08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Seria um recorde?

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 4 min

Aqueles que não acreditam no que estão vendo em fotografias, podem seguir a Duartina, procurar o Yamada e conferir o tamanho do pacu que ele fisgou no rio Paraná. Trancado a “sete chaves” em seu freezer, o peixe que pesou mais de 22 quilos é um verdadeiro troféu.

Kanji Yamada, 65 anos, é apaixonado por pesca e há 30 anos freqüenta as águas do rio Paraná, onde já pescou muitos dourados, piracanjubas, piaparas e pacus. Seu porto seguro é em Castilho, na divisa dos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Analisando o comportamento dos peixes, Yamada habituou-se a fazer da pescaria um verdadeiro ritual. “Sou muito paciente e sempre que eu perco um peixe volto para buscá-lo”, comenta. Segundo o pescador, esse pacu gigante já havia freqüentado seu anzol em uma outra pescaria, no mês de maio, mas conseguiu fugir. “Percebi que era um peixe grande, talvez um pacu, mas meu equipamento era leve. Resolvi que voltaria equipado”, lembra.

Em agosto, ele preparou com bastante carinho a sua tralha de pesca: carretilha Daiwa com 300 metros de linha japonesa (35 mm) e iscas especiais. “Eu faço uma massa cozida com ingredientes para dar o tempero”, diz o pescador, sem revelar o segredo da receita. Ele só dá uma dica: o queijo mineiro é bastante apreciado pelos pacus. Outro detalhe: a isca deve estar fresquinha, o pescador deve prepará-la um dia antes de usar.

Tralha e isca preparadas, seguiu a Castilho para buscar o seu troféu. “Agora ele não escapa.” E foi assim mesmo. Com o barco na água, pescando “na boinha”, pontualmente às 12h, Yamada sentiu o forte puxão e em seguida fisgou. “Um peixe pesado, que deu uns 40 minutos de briga. Soltamos o barco e fomos atrás dele”, lembra o pescador.

Em toda sua experiência de pesca, nunca havia visto um pacu que pesasse mais de 11 quilos, o que já é um grande exemplar. “Esse peixe levou 300 metros da minha linha. Foi preciso calma e trabalho para tirá-lo da água”, garante. Um dado importante para o pescador é o horário. “Normalmente pegamos o pacu pela manhã ou no final da tarde, nunca na hora do almoço. Acho que esse estava passando e resolveu conferir uma isca diferente”, brinca.

A briga com o peixe só fez o pescador ficar com mais vontade de pescar. Durante o dia, ainda fisgou mais três exemplares bem grandinhos: dois pesaram 11 Kg e o último 7Kg. É muita sorte para um pescador só, mas, segundo ele, há uma explicação para o fato. “O que está acontecendo é que em Rosana (barragem) está fechado e a água está subindo. Assim, sobem também os peixes maiores. Eu encontrei um excelente lugar, onde tem muito peixe grande”, comenta, sem divulgar o “mapa da mina”.

Pescador consciente

Kanji Yamada comenta sua preocupação com a ausência de algumas espécies nos rios brasileiros. “Já pesquei muito dourado, hoje é difícil encontrar, mas isso não é culpa de pescador. As barragens impedem a reprodução dessas espécies e não há reposição de alevinos”, comenta.

A construção das hidrelétricas para sanar as necessidades energéticas do País têm prejudicado a biodiversidade nos rios brasileiros e o repovoamento ainda é insuficiente. “Eu lembro, na década de 70, nesse mesmo rio Paraná, milhares de pintados morreram nas turbinas. O cardume estava subindo e foi impedido de continuar seu ciclo”, lamenta.

Ele acredita que o pescador é menor predador dos rios. “Eu, por exemplo, mesmo antes das exigências legais, sempre devolvi para o rio os exemplares pequenos, porque sabia que no outro ano poderia pegá-lo. E quantos peixes leva um pescador? Uma vez a cada quatro meses, pego quatro, cinco pacus.”

Além disso, Yamada lembra dos venenos que são levados para o rio. “Era muito comum o fazendeiro jogar veneno para matar o mato. Eu pescava no Coxim e, com as chuvas, o veneno seguia para o rio. Vi muitos peixes morrerem.”

Infelizmente ainda há pescadores que fazem questão de encher o freezer com peixes para anos, esquecendo-se do prazer da pescaria (quando o peixe acaba é preciso voltar para pescar mais!) e do sabor, que não é o mesmo após tanto tempo congelado.

O pescador aposentado Kanji Yamada ainda não decidiu o que fará com seu troféu, mas acredita que o exemplar ficará um bom tempo em sua casa. â€œÉ difícil saber o que fazer. Até hoje vem gente de vários lugares para olhar o peixão de perto”, diz. Agora, ele se prepara para voltar a Castilho e pegar um certo peixe que levou toda a sua linha, quando pescava piaparas, mas isso já é outra aventura.