Neste nosso mundo secularista, onde a corrida por uma vida economicamente mais privilegiada tende a nos engolfar - tal e qual ondas enormes em dia de mar raivoso – é comum sequer percebermos que existem pessoas ao nosso redor.
A pressa, os inúmeros afazeres que assumimos - muitas vezes por fuga ou porque estamos procurando, a todo custo, a nossa própria felicidade - acabam por nos transformar em pessoas insensíveis e individualistas.
E nesse ritmo vamos vivendo, dia após dia, sem olhar para a nossa volta e ver que o outro existe. Outro, que muitas vezes está ali, tão pertinho de nós, sedento por uma palavra amiga, um cumprimento mais carinhoso ou até mesmo um simples sorriso sincero.
A própria modernidade contribui para que vivamos assim, girando em torno do nosso próprio eu. Quando muito, abrimo-nos para as nossas famílias – de sangue – mas nos esquecemos de que fazemos parte, isto sim, da grande família humana.
E, cada um na sua, todos vamos competindo, ainda que inconscientemente e sem saber onde queremos chegar. Importa, apenas, que sejamos os primeiros. Temos necessidade de que todos nos admirem e tomem consciência de nosso valor.
As casas, fortemente gradeadas, como fruto já desse contexto individualista que nos cerca, por si só, dificultam o relacionamento com os vizinhos ou com os passantes anônimos. Cada morador tem o seu controle eletrônico do portão, guarda seu carro ao chegar e pronto... Está ‘seguro’ e longe de ser incomodado por quem quer que quisesse lhe dirigir uma palavrinha.
Nos prédios, a situação não é diferente. As pessoas se encontram, é verdade, porque têm que subir ou descer no mesmo elevador, utilizar a mesma entrada e os corredores comuns. Mas se evitam. É como se uma não visse que a outra está ali, ocupando o mesmo espaço seu. Às vezes, até arriscam um cumprimento, um bom dia pela manhã, mas é uma fala tão mecânica e sem qualquer envolvimento, que se apresenta incapaz de dar origem a qualquer relacionamento.
Que pena! Quanto desperdício!
Quantos anos de nossa vida em que poderíamos ter sido tão felizes. Corremos, incansavelmente, atrás da felicidade, sem conseguirmos perceber que ela estava dentro de nós mesmos.
Mas sempre é tempo! Podemos começar agora. Podemos nos tornar pessoas abertas, livres de qualquer preconceito. Pessoas voltadas para o outro.
Será, por exemplo, que eu conheço bem os meus colegas de trabalho? Meus familiares? Meus vizinhos?
Que tal lançarmo-nos nessa aventura? Olhar à nossa volta e ver que o outro existe? (A autora, Ana Maria Marcondes Cesar, é pedagoga e palestrante para empresas)