08 de julho de 2026
Ser

Felicidade é uma questão de escolha

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 7 min

A escolha da felicidade, do futuro, dos atos e, conseqüentemente das responsabilidades. Optar pelos movimentos mais comuns e utilizados no dia-a-dia. Esse é o conceito de uma nova psicologia: a teoria da escolha. É uma forma de liberdade pessoal, onde cada indivíduo tem o livre arbítrio como algo essencial.

A sócia-proprietária da Editora Mercuryo, Júlia Bárány, diz que o livro de William Glasser, Teoria da Escolha, publicado pela editora, mostra novos caminhos de vida, afirmando que a felicidade é diretamente proporcional à qualidade dos relacionamentos.

Leia a seguir a entrevista com Júlia Bárány, que é a responsável pelo projeto editorial de livro de Glasser.

Jornal da Cidade - O que é a teoria da escolha? Júlia - É uma nova psicologia baseada na liberdade pessoal. Postula que as circunstâncias e as pessoas fornecem informação e somos nós que escolhemos como reagir a essa informação. Afirma que a nossa felicidade é diretamente propocional à qualidade de nossos relacionamentos. Temos quatro tipos de relacionamentos: pais/filhos, professores/alunos, marido/mulher, patrão/empregado. A qualidade de nossos relacionamentos depende da abordagem que tradicionalmente está calcada na psicologia do controle externo. Isto quer dizer que os outros sabem o que é bom para eles e... para nós. Assim, as pessoas buscam a felicidade tentando coagir os outros a fazer o que elas querem, tornando a felicidade impossível pois tanto o prisioneiro quanto o carcereiro estão presos, e sem liberdade, não pode haver felicidade.

JC - Como as pessoas podem aplicar a teoria da escolha na vida prática? Júlia - Escolha é prática, não teoria. A cada instante, a cada circunstância exercitamos opções, mesmo sem termos consciência disso. Quando o telefone toca, por exemplo, não somos obrigados a atendê-lo. Podemos deixá-lo tocar, pedir a outra pessoa que o atenda, ou deixar que a secretária eletrônica o atenda. Mas poucas pessoas se aprecebem que sempre têm opções. O autor sugere também um recurso muito interessante para solucionar problemas nos relacionamentos que é o círculo solucionador. É um círculo desenhado no chão ou imaginado, dentro do qual as pessoas podem dizer tudo o que sentem com o compromisso de não julgarem um ao outro e ouvir. Os sentimentos sempre são reais e indiscutíveis. Os fatos é que podem ser discutidos e interpretados de acordo com cada ponto de vista. Nesse círculo podem acontecer negociações e comprometimentos pelo objetivo que se define como comum aos participantes do relacionamento.

JC - Quais as dificuldades em conseguir utilizar a teoria da escolha? Júlia - A maior dificuldade é desistir da psicologia do controle externo, arraigada na nossa cultura e praticar a psicologia do controle interno. Isto quer dizer que somos responsáveis por todas as nossas escolhas, que só podemos mudar a nossa própria conduta e não a dos outros. Podemos até coagir o outro até certo ponto, mas no momento em que paramos, a pessoa voltará à conduta anterior, a menos que ela mesma queira mudar e decidiu fazê-lo.

Outra dificuldade é colocarmos no nosso mundo de qualidade somente aquilo que podemos satisfazer. Mundo de qualidade é o mundo ideal daquilo que desejamos na vida. É o conjunto de imagens, relacionamentos, objetos de desejo que acreditamos ser ingredientes da nossa felicidade. Temos cinco necessidades genéticas básicas: sobrevivência, amor e pertencer, poder, liberdade e diversão. Só seremos felizes se conseguimos satisfazer uma ou mais dessa necessidades básicas.

JC - É preciso fazer algum tipo de exercício para isso? Júlia - O exercício é agir com consciência. Esse agir precisa se basear na responsabilidade, em fazer as escolhas e aceitar as conseqüências. O que se manifesta é o nosso comportamento, que se compõe de quatro elementos: ação, pensamento, sentimento e fisiologia. São elementos inseparáveis. Portanto, outro exercício para praticarmos a teoria da escolha é nos conhecermos a nós mesmos. O autor afirma que os comportamentos são designados por verbos, pois o verbo define ação. Por exemplo: “Eu estou optando por deprimir” e não “Estou sofrendo de depressão” ou “estou deprimido”.

