Escova japonesa, definitiva, alisamento japonês ou recondicionamento térmico são alguns dos nomes que o método de alisamento capilar que é moda tem. Mas as divergências não estão só na definição. Depois que um procedimento mal-sucedido ocorrido na semana passada em Bauru, noticiado na edição de sábado do JC, a polêmica entre os profissionais se acirrou.
O cabeleireiro Tony do salão Mediterranee, que esteve em março deste ano na Cosmoprof, feira internacional de cosmética realizada na Itália, trouxe para Bauru a chapa de calor contínuo adequada para a escova, mas não trouxe o produto, na época não disponível.
O aparelho varia de 60ºC a 180ºC constantes. “Você precisa fazer um diagnóstico para ver a temperatura que o cabelo vai suportar. 180 é o máximo. Tem cabelos que não suportam tamanho calorâ€.
Ele conta que não trabalha com o alisamento japonês e nem com outro tipo de relaxamento. Só realiza tratamento e espera que um dia alguém lance um produto que realmente dê efeito, sem danificar a estrutura capilar e que agrade a mulher brasileira que tanto gosta de mudanças. “Eu resolvi não entrar na febre e ficar na minhaâ€, declara, afirmando que duas pessoas não têm o mesmo tipo de cabelo e o processo exige critérios que vão além do olho do profissional.
“Muitas vezes as clientes fazem procedimentos em casa e não contam para a gente. Foge do controle e nós precisamos ter esse cuidado. Neste caso estamos mexendo com estrutura de cabeloâ€, justifica, comentando que em muitos casos se usa amônia para relaxar cabelo só por um modismo.
â€œÉ preciso saber se o cabelo tem qualidade suficiente para agüentar essa mudança. Uma pode até ficar boa como a gente vê, mas quero ver daqui a seis mesesâ€, desafia. Afirmando que o caso ocorrido na semana passada não foi o primeiro e nem o único e que outros casos de conserto já estão agendados.
O mesmo ocorre com a cabeleireira Geni Garcia, que deu aula durante 23 anos no curso de formação de profissionais do Senac e hoje tenta restaurar o cabelo de duas japonesas que voltaram do Japão e que fizeram a escova por duas vezes. “O cabelo fica sem movimento, perde brilho. Fica liso sim, mas com uma textura esquisita. Depois só cortando.
Geni também engrossa o coro de quem não adota o alisamento por achá-lo extremamente agressivo. “Estudei a estrutura do fio do cabelo por muitos anos e resolvi não adotá-lo no meu salão. O cabelo tem que estar muito saudável e isto é raro. O que aconteceu com a senhora do jornal não foi o primeiro caso e nem será o último, muitos outros estão por vir. É uma febre que deu agora, mas essa escova já existia, é bem antiga.â€
Aparência x consciência
“O que seria da moda se não nos preocupássemos com nossa aparência... Mas será que temos consciência quando nos preocupamos e automaticamente pensamos em mudar nossa aparência? Humanamente falando, quando pensamos em realçar e valorizar nosso exterior cabe a nós sermos coerentes e imediatamente fazermos uma viagem ao nosso mais profundo íntimo para termos consciência do que realmente necessitamos. Daí vem o principal detalhe: quem vamos procurar? o que existe de novo no mercado? será que eu ficaria bem assim? Eis a questãoâ€, aponta o cabelereiro Gil Imagem, que já trabalhou nos Estados Unidos e na Europa.
Ele aponta que a grande maioria das brasileiras perdeu a consciência em nome da aparência e alega que sempre teve consciência de que voltando ao Brasil nem sempre poderia empregar certas técnicas devido ao clima, condição financeira e cultural do país.
“Hoje em dia atendo a uma margem de 20 a 30 chamadas no meu salão. Dez são para perguntar o preço e dez são para conserto. Só executo no meu salão o que está ao meu alcance profissional. Se fosse deixar me levar pela consciência cultural, mudaria a minha logomarca para ‘Conserta-se cabelos’, e ainda lançaria meus mais revolucionários métodos e técnicas para cabelos que a partir de amanhã estariam disponíveis em todo mercado internacional. Faixas irão trepidar defronte as mais renomadas: mousse de mandioca, raiz forte e poderosa que faz seu cabelo crescer um centímetro por dia; picadinho de abobrinha, realça o brilho e te deixa bonitinha; banho de salame, engrossa a raiz; fon-fon glacê, deixa o seu cabelo adocicado ou purê de nabo, mantém seu cabelo estacionado para quem não quer que o cabelo cresça rápido; ou ainda suspirinho, use no seu penteado que ele vai ficar durinho e durar a festa todaâ€, satiriza.
