A nova geração de brasileiros aumentou de tamanho, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para acompanhar o crescimento da população e enfrentar os “marginaisâ€, cada dia mais altos, a Polícia Militar (PM) está estudando a possibilidade de exigir 1,70 metro de altura dos interessados em ingressar na corporação. Atualmente, exige-se 1,65 metro.
A mudança ainda não está formalizada. Oficiais da PM estão realizando estudos de antropometria para chegar a uma conclusão sobre a medida ideal. A idéia é fazer com que a tropa tenha uma imagem mais forte e acompanhe o tamanho dos marginais.
Essa não é a primeira vez que a corporação estuda a possibilidade de mudar a exigência. Na década de 80, um grupo de oficiais se reuniu com o mesmo propósito e sugeriu que a altura mínima deveria ser de 1,74 metro. Porém, o projeto de alteração não foi em frente.
Um dos empecilhos encontrados naquela época foi a altura da maioria dos oficiais. O alto comando da PM era ocupado por oficiais com estatura mediana. Hoje, o comandante-geral da PM, coronel Alberto Silveira Rodrigues, 50 anos, tem 1,80 metro de altura.
O comandante do CPI-4, coronel Hélder Pereira, não ingressaria na PM se a exigência fosse 1,70 metro de altura há 30 anos atrás. Ele mede 1,68 metro e tem sob seu comando cerca de 5.800 homens.
Para ele, a mudança é bem-vinda, desde que o IBGE prove que a altura do brasileiro mudou. “A PM tem que manter homens com a estatura mediana. Se houve aumento de modo geral, acho que a corporação deve aumentar de 1,65 metro para 1,70 metro.â€
Na opinião dele, a presença física causa um impacto psicológico. “No policiamento rotineiro não é necessário, mas em controle de tumultos a presença física é muito importante. Causa um impacto psicológico que influencia na reação dos revoltados.â€
Pereira acha que o assunto é bastante discutível. “Os mais altos e mais fortes, às vezes são mais lentos, enquanto que os mais baixos e franzinos são mais ligeiros.â€
O coronel acredita que os soldados mais baixos podem ser empregados na maioria das atividades, porém, em casos específicos, a estatura faz a diferença. “Num campo de futebol, num jogo de basquete, os policiais mais baixos levam desvantagem, por isso é que temos um pelotão de choque para atuar nesses casosâ€, observa.
A função de gerenciamento não exige peso nem altura, defende o comandante. “Temos oficiais baixos com grande potencial de inteligência, assim como temos oficiais altos que estão em cargos de gerenciamento. Nessa área não importa a estatura, e sim, a capacidade de gerenciar.â€
Pereira confessa que nos 31 anos de profissão nunca sofreu com sua altura. “Não tive limitações. Há pessoas robustas que não têm a mesma agilidade dos menores. Os orientais, por exemplo, são pequenos no tamanho, mas conhecem técnicas que derrubam os grandões.â€
Seleção
O comandante do 4.º BPMI, tenente coronel Alexandre Cintra Borin, explica que a seleção para o pelotão de choque considera o aproveitamento profissional. “Tomamos por base o aproveitamento profissional do PM. É evidente que, de um universo grande de PMs, dá para selecionar aqueles com porte físico ideal e aproveitamento profissional.â€
Para Borin, o impacto visual impressiona e, em determinados casos, pode até desestimular a pessoa que está praticando uma desobediência. “Nos casos de perturbação da ordem pública, greves, rebeliões e em penitenciárias, o porte físico avantajado impressiona.â€
Nas atividades rotineiras, o tenente coronel não vê necessidade do impacto visual. A Polícia Militar faz um trabalho social integrado. “Eventualmente lidamos com a criminalidade.â€
Borin frisa que, em ações específicas, o policial pode contar com a ajuda dos animais. “O cavalo é um animal respeitado pelo tamanho e, o cão, pela suas atitudes. Ambos podem auxiliar o policial em ações que exijam força física.â€
Obstáculos
O soldado Renato Valderramas De Favari tem 1,90 metro de altura e trabalha no pelotão de choque de Bauru, Tático 4. “Levo vantagem quando a situação é de transpor obstáculos. Mas se for necessário subir em um telhado, por exemplo, preciso do auxílio de um companheiro menor. Por ser mais leve, ele pode subir e não corre o risco de despencar.â€
Na opinião dele, a estrutura física impressiona e impõe respeito. “Quem tem porte maior chama mais atenção e causa um impacto psicológico.†Ser mais alto também é servir de “escadaâ€. “Servimos como base, quando necessário, para que os companheiros menores tenham acesso a locais muito altos.â€
Outro ponto de vantagem para os mais altos, segundo Favari, é durante uma corrida. “Nossos passos são mais largos, porém, se o menor estiver bem treinado, consegue a mesma velocidade.â€
Mais ligeiro
O soldado Luiz Carlos de Freitas tem 1,65 metro e 54 quilos. É o mais baixo do pelotão, mas não se sente excluído por isso. “No Tático 4 as tarefas são divididas. Tenho minha função, que não é menor e nem maior do que a dos mais altos.â€
Para ele, as desvantagens dos “baixinhos†ocorrem nas abordagens de pessoas agressivas. “A gente sente dificuldade na abordagem. Nos meus dez anos de profissão, nunca tive problemas.â€
Técnicas
Na opinião do comandante do Tático 4, tenente Hudson Covolan, a estatura do policial pode ser compensada com técnicas de imobilização. “Na nossa atividade, nos deparamos com pessoas mais fortes e mais fracas. Somos treinados para imobilizar ambas.â€
Os equipamentos podem superar a força física do adversário, na opinião do tenente. “Em caso de tumulto podemos usar, além das técnicas de imobilização, o gás de pimenta, por exemplo.â€
Ele é favorável à exigência, caso seja aprovada. â€œÉ nítido que o brasileiro cresceu. Percebemos que os jovens superam os pais na altura. Existem adolescentes com 15 anos de idade e 1,80 metro. Se temos uma população mais alta, o policial precisa acompanhar, se não vai ficar em desvantagem.â€
Primeiro a ser notado
O soldado Edson Neco do Tático 4 tem um porte físico avantajado e é conhecido como guarda-roupa de quatro portas: tem 1,90 metro de altura e 115 quilos. Sua presença causa um impacto psicológico tão grande que muitos marginais desistem do que estão fazendo ao vê-lo descer da viatura policial.
Neco conta que, por ser o motorista do Tático 4, é o último a descer da viatura. “Percebo que quando desço, o marginal recua. Minha estrutura física provoca respeito.â€
Conhecido como o “grandãoâ€, ele confessa que tem limitações. “Se precisar subir em telhado ou em locais que suportam pouco peso, tenho que chamar o companheiro mais leveâ€, conta o soldado.
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Brasileiro cresceu
Estudo realizado entre 1989 e 1997 mostra que, em oito anos, a altura média dos jovens de até 25 anos de idade teve aumento médio de dois centímetros.
O pediatra Sidney Aparecido Brandão, pós-graduando do Departamento de Pediatria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), encerra sua tese de doutorado sobre a co-relação entre fatores sócio-econômicos e dados antropométricos em recrutas do Exército Brasileiro entre 1990 e 2000. Ele chegou à conclusão de que os paulistas também são maiores.
Nos dez anos pesquisados, constatou que os jovens paulistas de 18 anos cresceram três centímetros nesse período. Brandão analisou a evolução da altura de 493.800 jovens selecionados pelo Exército.