09 de julho de 2026
Articulistas

A fome dos pobres


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Existem, agora, recursos para acabar com a fome no mundo, mas o problema é que esses recursos continuam sendo explorados pelos ricos. Nos últimos meses vimos manchetes de jornais nos informando com alarme que “A fome ameaça quatro milhões de pessoas no Sul da África”. E essa é a fome em sua forma aguda. Existe outra forma de fome que é menos visível. É a fome crônica, de todos os dias, com a qual convivem mais de 815 milhões de pessoas (quase um oitavo da população mundial, ou 12,5%) apenas no Terceiro Mundo.

Embora a maioria das pessoas que sofrem de fome vivam na Ásia (quase 500 milhões), o problema é mais grave na África, onde 34% da população, ou seja, 194 milhões de indivíduos, sofrem de fome. Na América Latina, são 53,6 milhões (11% da população) e no Oriente Médio, 32,5 milhões (9%). Apesar de raramente aparecer no noticiário, a fome crônica é três ou quatro vezes mais mortal do que foi a Segunda Guerra Mundial: de fato, mata entre 40 milhões e 50 milhões de pessoas ao ano.

Se pensarmos na fome em termos de números, a solução também se apresenta em números. Assim, na Segunda Cúpula Mundial sobre Alimentação, de 1996, os governantes presentes declararam sua intenção de reduzir o número de desnutridos à metade até 2015. Entretanto, se a fome fosse entendida como uma realidade enfrentada por indivíduos e suas famílias, nos daríamos conta de que não se trata de um problema matemático, mas de uma questão de ineficácia.

O primeiro passo para acabar com a fome é desmascarar os persistentes mitos a esse respeito, considerando suas causas. Em primeiro lugar, a culpa não é da escassez. Produz-se alimentos suficientes no mundo para fornecer as vitais 2.800 calorias diárias a todas as mulheres, homens e crianças que vivem no Planeta. No ano passado, enquanto a Índia se esforçava para resolver o problema de como armazenar um excedente de 80 milhões de toneladas de grãos, em mais de 14 Estados do país enfrentava-se o drama das mortes por inanição.

O segundo mito é a suposição de que a natureza é a causa da fome. Porém, os alimentos estão sempre à disposição, inclusive em épocas de desastres naturais como a escassez e as inundações, para quem tem com que comprá-los.

Então, qual é a causa da fome em meio à abundância? O problema é a escassez de democracia e a negação de nossos direitos. É também a negação de um salário vital para os trabalhadores pobres e de terras para os despossuídos. É a concentração do poder de tomar decisões que, entre outras coisas, permite que os orçamentos governamentais atendam à cobiça dos ricos e das elites às custas dos pobres.

As causas da pobreza estão arraigadas num sistema que rouba nosso poder democrático e nossos direitos. O desafio que enfrentamos é o de nos livrarmos desse sistema. Isso é um risco, mas não há mudanças sem risco. Podemos acabar com a fome através de políticas corajosas que desafiem o falso sentido de democracia, que construam a confiança em nossas mais profundas sensibilidades morais, para converter o lucro empresarial em bem-estar para as pessoas, e que superem a apatia contida no conceito de que essa mudança é impossível. (A autora, Anuradha Mittal, é co-diretora do Institute for Food na Development Policy/Food First, de Oakland, Califórnia)