Mesmo brincando, Gil sabe que a concorrência e o massacre profissional atingem hoje todas as áreas de trabalho. “Estamos a serviço da beleza e Bauru conta com grandes e competentes profissionais nesta área, mas estamos sujeitos e expostos a tudo e a todos. Cabe a nós, termos consciência que a insatisfação pessoal abrange o universo. Humanos creiam que estar na moda é você se sentir bem com você mesmo. Isto sim é ser moda, é ser chic. O resto é resto.â€
Três vezes mais e à vista
As propostas recebidas pelos cabeleireiros que fazem escova japonesa em Bauru são das mais desesperadas. Uma cliente chegou a oferecer ao cabeleireiro Mauro Quintanilha três vezes o valor do tratamento e propôs pagá-lo à vista para que ele realizasse o alisamento.
Mauro, que tem 33 anos de profissão, negou a proposta e afirma que não foi a primeira vez que faz isso quando o assunto é escova japonesa. Ele revela que faz o alisamento mas que antes aplica uma verdadeira sabatina de duas horas na cliente antes de fazer o teste de 48 horas. E não é só. Ele alerta que o tratamento é caríssimo não só pelos produtos utilizados, todos importados, sejam químicos ou naturais como colágeno e elastina, mas também pelo tempo e o número de profissionais que envolve. “Alguns cabelos levam 16 horas entre o processo todo, que tem uma pré e uma pós hidratação e às vezes, três profissionais ficam com uma cliente.â€
Sobre o resultado final e a manutenção Quintanilha não se acanha. “Eu acho maravilhoso, mas o profissional tem que entender de química, ter consciência do que está fazendo e se doar, não dá para atropelar, por que senão no meu caso, são 33 anos de carreira que jogo fora.â€
Professor defende o sucesso
“O tratamento é maravilhoso, o cabelo fica com muito mais brilho e a aparência é natural. Depois de uma semana a pessoa pode fazer até baby-liss, mas vai esquecer que teve cabelo crespo.â€
Segundo o cabelereiro de Ribeirão Preto Lauro Soraes, que há oito anos dá cursos de recondiconamento térmico em todo o Brasil, a escova japonesa soma os dois métodos distintos de alisamento: a química e o calor, que une escova mais chapa a 200ºC.
Ele aponta que se usados em separado cada método tem seus riscos. “O calor demais pode danificar os fios, um relaxamento só com química também resseca muito o cabelo. Agora, a soma destes dois métodos é perfeita. Os riscos diminuem e os benefícios aumentam muitoâ€, avalia.
Lauro define o processo como uma cirurgia plástica no fio. Mas como tal, adverte para a série de cuidados que precisam ser tomados. Antes do teste de 48 horas e do repouso mínimo de 72 horas no período pós-cirúrgico, o cabeleireiro precisa fazer com a cliente uma minuciosa consulta para que ela puxe pela memória todos os procedimentos aos quais o cabelo foi submetido por no mínimo um ano em caso de cabelos curtos.
A escova japonesa não pode ser feita em cabelos descoloridos, com excesso de reflexo, alisados recentemente, étnicos ou cabelos muito danificados.
“Nos cabelos tintos, a escova só não pode ser feita se a tintura utilizada é henna ou tinta em pó. Essas tintas possuem alto teor de metal e formam uma película protetora no fio que não permite que o produto usado no alisamento penetre no fio e amoleça a cutícula. Se o cabelo é tingido, mas bem-tratado, não há problemaâ€, explica.
Por mais que o cabelo aparente ser saudável, ou ainda seja virgem, o teste de 48 horas é obrigatório, pois existem outros fatores como hormônios, dietas, ingestão de medicamentos que podem influenciar no processo. “A estrutura do próprio cabelo também pode não aceitar.â€
O cabeleireiro explica ainda que o procedimento é feito a um centímetro do couro cabeludo. A escova atua na extensão do fio e não no bulbo capilar, por isso pode durar de quatro a nove meses. Só depende do crescimento do cabelo, que também precisa receber hidratação obrigatória nas oito primeiras semanas.
Lauro lamenta o ocorrido em Bauru e acredita que o que tenha acontecido foi o contato do produto com o couro cabeludo ou a permanência da química por mais tempo que o necessário e estourou o cabelo da cliente. “A avaliação também vai determinar esse tempo para que tudo saia perfeito.â€
O profissional tem que levar em consideração toda experiência que ele tem nessa hora e ser sincero. Mas ele adverte que, muitas vezes a cliente é teimosa e o profissional não pode se deixar levar. O tratamento é caro e leva de oito a 12 horas para ser finalizado. “Precisa ter amor à arte e a cliente tem que ter ciência de que toda cirurgia tem um processo de cicatrização e muitas vezes, precisa de um pré-operatório.â€