Morávamos num sítio, próximo à Estação de Conceição, entre as estradas de ferro Sorocabana e Paulista (famosa Paulistinha).
Em uma bela tarde de primavera, meados de setembro, convidei um irmão para uma pescaria.
Como de costume, fui procurar minhoca embaixo dos torrões de cupim, próximo à represa onde meu pai criava os curimbas que ele pegava no rio Batalha.
- Qual bauruense que não conhece o rio Batalha?
Com as minhocas, pescava os lambaris para servirem de iscas para as traíras.
Arreei o animal que mais gostava, a burrinha chamada Andorinha, que por incrível que pareça só gostava de pastar no jardim da Eny. Por que será, hein?
Fomos para a famosa pescaria no rio Batalha. O lugar predileto era o famoso bueiro. Denominado como bueiro um trecho abaixo dos trilhos da estrada de ferro Paulista, no município de Agudos.
Era mais ou menos umas 16h. Começamos adentrar a trilha que possuía muito capim fino, aproximadamente uns oito metros de distância para chegar no giral (giral eram paus colocados sob as taboas para que pudéssemos ficar fora d’água).
Logo que começamos a bater as chumbadas na água, não demorou muito meu irmão pegou uma bela traíra, pesando mais ou menos uns trezentos gramas, e eu só pegava uns carás.
Percebi que só meu irmão estava com sorte na pescaria, não queria nem ir embora, pois já havia pego sete traíras enquanto eu, só duas.
Só que acabaram as iscas de lambaris e com minhoca só dava cará.
Resolvemos ir embora, meu irmão ficou muito triste. Ao sair do giral, passando pelo capim fino, com água até o joelho, ele deparou com uma cobra sucuri, deu um baita dum pulo para trás e gritou:
- Fernando!
Olhei para a cobra e vi que ela tinha uma rã na boca. Como ela estava entre o capim fino e a taboa (planta resistente), demorei algum tempo para conseguir agarrá-la.
Assim que consegui, peguei um palmo por trás de sua cabeça e a cobra se enrolou toda no meu braço.
Meu irmão gritou:
- solta isso.
Respondi:
- Vou tirar a rã da boca dela.
- Você está ficando louco, Fernando.
- Luís, caso eu consiga tirar a rã da boca dela, poderemos voltar a pescar, pois a rã é uma excelente isca.
Com muito sacrifício, consegui tirar a rã do poder da sucuri.
Neste momento, perguntei para meu irmão:
- Você tem uma garrafa de pinga no embornal?
- Sim.
- Passe para mim, rápido.
- Por que, Fernando, você quer a garrafa de pinga?
- Porque vou colocar na boca dela.
Ele me respondeu:
- E se eu tiver dor de dente?
Que mentira! Ele não tinha nenhum dente estragado. Era só motivo para ele poder beber.
Ele me deu a garrafa e eu coloquei uns goles de pinga em sua boca. Ela saiu correndo feito uma doida para o meio da taboa.
Voltamos para o local da pescaria, limpei a rã, fiz algumas iscas e continuamos a pescar as famosas traíras.
De repente, ao escurecer, ouvi um barulho na taboa, olhei para trás, sabe quem era? A cobra sucuri com mais duas rãs na boca, para trocar com mais pinga.
Fernando Laureano Afonso
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