08 de julho de 2026
Saúde

Cozinha: paraíso dos germes

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Quem pensa que o banheiro é o local mais contaminado de uma casa está totalmente enganado. Análises laboratoriais de amostras coletadas dentro de residências mostram que o ambiente preferido dos germes é a cozinha. É ali que eles encontram alimento, umidade e temperatura adequados à sua sobrevivência.

A desinformação, hábitos inadequados e insuficientes de higiene e a manipulação incorreta de alimentos facilita a proliferação destes micróbios e transforma a cozinha residencial no principal veículo de contaminação humana por alimentos.

Levantamentos baseados em dados do Ministério da Saúde mostram que 43,9% dos casos de intoxicação alimentar registrados no Brasil entre 1999 e 2001 resultaram de refeições preparadas no próprio domicílio. Do total de casos, apenas 6% ocorreram em restaurantes, 7,2% em escolas, 5,4% em creches. Os outros 37,5% dos episódios foram em outros ambientes ou em local ignorado.

De acordo com a Food and Drug Administration (órgão norte-americano que controla a circulação de alimentos e remédios), as pessoas só são exigentes com a comida que é preparada por terceiros. No entanto, cometem erros graves quando elas próprias são responsáveis pelas refeições.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 1997 indica que, ao preparar alimentos em suas próprias casas, as pessoas falham com as práticas seguras de manipulação dos produtos em mais de 99% das vezes. Entre os erros mais comuns estava a lavagem das mãos, negligenciada em 57% dos casos.

Mas os problemas vão muito além disso, segundo o biomédico Roberto Martins Figueiredo, especialista em microbiologia de alimentos. Ele acaba de lançar, no Brasil, o livro “As armadilhas de uma cozinha” (Editora Manole), onde indica os pontos mais vulneráveis deste importante cômodo.

“Eu trabalho com este tema há cerca de 20 anos, mas as pessoas continuam morrendo por alimentos contaminados. Eu me senti culpado quando notei que tinha o conhecimento, mas só repassava isso para outros profissionais que também já sabiam. De repente, eu percebi que nunca havia falado para quem realmente precisa dessas informações: a dona de casa. Este livro é uma tentativa minha de descarregar um pouco dessa culpa”, comenta.

Figueiredo esteve em Bauru durante a 9.ª Semana Cultural de Nutrição da Universidade do Sagrado Coração (USC). Ele é professor do curso de pós-graduação de Vigilância Sanitária da Universidade de Tuiuti (Paraná) e veio ministrar uma palestra aos alunos e professores da USC, aproveitando para lançar seu livro na cidade.

Figueiredo afirma que os erros ocorrem desde a compra dos alimentos até o aproveitamento incorreto das sobras. Ele salienta que, para começar, a escolha dos produtos deve considerar a origem dos mesmos, principalmente no caso de carnes e vegetais.

“No supermercado, os perecíveis devem ser os últimos a ir para o carrinho e a pessoa não deve levar mais que 30 minutos para chegar em casa”, alerta. O armazenamento de cada tipo de alimento também requer atenção especial. Até a ordem em que eles são dispostos na geladeira pode interferir na segurança do produto.

Cenário preocupante

Segundo Figueiredo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima a ocorrência anual de 1,5 bilhão de casos de diarréia em crianças menores de 5 anos, das quais 3 milhões morrem. “Cerca de 70% delas, o que equivale a 2,1 milhões de crianças, morrem pela manipulação incorreta de alimentos e quadros graves de diarréia”, afirma.

Nos Estados Unidos, 76 milhões de habitantes apresentam sintomas de intoxicação por ano. Destes, 325 mil acabam hospitalizados e aproximadamente 9 mil morrem. Considerando-se a população do País, pode parecer pouco, mas o biomédico discorda.

“A explosão de um edifício que matou 3 mil pessoas nos Estados Unidos recentemente resultou numa guerra. A contaminação por alimentos representa três edifícios como aquele vindo abaixo todos os anos”, compara o especialista.

Figueiredo destaca que falta conscientização acerca dos cuidados necessários na preparação de alimentos. É preciso promover uma mudança radical de hábitos na população, incluindo as técnicas de armazenamento e preparo dos alimentos e a higiene completa de quem manipula a comida.

Segundo ele, uma cozinha limpa e perfumada, louças brilhantes e mãos bem cuidadas não são suficientes para driblar os germes - invisíveis a olho nu. É preciso lavar, desinfetar, sanitizar e secar cada cantinho o tempo todo. “Porque os inimigos já estavam na Terra muito antes de nós. Nós levamos 70 anos para completar uma geração, enquanto as bactérias fazem isso em 15 minutos. Elas sempre vão estar na nossa frente, então, temos que ser extremamente cuidadosos”, completa.