09 de julho de 2026
Articulistas

Duas globalizações


| Tempo de leitura: 3 min

Pode-se discutir se é boa ou má, se seu sustento é o sistema financeiro baseado nas novas tecnologias, se é uma tendência irrefreável do desenvolvimento da humanidade ou conseqüência de um sistema triunfante e sem alternativas. Mas ela está aí, imperturbável. É a personagem principal deste novo milênio: a globalização. A característica da globalização sem dúvida é a existência de processos comuns que atuam simultaneamente em todo o mundo. Incluem uma geografia global e são simultâneos. Outra de suas condições deveria ser a máxima abertura e circulação. E é nesse ponto que o discurso vem abaixo. Há um erro de raiz, uma confusão imperdoável: não existe uma globalização, mas duas, absolutamente definidas e separadas por muros cada dia mais altos e visíveis.

Do lado de dentro da cidadela há menos de 30 países, cujo núcleo central é o G-7, onde vive pouco mais de 11% da população total, e que representam 70% do produto interno bruto mundial. Não há dúvida de que para esses países a globalização é maravilhosa, por isso seu esforço para transformá-la na religião econômica e política para toda a humanidade. Do outro lado do mundo está a “outra” globalização. A globalização da miséria, do adiamento e do subdesenvolvimento. É aí que mora a esmagadora maioria de 80% da população, que vive na pobreza, onde 33% literalmente morre, de fome. Durante algum tempo se propalou a ilusão de que a passagem da globalização “pobre” para a globalização rica era um caminho fácil e, em definitivo, a rota do progresso e desenvolvimento. Passaram-se os anos e nossos países, que apostaram nesse projeto, registraram piora nos índices de pobreza, miséria e marginalidade.

Existem alternativas? Esta crise recente e sistemática pode avançar para transformações e mudanças capazes de serem progressivas ou não. Não caiamos em novos determinismos. Tudo depende da construção consciente dos seres humanos. O principal problema enfrentado pelas forças da mudança, diversas e dispersas, é que a estratégia desenvolvida no século passado já não serve.

A globalização não se combate com nacionalismo e a volta ao passado, mas com idéias globais, flexíveis e abertas de progresso e transformação. Trava-se com a presença e a mobilização popular, suas expressões criativas, novas ou tradicionais, associadas aos problemas concretos e sofridos diretamente pelas pessoas. Não se pode construir nada sem dar resposta às urgências de um presente premente, que necessita de solidariedade, fraternidade, de compartilhar e conviver experiências.

É uma batalha na comunicação e na informação, utilizando as novas tecnologias ao nosso alcance mas, sobretudo, um debate que começa a crescer a respeito da democratização da sociedade da informação. A batalha eleitoral e política integra-se neste processo e é preciso que aconteça com todos os seus desafios e exigências. O grande erro é pensar que tudo pode resumir-se e culminar na batalha eleitoral. A alternativa de mudança a partir do governo faz parte de um processo de mudanças, a partir da sociedade e com a sociedade, sem a qual estamos destinados a reproduzir novas frustrações e derrotas. Neste tempo de convulsões, é justo recordar a frase de Oscar Wilde: “O único dever que temos com a história é reescrevê-la”. (O autor, Esteban Valenti, é jornalista uruguaio, é coordenador do semanário Bitácora, de Montevidéu)