conclusão sobre a medida ideal. A idéia é fazer com que a tropa tenha uma imagem mais forte e acompanhe o tamanho dos marginais.

Essa não é a primeira vez que a corporação estuda a possibilidade de mudar a exigência. Na década de 80, um grupo de oficiais se reuniu com o mesmo propósito e sugeriu que a altura mínima deveria ser de 1,74 metro. Porém, o projeto de alteração não foi em frente.

Um dos empecilhos encontrados naquela época foi a altura da maioria dos oficiais. O alto comando da PM era ocupado por oficiais com estatura mediana. Hoje, o comandante-geral da PM, coronel Alberto Silveira Rodrigues, 50 anos, tem 1,80 metro de altura.

O comandante do CPI-4, coronel Hélder Pereira, não ingressaria na PM se a exigência fosse 1,70 metro de altura há 30 anos atrás. Ele mede 1,68 metro e tem sob seu comando cerca de 5.800 homens.

Para ele, a mudança é bem-vinda, desde que o IBGE prove que a altura do brasileiro mudou. “A PM tem que manter homens com a estatura mediana. Se houve aumento de modo geral, acho que a corporação deve aumentar de 1,65 metro para 1,70 metro.”

Na opinião dele, a presença física causa um impacto psicológico. “No policiamento rotineiro não é necessário, mas em controle de tumultos a presença física é muito importante. Causa um impacto psicológico que influencia na reação dos revoltados.”

Pereira acha que o assunto é bastante discutível. “Os mais altos e mais fortes, às vezes são mais lentos, enquanto que os mais baixos e franzinos são mais ligeiros.”

O coronel acredita que os soldados mais baixos podem ser empregados na maioria das atividades, porém, em casos específicos, a estatura faz a diferença. “Num campo de futebol, num jogo de basquete, os policiais mais baixos levam desvantagem, por isso é que temos um pelotão de choque para atuar nesses casos”, observa.

A função de gerenciamento não exige peso nem altura, defende o comandante. “Temos oficiais baixos com grande potencial de inteligência, assim como temos oficiais altos que estão em cargos de gerenciamento. Nessa área não importa a estatura, e sim, a capacidade de gerenciar.”

Pereira confessa que nos 31 anos de profissão nunca sofreu com sua altura. “Não tive limitações. Há pessoas robustas que não têm a mesma agilidade dos menores. Os orientais, por exemplo, são pequenos no tamanho, mas conhecem técnicas que derrubam os grandões.”

Seleção

O comandante do 4.º BPMI, tenente coronel Alexandre Cintra Borin, explica que a seleção para o pelotão de choque considera o aproveitamento profissional. “Tomamos por base o aproveitamento profissional do PM. É evidente que, de um universo grande de PMs, dá para selecionar aqueles com porte físico ideal e aproveitamento profissional.”

Para Borin, o impacto visual impressiona e, em determinados casos, pode até desestimular a pessoa que está praticando uma desobediência. “Nos casos de perturbação da ordem pública, greves, rebeliões e em penitenciárias, o porte físico avantajado impressiona.”

Nas atividades rotineiras, o tenente coronel não vê necessidade do impacto visual. A Polícia Militar faz um trabalho social integrado. “Eventualmente lidamos com a criminalidade.”

Borin frisa que, em ações específicas, o policial pode contar com a ajuda dos animais. “O cavalo é um animal respeitado pelo tamanho e, o cão, pela suas atitudes. Ambos podem auxiliar o policial em ações que exijam força física.”

Obstáculos

O soldado Renato Valderramas De Favari tem 1,90 metro de altura e trabalha no pelotão de choque de Bauru, Tático 4. “Levo vantagem quando a situação é de transpor obstáculos. Mas se for necessário subir em um telhado, por exemplo, preciso do auxílio de um companheiro menor. Por ser mais leve, ele pode subir e não corre o risco de despencar.”

Na opinião dele, a estrutura física impressiona e impõe respeito. “Quem tem porte maior chama mais atenção e causa um impacto psicológico.” Ser mais alto também é servir de “escada”. “Servimos como base, quando necessário, para que os companheiros menores tenham acesso a locais muito altos.”

Outro ponto de vantagem para os mais altos, segundo Favari, é durante uma corrida. “Nossos passos são mais largos, porém, se o menor estiver bem treinado, consegue a mesma velocidade.”

Mais ligeiro

O soldado Luiz Carlos de Freitas tem 1,65 metro e 54 quilos. É o mais baixo do pelotão, mas não se sente excluído por isso. “No Tático 4 as tarefas são divididas. Tenho minha função, que não é menor e nem maior do que a dos mais altos.”

Para ele, as desvantagens dos “baixinhos” ocorrem nas abordagens de pessoas agressivas. “A gente sente dificuldade na abordagem. Nos meus dez anos de profissão, nunca tive problemas.”

Técnicas

Na opinião do comandante do Tático 4, tenente Hudson Covolan, a estatura do policial pode ser compensada com técnicas de imobilização. “Na nossa atividade, nos deparamos com pessoas mais fortes e mais fracas. Somos treinados para imobilizar ambas.”

Os equipamentos podem superar a força física do adversário, na opinião do tenente. “Em caso de tumulto podemos usar, além das técnicas de imobilização, o gás de pimenta, por exemplo.”

Ele é favorável à exigência, caso seja aprovada. â€œÉ nítido que o brasileiro cresceu. Percebemos que os jovens superam os pais na altura. Existem adolescentes com 15 anos de idade e 1,80 metro. Se temos uma população mais alta, o policial precisa acompanhar, se não vai ficar em desvantagem.”

Primeiro a ser notado

O soldado Edson Neco do Tático 4 tem um porte físico avantajado e é conhecido como guarda-roupa de quatro portas: tem 1,90 metro de altura e 115 quilos. Sua presença causa um impacto psicológico tão grande que muitos marginais desistem do que estão fazendo ao vê-lo descer da viatura policial.

Neco conta que, por ser o motorista do Tático 4, é o último a descer da viatura. “Percebo que quando desço, o marginal recua. Minha estrutura física provoca respeito.”

Conhecido como o “grandão”, ele confessa que tem limitações. “Se precisar subir em telhado ou em locais que suportam pouco peso, tenho que chamar o companheiro mais leve”, conta o soldado.

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Brasileiro cresceu

Estudo realizado entre 1989 e 1997 mostra que, em oito anos, a altura média dos jovens de até 25 anos de idade teve aumento médio de dois centímetros.

O pediatra Sidney Aparecido Brandão, pós-graduando do Departamento de Pediatria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), encerra sua tese de doutorado sobre a co-relação entre fatores sócio-econômicos e dados antropométricos em recrutas do Exército Brasileiro entre 1990 e 2000. Ele chegou à conclusão de que os paulistas também são maiores.

Nos dez anos pesquisados, constatou que os jovens paulistas de 18 anos cresceram três centímetros nesse período. Brandão analisou a evolução da altura de 493.800 jovens selecionados pelo Exército.