O Serviço de Inteligência Policial da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) e do Grupo Anti-Seqüestro localizou anteontem, em Bauru, mais uma central telefônica clandestina que poderia estar servindo ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A central transferia automaticamente as ligações para aparelhos celulares da cidade de São Paulo, servindo como ponte e permitindo a comunicação entre os presidiários e pessoas ligadas a eles.
A central localizada na quadra 3 da rua Joaquim Ferreira da Costa, Jardim Vânia Maria, não passava de um simples aparelho telefônico instalado num cômodo de uma casa de madeira, local que dificilmente seria suspeito para a polícia.
O aparelho fixo que servia como tronco concentrava cinco linhas telefônicas e, automaticamente, transferia as ligações para determinados aparelhos celulares. Segundo o titular da DIG, J.J.Cardia, o esquema permite a transferência de ligações para mais de um aparelho celular. “O esquema não era usado por presidiários de Bauru, somente da Capitalâ€, afirma.
As investigações, que duraram mais de um mês, resultaram na apreensão do aparelho fixo e no desligamento das linhas. “O trabalho investigativo foi feito com autorização judicial. Após a constatação dos fatos, solicitamos ao juiz que peça o desligamento das linhasâ€, frisa o titular da DIG.
Segundo Cardia, a central estava instalada no Interior do estado para dificultar o rastreamento na Capital, onde estão presos os usuários das linhas. “A residência é de um ex-presidiário que não foi encontrado. A responsável pela casa foi ouvida e será investigada. Não estamos divulgando os nomes para não atrapalhar as investigações que prosseguem.â€
Cartas de amor
No imóvel onde o aparelho telefônico fixo foi localizado, a polícia encontrou inúmeras cartas de presos para uma determinada moradora. Algumas das correspondências denotavam relacionamentos amorosos entre presos e pessoas que estão em liberdade. Todas as cartas foram apreendidas e serão alvos de investigações.
O coordenador regional da Coordenadoria dos Estabelecimentos Penitenciários (Coespe), Antônio Paulo Veronezi, não acredita que a central era utilizada para comunicação dos integrantes do PCC. “Eu sei que era usada por marginais, mas não acredito que eles estejam no sistema penitenciário. Na minha opinião, eles estão em cadeias.â€
De acordo com o delegado, é possível localizar os proprietários dos celulares que recebiam as ligações da central.
Esta foi a segunda vez que a DIG localizou uma central telefônica na cidade. Em março de 2002 outro sistema, ligado a 49 linhas telefônicas digitais, foi descoberto em uma residência do Núcleo Habitacional presidente Ernesto Geisel.
Além do aparelho, a polícia apreendeu no local cartas de presidiários, cartões telefônicos e agendas. O proprietário do equipamento foi ouvido e responde a inquérito pelo 4.º Distrito Policial, segundo Cardia.
A central era usada para comunicação entre presos de diferentes penitenciárias. O equipamento permitia a comutação das ligações, sem deixar informações para onde elas eram encaminhadas.
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Tecnologia a serviço do crime
A alta tecnologia que permite a transferência de ligações e serve para que a população tenha mais conforto, é a mesma usada para o crime. A grosso modo, para não ensinar pessoas mal intensionadas a fazer, é possível transformar um aparelho telefônico fixo ou móvel em uma central, com pouco esforço.
O coordenador regional da Coordenadoria dos Estabelecimentos Penitenciários (Coespe), Antônio Paulo Veronezi, admite a facilidade. “Atualmente é muito fácil fazer uma central. Usando a tecnologia é possível fazer um triângulo de comunicação.â€
Ele destaca que o uso de aparelho celular no interior dos presídios não é permitido. â€œÉ passível de punição, porque entendemos que o preso não necessita do celular.â€
Veronezi acredita que o preso que tem o equipamento está mal intensionado. “Ele não tem celular para falar com a família. Se usa o aparelho, deve estar tramando seqüestros, resgate de presos ou outro crime. Por isso, não permitimos o usoâ€, enfatiza.
Prática
O delegado da DIG, J.J.Cardia, explicou que o esquema utilizado pelos usuários da central telefônica era o seguinte: eles discavam para um número de telefone fixo que transferia automaticamente para um ou mais aparelhos celulares.
Os celulares podem estar em locais diversos e, mesmo assim, receberão as ligações.