08 de julho de 2026
Saúde

Contaminação pode não alterar alimento

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

De acordo com o biomédico Roberto Martins Figueiredo, existem dois grupos de microorganismos que podem afetar os alimentos: os deteriorantes e os patogênicos. Os deteriorantes estragam a comida, azedam, fermentam, mas não fazem mal ao ser humano. Os patogênicos, ao contrário, não alteram nem cheiro, nem sabor, nem aparência do produto, mas podem causar diversas doenças e até matar.

“Por incrível que pareça, você pode comer uma carne podre, exposta ao sol por dois ou três dias, e não ter nenhum tipo de intoxicação, porque as bactérias que atuam ali são apenas deteriorantes”, exemplifica.

Pelo contrário, segundo ele. O homem pegou algumas destas bactérias deteriorantes e as transformou em microorganismos úteis. Como elas alteram o sabor sem intoxicar o ser humano, são usadas há anos na produção da cerveja, dos queijos, iogurtes, fermentos, vinagres e muitos outros comestíveis.

Na opinião do especialista, pessoas que descobrem um alimento azedo ou embolorado em casa estão com sorte, porque mesmo que haja um agente patogênico junto, ninguém vai comer mesmo. O problema está exatamente naqueles produtos que parecem bons e abrigam germes perigosos.

É o caso da massa de biscoito que acabou de ser preparada. Ao prová-la crua, a pessoa pode ser contaminada pela Salmonella presente em um dos ovos. Ou da torta deixada sobre o fogão que parece mais gostosa à tarde que pela manhã - e criou milhões de bactérias nessas poucas horas.

Felizmente, a Ciência mostra que os germes são organismos muito frágeis, que dependem de um conjunto de condições favoráveis ocorrendo simultaneamente para conseguir se desenvolver e, assim, prejudicar o ser humano. Eles necessitam de uma “casa” (poros e fissuras), de comida, água e conforto térmico (entre 5 e 40 graus).

O combate à contaminação alimentar depende, portanto, de cuidados que eliminem pelo menos parte destas condições. Lavar a louça logo após as refeições, retirar restos de comida dos ralos, esponjas, fogão e chão, tirar o lixo com freqüência, refrigerar ou congelar alimentos adequadamente e prepará-los ou reaquecê-los sob temperaturas altas são alternativas simples que minimizam muito os riscos de intoxicação.

Negligência

Figueiredo cita diversos comportamentos observados freqüentemente dentro de casa e que são potenciais precursores de doenças veiculadas por alimentos. Um deles, já citado, é o hábito que algumas pessoas têm de experimentar a massa crua das guloseimas para verificar se estão suficientemente doces ou salgadas. É um erro, pois contêm ovos crus que podem estar contaminados.

“Também tem aqueles que pegam as sobras de um alimento preparado no dia anterior e chegam para alguém da casa perguntando ‘será que ainda está bom?’. Geralmente, o leigo faz aquela cara de médico, franze a testa, pega um pedacinho, cheira, põe na boca, pergunta para um terceiro, que diz ‘para mim, está bom’. Parece até que você precisa de um cúmplice para a diarréia”, satiriza.

Outra situação crítica, segundo o biomédico, são as festas de aniversário em que bolo, doces e salgados passam horas sobre a mesa. Ele comenta que, na imensa maioria das vezes, tudo é preparado com bastante antecedência e considerando um número bem maior de pessoas que o real. Tudo isso vai ficar um bom tempo sem refrigeração.

“Aí você coloca um monte de bexigas cheias de saliva em cima e elas estouram. Depois, a molecada sopra a velinha cuspindo no bolo e é tudo festa. Quando a comadre vai embora, você corta um pedaço do bolo para ela levar. Ela chega em casa, deixa sobre a mesa e vai dormir”, descreve.

No dia seguinte, ela come o bolo e ainda comenta que está muito mais gostoso que no dia anterior. Um tempo depois passa mal e não sabe porquê. O ideal, segundo o biomédico, é usar caixas de bolo para enfeitar a mesa e cantar o “Parabéns”, mantendo o bolo na geladeira até o momento de servir.

____________________

Proteção na lancheira

Usar alimentos perecíveis para montar o lanche da criança que vai para a escola é outro erro grave cometido dentro de casa destacado pelo biomédico Roberto Martins Figueiredo. Ele lembra que as lancheiras não são térmicas e que as escolas não dispõem de um refrigerador para elas.

O intervalo entre a preparação do alimento e o horário do recreio pode ser suficiente para uma contaminação. “E o que as mães colocam para a criança? Iogurte e sanduíche de presunto e queijo. Aí, o moleque chega em casa com diarréia e a mãe ainda o acusa de comer porcarias na escola”, ressalta.

A receita, segundo ele, é abrir a geladeira e observar. Tudo o que está lá dentro não pode ser colocado na lancheira. Se aqueles produtos não ficam sem refrigeração dentro de casa, também não devem ficar com seu filho na escola.

Segundo Figueiredo, lancheira combina com barras de cereais, sucos pasteurizados, achocolatados em caixinha, e produtos industrializados como bolos e bolachas.