10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Consciência imaginativa

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Um viajante acabou se perdendo no deserto. Por vários dias caminhava sem água e nem comida. Quando o desespero já estava tomando conta de si, o pobre coitado avistou algumas palmeiras. Ao vê-las, porém, o viajante pensou: “Isso é somente uma miragem, minha fantasia começa a tomar conta de mim.

Na verdade não há nada lá na frente”. Sem esperança, quase louco, ele se deixou cair no chão. Pouco tempo depois, dois beduínos o encontraram morto. “Você pode entender isso?”, disse um deles, “Tão perto de uma nascente d’água! Como isso pode ser possível?” “Nem todos”, comentou o outro, “conseguem enxergar o que o mundo pode nos oferecer”.

Não há ser humano que não construa sua realidade através de imagens. Sem a utilização delas é praticamente impossível o relacionamento com o universo exterior. Quadros, esculturas, filmes, reflexos num espelho ou na água, ficções literárias, sonhos, devaneios, enfim, a maneira de ver e compreender o mundo à nossa frente constitui em imagens da realidade. Cada ser humano possui uma impressão do universo a sua volta e a isso podemos dar o nome de “visão de mundo”.

Um mesmo fenômeno pode ser compreendido de formas diferentes, pois este mesmo fenômeno pode ser visto de diferentes perspectivas. O que há de comum entre todas as diferentes imagens que possuímos da realidade é que todas elas oferecem um “análogo” das próprias coisas. Um análogo pode ser um símbolo, uma metáfora, uma ilustração, um esquema, um signo ou um sentimento.

Determinadas cores podem representar um país, o mar a liberdade, um gesto uma agressão. Apesar de possuir diferenças em seu conteúdo, as imagens nos oferecem a capacidade de tornar presente algo ausente, como também de dispor a realidade conforme podemos entendê-la. Se uma pessoa apaixonada tem diante de si a pintura ou a fotografia da pessoa amada, possui mais que a imagem dela.

Ao contemplá-la, não olha para as manchas coloridas, para os traços reproduzidos no papel, não presta atenção no trabalho do pintor nem do fotógrafo, mas torna presente a pessoa amada. A imagem é diferente do percebido porque ela é um análogo do ausente, sua “presentificação”. Esta presença do ausente sempre significa uma nova disposição do mundo.

O meu quarto não é simplesmente a soma de quatro paredes, alguns móveis e uma cama, mas um santuário para meu repouso e relaxamento. Dependendo da imagem que possuímos da realidade damos a ela significados que, na verdade, não existem na realidade em si. Aqui vemos a criação de uma “realidade imaginativa” que pode transformar a nossa maneira de nos relacionarmos com o universo.

“Nada melhor do que um sonho para criar o futuro” (Victor Hugo) Uma pequena história que recebi por e-mail retrata bem esta “presentificação” provocada pela imagem que possuímos da realidade: uma indústria brasileira gostaria de desenvolver um projeto de exportação de sapatos para a Índia.

Para isso, mandou dois de seus consultores a pontos diferentes do país para fazer as primeiras observações do potencial daquele futuro mercado. Depois de alguns dias de pesquisas, um dos consultores enviou um e-mail à direção da empresa com seu parecer: “Senhores, cancelem o projeto de exportação de calçados para a Índia. Aqui ninguém usa sapatos!”

Sem saber desse e-mail, o segundo consultor enviou seu parecer: “Senhores, triplifiquem o projeto de exportação de calçados para a Índia. Aqui ninguém usa sapatos ainda!” Uma mesma situação pode ser um grande obstáculo para uns, enquanto é uma fantástica oportunidade para outros. “As pessoas que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criam” (Bernard Shaw).

A maneira como encaramos a vida é que faz toda a diferença, pois o mundo é, na verdade, um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos. Os tristes acham que o vento geme, os alegres acham que ele canta. A imagem da realidade está intimamente ligada ao nosso estado de espírito, à nossa disposição em alcançarmos determinado objetivo. A capacidade da imaginação pode tornar presente o ausente ou tornar o presente simplesmente ausente.

Sem dúvida alguma, fatos tristes ou alegres são concretos em nossa vida: a miséria, a amizade, a morte de alguém que amamos, o desafio de uma nova atividade profissional, o nascimento de uma criança. Através da forma como interagimos com os fatos e os acontecimentos de nossa vida surgem, porém, as imagens que nos levam para verdadeiros “oásis” ou nos fazem desacreditar que a nascente d’água esteja tão perto.

“Depois de algum tempo você aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso” (W. Shakespeare).