08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Vivendo outra realidade nas férias


| Tempo de leitura: 3 min

A Universidade do Sagrado Coração, através da Dimensão Missionária da Diocese de Bauru, há 8 anos desenvolve projetos comunitários em diferentes localidades. Muitos universitários e profissionais de áreas distintas, voluntariamente, optam por dedicar parte de suas férias a estes trabalhos, deixando seus familiares, suas diversões para viverem momentos únicos e experiências formidáveis.

Os projetos da Dimensão Missionária ocorrem duas vezes ao ano, geralmente na segunda semana do mês de julho e do mês de dezembro, coincidindo com os períodos de férias universitárias. Uma das localidades visitadas por esses voluntários, que também assumem papéis de missionários, é a cidade de Jaci localizada próxima a São José do Rio Preto.

Há aproximadamente 17 anos na diocese da referida cidade um padre recém-chegado, atualmente conhecido como Frei Francisco, com enorme desejo de realizar curso de medicina para tratar o “mal do século”, a lepra (Hanseníase), mas sem permissão superior, iniciou um trabalho almejando auxiliar pessoas necessitadas. Sua atuação volta-se então para a triste realidade humana conhecida como “mal do milênio”, os dependentes químicos e dipsomaníacos (alcoólatras) que, após grandes perdas, buscam tratamentos.

Sendo essas dependências, química e alcoólica, reconhecidas como doença, os trabalhos realizados nestas obras visam à recuperação destes indivíduos e sua reintegração à sociedade. Contam três casas adequadas para este trabalho: o Lar São Francisco, para homens acima de 18 anos; Lar Santa Clara, para mulheres e o Lar do Sagrado Coração para adolescentes abaixo dos 18 anos, com somatório de aproximadamente 140 dependentes. Estas obras não existem apenas em Jaci mas também em cidades próximas como Mirasol, Pirajuí, entre outras, totalizando 17 obras.

De 6 a 13 de julho, um grupo de universitários da USC, voluntários, dos cursos de Enfermagem, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Psicologia e Odontologia realizaram vários projetos visando informar e esclarecer dúvidas em áreas de saúde física e mental, relacionadas ou não ao uso de drogas e álcool, por meio de palestras, discussões, dinâmicas, encontrando nestes os momentos de maior troca, de um lado a teoria e do outro a prática.

Foram abordados assuntos diversificados como saúde bucal (orientação e avaliação), postura corporal, efeito do ruído (poluição sonora) no organismo, efeitos de drogas e álcool sobre o sistema nervoso e seus agravantes, uso de álcool e drogas durante a gestação, mecanismo de audição e produção de voz, doenças sexualmente transmissíveis, câncer de mama, câncer de útero, câncer de laringe, câncer de boca e relaxamento cervical e global, auto-estima, socialização, família, projetos para o futuro, etc.

Nessa mesma cidade outra obra da mesma entidade é o Lar Santa Catarina, que acolhe crianças carentes e especiais portadoras de deficiências físicas e/ou mentais, onde são desenvolvidos trabalhos em conjunto com profissionais do local orientando e reforçando sobre as necessidades de estimulação global (motora e linguagem), postura adequada para sentá-las e alimentá-las, manuseio, higienização oral das crianças, etc.

Experiência melhor não há, vamos com vários pensamentos ilusórios e sentimentos controversos relacionados ao assunto drogas e álcool, mas, quando nos deparamos com a realidade, percebemos como é diferente de tudo que pensávamos. Conseguíamos concretizar nossos conceitos a cada depoimento relatado, a cada sofrimento, a cada perda, a cada lágrima que escorria no rosto desesperado de quem seria capaz de se prostituir para sentir mais uma vez o prazer que a droga infelizmente a proporcionava. A tristeza infelizmente em alguns momentos nos assombrava, momentos de reflexão em que nos perguntávamos o que poderíamos fazer para ajudar aquelas pessoas a saírem daquela vida, da escuridão, da dependência, mas, por outro lado, agradecíamos a existência de um lugar como aquele. Voltamos sabendo que alcançamos nossos objetivos e, se apenas uma daquelas pessoas refletir sobre o que foi discutido, nosso trabalho foi vitorioso e sabemos que conseguimos obter esta proeza, pois ficou registrado nos olhares, sorrisos que muitas delas nos mostraram.

A maior satisfação não foi o que conseguimos, mas sim o que aprendemos, pois crescemos, passamos a perceber as coisas em seu contexto, valorizando a vida e começamos a viver cada dia como se fosse o único, de forma saudável e honesta, evitando deixar algo para depois, evitando deixar de pedir e/ou aceitar desculpas, pensando no amanhã, pois este, infelizmente, pode não acontecer. (Fonoaudióloga Maria Beatriz Dias Faria - RG: 29.123.315-6)