09 de julho de 2026
Bairros

Quem vai sujar a cidade nesta eleição?

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Todo ano de eleição é a mesma coisa: a cidade fica com um aspecto poluído e com sujeira de candidatos espalhada por todos os lados. Os postes costumam ser os mais castigados e ficam entupidos de faixas e cartazes dos postulantes a um cargo público.

A poluição visual é respaldada na lei e não há praticamente nada que possa ser feito para evitar a disseminação da propaganda. “Eu só espero que os candidatos tenham o bom senso de retirar os cartazes depois das eleições, pois não temos como promover essa limpeza na cidade”, diz Maria Helena Rigitano, secretária municipal de Planejamento.

De acordo com ela, a lei eleitoral permite apenas material que possa ser pendurado. “Colagem é inadmissível, pois a sujeira fica ainda maior”, destaca a secretária.

Em praticamente todos os postes da cidade podem ser vistos os cartazes com os nomes dos candidatos. Outro recurso utilizado pelos políticos é a distribuição de folhetos nas residências e nas ruas para os eleitores. “Eu considero isso uma invasão de domicílio. Todo o dia, quando chego em casa, tem folheto de candidato entupindo a minha caixa de correio e vários deles jogados no chão, sujando a minha área”, reclama a comerciante Lyrcéia Terezinha Tiba.

Ela salienta que, pela quantidade de sujeira produzida pelo candidato, dá para avaliar se ele merece ou não receber o voto. “Se eles (políticos) já estão poluindo a cidade antes de ganhar as eleições, imagine como cuidarão da cidade depois que forem eleitos”, salienta.

A funcionária pública aposentada Amélia de Assis também fica revoltada com a poluição visual que invade a cidade em época de campanha eleitoral. Em frente à sua residência, colocaram uma tabuleta com o nome de um candidato a deputado estadual e a aposentada não gostou. “Achei um desrespeito. Tudo bem que o poste é público, mas está em frente à minha casa. Eles nem sabem se eu apóio esse candidato ou não”, reclama.

Agressão à cidade

Não é só em época de campanha eleitoral que a cidade fica com um visual poluído. Durante todo o ano, os postes recebem cartazes com os mais diversos motivos, desde propagandas de shows até cartazes de “Compro Ouro” e “Empresto Dinheiro”. A sujeira é tanta que um vai colando o seu material por cima do outro, virando um amontoado de informação que nem mesmo os pedestres prestam atenção.

Maria Helena Rigitano destaca que, para esses casos, existe punição. A Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan) utiliza o Código Sanitário para punir quem distribui propaganda indevidamente em equipamentos de utilidade pública. “Isso é uma agressão à cidade, que fica com um aspecto poluído”, frisa a secretária.

Além do Código Sanitário, há uma lei específica para esse tipo de infração, datada de 1993. O problema é que ela não estipula multa para quem não cumpri-la. “Nós preferimos utilizar o Código Sanitário, que determina melhor a punição”, explica Maria Helena.

O valor da multa é de cerca de R$ 2 mil e a secretária ressalta que grande parte dos infratores são autuados. “Mas não damos conta de fiscalizar todo a cidade. Temos poucos fiscais para muito trabalho”, salienta.

Pichação

Sem a menor preocupação em passar uma mensagem ou mesmo preservar o espaço público, os pichadores se espalham pela cidade e borram o que encontram pela frente: de muro de residências a igrejas e prédios muito altos. Com símbolos e letras incompreensíveis, eles deixam um rastro de poluição visual por onde passam.

De acordo com o tenente Hudson Covolan, comandante do Tático 4 da Polícia Militar, um dos grandes problemas dos policiais para coibir esse tipo de infração é a falta de denúncia das vítimas. “Nós precisamos que a pessoa manifeste o interesse de responsabilizar o pichador pelos danos causados ao seu imóvel”, salienta.

Como é muito difícil flagrar os pichadores em ação, essa seria a maneira mais fácil de identificar os grupos que agem na cidade. “Os pichadores utilizam símbolos específicos e têm marcas que os identificam”, diz o policial.

Uma saída para melhorar o visual das ruas e diminuir a ação de pichadores é apelar para alternativas como o grafite ou trabalhos sociais.

Na Escola Estadual Mercedes Paz Bueno, por exemplo, quase 70% do muro recebeu desenhos feitos pelos próprios alunos, um trabalho que ajudou a diminuir as pichações. “A gente ainda nota alguns riscos pichados sobre os desenhos, mas são bem menores do que os que eram feitos antes do grafite”, destaca a diretora do colégio, Beatriz Garcia Sanchez.

Algumas empresas estão adotando a tática de deixar “recado” para os pichadores. Através deles, elas indicam que a conservação do imóvel resultará em doações à comunidade. A tática tem funcionado, conforme constatou a reportagem do Jornal da Cidade, publicada no último dia 9, com o título “Pichação: população adota alternativa”.