Certa vez, a vela recebeu a visita do fósforo. “Cara amiga vela, eu recebi a tarefa de acendê-laâ€, disse o fósforo cordialmente. A vela então ficou apavorada e disse: “Não, por favor não faça isso! Se você me acender meus dias estão contados!â€
O fósforo, com muita calma, perguntou: “Mas você quer ficar assim fria e dura pelo resto da vida?†A vela continuou: “Mas, se você me acender eu vou queimar. E isso com certeza vai doer.†“Este é o mistério da nossa existênciaâ€, explicou o fósforo, “o sentido da minha vida é levar a luz. A mesma coisa é contigo. Você dá sentido à sua vida se você levar luz e calor aos outros.
Caso contrário, sua vida não tem razão de ser. É claro que dar um sentido a nossa vida pode doer, mas esta é a única forma de vivermos realmente.†Então a vela compreendeu como é pobre uma vida marcada pelo medo e permitiu que o fósforo a acendesse.
O que define o ser humano, segundo Martin Heidegger, é a dinâmica de sua permanência em uma realidade concreta. Nós não possuímos um “ser†já pronto e acabado, mas este está em constante formação e sofre transformações através de nossas experiências, de nossa interação com os outros e com o meio ambiente.
Em outras palavras, o que caracteriza nosso ser é o “estar aquiâ€. Somente o “estar aqui†pode dar forma à nossa existência, ou seja, ao nosso ser. O conteúdo do ser é determinado pela maneira de estar. Uma pessoa humana possui uma existência única e particular graças à história que ela escreve durante sua permanência na realidade.
A nossa existência é boa ou ruim dependendo das limitações que devemos enfrentar em nosso “estar aquiâ€. A essência do “estar aquiâ€, por sua vez, não se constitui em algo abstrato, mas sim em um “estar-no-mundoâ€. Nós surgimos em uma certa família, em uma determinada sociedade e enfrentamos os problemas e as alegrias típicas do lugar onde vivemos.
Este “estar-no-mundo†significa conhecer o universo e interagir com este, o que faz com que o transformemos e ele, por sua vez, nos transforme. Este processo que vai constituindo nossa existência, o processo de estar aqui no mundo e interagir com ele não é algo pacífico, mas essencialmente conflitivo.
Aprender, conviver, partilhar, amar, enfim, viver nos traz não somente experiências prazerosas, mas também dolorosas. “Muitas vezes, a prova de coragem não é morrer e sim viver†(Alfieri).
Diante da realidade de “estar aquiâ€, de “estar-no-mundoâ€, o que mais amedronta o ser humano é a possível descoberta de que nada em sua existência é essencialmente absoluto. O que define algo como absoluto é a capacidade de ser auto-suficiente e de ser eterno.
O absoluto não necessita da existência do outro e não está sujeito a modificações. Ele seria para o ser humano a rocha, o alicerce, a sua segurança. Na filosofia romana (Cícero, Sêneca) o absoluto correspondia à idéia de perfeito e determinava a busca de uma vida feliz. Ele era entendido somente como uma utopia que podemos ter sempre diante de nossos olhos e que possui uma função regulativa de nossos pensamentos e de nossas ações.
Paz, felicidade, fraternidade, comunhão devem ser idéias absolutas e eternas que nos orientam para onde devemos caminhar. Mas mesmo estas idéias sofrem transformações quando nos perguntamos o que elas concretamente significam.
Paz, fraternidade ou comunhão podem ser imaginadas e podem se exteriorizar de diversas formas. Em seu conteúdo, até mesmo as idéias absolutas são modificáveis. Mesmo os princípios éticos e morais nunca foram e nunca serão absolutos, pois estão sujeitos a transformações nas diferentes culturas, mentalidades de nosso mundo.
“O fato de que o homem é capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente improvável†(Hannah Arendt). A única forma absoluta que é possível possuir encontra-se no mundo do sagrado. Através da fé em um um Ser transcendente, o ser humano pode encontrar a possibilidade de ter algo imutável e permanente.
Deus é um ser que não está condicionado ao “estar aqui†e, portanto, não está sujeito a transformações. Mesmo assim, a imagem que o homem possui de Deus está dependente das experiências que este homem faz em seu “estar-no-mundoâ€. É por esta razão que a imagem de Deus possuiu na história da humanidade semblantes tão diversos e continua, neste século 21, a ser vista e compreendida de diversas formas.
Na verdade, o ser humano não possui alternativa no que se refere à existência. Sua única possibilidade é enfrentar a aventura do “estar aquiâ€, ou melhor, do “estar-no-mundoâ€. Neste vivemos a dor das transformações, mas também o prazer de novas descobertas.
Tentar fugir desta aventura cheia de alegrias e tristezas, amor e negatividade, vida e morte, é negar o sentido a vida: construir uma existência que seja luz e calor, ou seja, viver realmente. “Aprendi o segredo da vida vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar†(Raul Seixas).
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