11 de julho de 2026
Economia & Negócios

No varejo, produtos rompem barreira

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 5 min

O empobrecimento do poder de compra do real se torna mais explícito no supermercado. Produtos que há até um ano poderiam ser adquiridos em troca de uma cédula de R$ 1,00 ou um punhado de centavos, agora exigem mais dinheiro.

De acordo com o levantamento mensal de preços feito pelo Data-ITE, ligado à Instituição Toledo de Ensino (ITE), o quilo da farinha de trigo era encontrado em Bauru a um preço mínimo de R$ 0,96 em agosto do ano passado. No mesmo mês de 2002, não sai por menos de R$ 1,08. Uma diferença pequena - R$ 0,12 -, mas que representa a quebra da barreira do R$ 1,00.

Outro item da cesta básica que passou do “limite imaginário” da cédula do beija-flor foi a dúzia de ovos, que aumentou cerca de 45%. De R$ 0,75 em agosto de 2001, no mês passado o preço mínimo encontrado em Bauru foi de R$ 1,35.

De acordo com o economista Reinaldo César Cafeo, que coordena a pesquisa, desde julho de 1999, quando o levantamento começou a ser feito, a cesta básica se manteve na média dos R$ 140,00. Nos dois últimos meses o valor disparou, chegando a R$ 157,79. “A barreira histórica da cesta básica também foi rompida”, diz Cafeo.

Para o consumidor, os preços na época do real forte são apenas boas lembranças. “Toda vez que venho ao supermercado eu levo menos coisas e fica um pouquinho mais caro”, lamenta o aposentado Manoel Soares dos Santos, 58 anos. “Com R$ 1,00 eu não consigo mais comprar nada, só se for um pé de alface”, brinca.

A dona de casa Clorinda Santos, 53 anos, declara que está cada vez mais difícil comprar algo por menos de R$ 1,00: “Às vezes, quando tem promoção, ainda dá para achar alguma coisa”. Para ela, um bom exemplo do enfraquecimento do seu poder de compra é o óleo de soja. “A lata de óleo custava bem menos de R$ 1,00, e hoje já está bem mais que isso”, observa.

“Antes eu comprava o pão e o leite do café-da-manhã por R$ 1,00. Hoje só dá para comprar o pão, e olhe lá”, compara a dona de casa Marlene Pantaleão Ponciano, 55 anos. Na opinião dela, para encontrar mercadorias a menos de R$ 1,00, só pesquisando muito ou aproveitando as promoções.

O leite, por exemplo, Marlene conta que costumava pagar menos de R$ 1,00 até há três meses, mas hoje o mínimo é R$ 1,15. Quando é possível, diz, a opção é esperar a promoção que o supermercado que freqüenta faz às terças-feiras.

O marido dela, o encanador Anastácio Porciano, 59 anos, completa: “Com R$ 1,00 às vezes dá para comprar um guaraná que está em oferta, mas é um desses que inventaram aí”, ressalta.

Nas ruas, o salgado é um dos itens que não “respeitam” mais a barreira do R$ 1,00. No estabelecimento de Francisco Alberto De Bernardis, presidente da Associação das Empresas do Calçadão (AEC), o quibe e a coxinha, que custavam R$ 1,00 até o ano passado, agora são vendidos por R$ 1,30 e R$ 1,20, respectivamente.

Além do aumento médio de 40% do trigo, em função do dólar, Bernardis atribui às tarifas públicas a necessidade de subir os preços e, mesmo assim, absorver parte dos aumentos em sua margem de lucro. “Energia e gás aumentaram terrivelmente”, diz.

Por outro lado, quem não é tão dependente das tarifas e de funcionários consegue fazer promoções atrativas. A comerciante Maria Aparecida Silva abriu há dois meses uma banca de salgados dentro de uma casa lotérica, na rua 1.º de Agosto. Sua oferta é “salgado + suco por R$ 1,00”.

“O pessoal gosta. Elogia bastante, come bastante”, conta Maria Aparecida. “A maioria prefere pegar a promoção, porque já fica como almoço. Com R$ 2,00, dá para comer dois salgados e dois sucos”, completa.

Cafezinho

A xícara de cafezinho, que chega a custar R$ 2,50 em São Paulo, se mantém dentro do limite do R$ 1,00 em Bauru na maioria das casas, apesar do aumento de quase 20% na saca do café. Em uma franquia do setor, a unidade localizada no Terminal Rodoviário comercializa o café expresso por R$ 1,00, preço que se manteve em R$ 0,90 durante três anos, segundo a gerente Adriana Aparecida Carlos.

No Calçadão, onde ela também é gerente, o cafezinho sai por menos: R$ 0,80. “Se eu faço por R$ 1,30, o pessoal vai no bar ao lado e toma café de coador a R$ 0,40”, declara Adriana.

Para quem gosta de café, o preço não é considerado alto. “Até R$ 1,00 o valor é justo, não altera tanto. Até facilita o troco”, diz o empresário Marcos de Azevedo, 43 anos.

O comerciante William Abdo Arrage, 47 anos, pondera: “O preço final do café no Brasil é um dos mais baratos do mundo, mas para o poder aquisitivo do brasileiro, ele se torna caro.”

O vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, faz um cálculo para mostrar a distância entre o produtor de café e o consumidor final. Uma saca de 60 quilos de grão verde produz 48 quilos de café torrado, o suficiente para 5.760 xícaras. Com o café a R$ 1,00, é como se fosse pago R$ 5.760 por saca, que na verdade custa R$ 100,00.

“A matéria-prima só é responsável por 18% no preço do cafezinho. O resto são todos os outros custos, como embalagem”, revela Lima Verde. E conclui: “A oscilação da matéria-prima tem muito pouco a ver com o produto final, nesse caso.”