JC - É muito difícil afirmar para uma pessoa que ela pode optar em ser feliz ou infeliz. Os fatos que levam alguém à infelicidade são reais. Como se explica essa teoria nesse sentido? Júlia - Escolhemos diretamente a ação e o pensamento, indiretamente os sentimentos e a nossa fisiologia, por meio da ação e o pensamento. Sabendo disso, temos a liberdade de evitar aquilo que não podemos controlar diretamente. Portanto, mesmo os fatos sendo reais, somos nós que optamos por reagir com felicidade ou infelicidade. Ao assumirmos a responsabilidade também passamos a acreditar que podemos mudar a nossa abordagem, sair de uma situação infeliz e buscar outra feliz. Passamos a ser “fazedores” da nossa vida em vez de vítimas.

JC - Uma criança pode vivenciar a teoria da escolha? Júlia - A criança vai aprendendo a liberdade na medida em que se torna menos dependente. Ela aprende primeiro a controlar o mundo, começando por sua mãe, para obter o que deseja, por sobrevivência. Mas aos poucos descobre que para manter um bom relacionamento com esta mesma figura protetora ela precisa respeitá-la e não abusar do controle. Por exemplo, se chorar à toa só para manipular a mãe, esta acaba não atendendo suas necessídades.

JC - De acordo com a teoria da escolha, não há destino? Nesse caso, cada pessoa traçaria seu futuro? Júlia - Cada pessoa de fato traça seu futuro pois é ela que escolhe como reagir às circunstâncias. O futuro está sendo construído a cada instante, a cada escolha que fazemos no presente. Existem fatos que não podemos controlar nem mudar, mas podemos escolher com que sentimentos reagiremos a estes fatos. A liberdade sempre existe e com isso a nossa autoria do nosso próprio destino.

JC - Como se explica, dentro dessa psicologia, as pessoas que lutam buscando a felicidade plena e não a alcançam por toda vida? Júlia - Como não pode haver felicidade na presença da psicologia do controle externo, a plenitude jamais será alcançada com esta abordagem.

JC - Relacionamentos entre homem e mulher, familiar, pais e filhos, irmãos, professor e aluno, patrão e empregado, etc, poderiam ser mais tranqüilos dentro desse conceito? Júlia - Sem dúvida. A partir da aceitação de que somos nós que escolhemos, passamos a negociar, a ouvir o outro, a respeitar as diferenças, e não esperamos mais que os outros, o mundo seja como nós queremos que seja. Promovemos a liberdade, nossa e do outro, desistindo do controle.

JC - Se alguma pessoa se interessar em iniciar o processo da teoria da escolha, como fica seu passado, os problemas que ainda não foram resolvidos? Júlia - O passado só interessa na medida que está no presente. Só podemos resolver o presente. O passado já foi, não existe mais. Então a teoria da escolha mostra que não adianta cavar o passado e sim abordar as circunstâncias presentes, os relacionamentos atuais e resolvê-los. Todo relacionamento difícil no passado se reflete num relacionamento presente. Portanto, é necessário trabalhar no relacionamento presente, ou seja, naquilo que a pessoa mantém presente em sua vida.

JC - Vamos exemplificar. Um pai que nunca conseguiu entender seu filho, seus problemas, suas angústias, enfim, um relacionamento familiar bastante complicado. De que forma essa nova psicologia poderia melhorar essa convivência? Júlia - A partir do instante em que o pai entende que o filho não é propriedade sua e sim um outro indivíduo. Então ele poderá escolher começar um verdadeiro relacionamento com o filho, baseado no respeito, na liberdade e principalmente no afeto. A ligação afetiva é a ponte que se estabelece entre as pessoas. Sem isso não existe relacionamento. O mesmo é imprescindível entre terapeuta e paciente, professor e aluno. Com a ligação afetiva acontece a comunicação porque se abre a confiança.

JC - Quais os relacionamentos mais complicados. Por que? Júlia - Os relacionamentos mais complicados são aqueles que se baseiam na psicologia do controle externo.

JC - Quais exemplos de eficácia podemos citar com a teoria da escolha? Júlia - O autor cita vários casos em que a teoria da escolha funciona, entre cônjuges, na comunidade, na escola. Ele oferece treinamento em seu instituto para estabelecer escolas de qualidade, comunidade de qualidade e trabalho com drogados.

JC - Qual seu conselho para as pessoas que buscam plenitude nos seus relacionamentos? Júlia - Colocar este relacionamento em seu mundo de qualidade. Mundo de qualidade, segundo o autor, é o mundo ideal de cada um. Daí decorre o compromisso, o respeito, a liberdade e a felicidade.