Apesar de ter o direito ao transporte gratuito assegurado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), muitos estudantes do ensino fundamental em Bauru ainda precisam percorrer um longo caminho para chegar à escola todos os dias.
O problema pode ser observado nos bairros mais carentes, como Pousada da Esperança 1 e 2 onde, de acordo com estimativas dos moradores, mais de 50 crianças enfrentam o problema. “Na época de chuva, meus filhos nem vão à escola, pois não têm como chegar láâ€, reclama a dona de casa Cleide Pereira Ferreira.
Ela até tomou uma decisão drástica no último mês. Decidiu tirar a filha, Francieli Aparecida Ferreira, 13 anos, da escola. “Já faz umas três semanas que eu não estou deixando ela ir à escola, pois fiquei com medo de acontecer alguma coisaâ€, diz Cleide .
Os moradores da Pousada da Esperança não contam com escola de ensino fundamental de 5.ª a 8.ª série no bairro. Os estudantes dessa faixa escolar têm que procurar vagas na Escola Estadual Carlos Chagas, na Vila São Paulo ou na Escola Estadual Edison Bastos Gasparini, no Núcleo Gasparini.
O presidente da Associação de Moradores do bairro, Natalino Davi da Silva, diz que já requisitou ônibus escolar para transportar as crianças, mas que não foi atendido. “A Secretaria Municipal de Educação diz que não tem verbas para levar as crianças para a escolaâ€, diz.
Já a titular da pasta, Isabel Campoy Bono Algodoal, salienta que não está a par da situação e que, pelo que ela sabe, todos os estudantes do ensino fundamental que requisitaram o transporte foram atendidos. “Os diretores de escola é que detectam a necessidade de transporte e fazem a requisição para a secretariaâ€, explica.
De acordo com Celso de Alcântara, diretor da escola Edison Bastos Gasparini, o transporte não é oferecido porque os alunos moram nas proximidades do estabelecimento de ensino. “Os alunos da Pousada 2, principalmente, fazem parte do setor de atendimento da escola e não necessitam de transporteâ€, afirma.
Questionado sobre o perigo do trajeto que as crianças enfrentam para chegar até a escola, Alcântara diz que realmente o caminho é complicado. “A prefeitura é que deveria tomar providências com relação a isso. Não tem como colocar ônibus para esses alunosâ€, destaca.
Ele diz ainda que o Estado faz a sua parte, abrindo vagas para os estudantes. “O Estado abre a vaga, mas não pode tirar o aluno da casa dele. Ele tem que vir pelos seus próprios meiosâ€, frisa.
Lama
As dificuldades para chegar até a escola acabam atrapalhando o rendimento dos alunos na sala de aula. A dona de casa Maria Cleusa Pereira de Freitas diz que o filho dela, Thiago Pereira de Freitas, estudante da 8.ª série da Escola Estadual Edison Bastos Gasparini, reclama muito todos os dias na hora de ir para o colégio. “Na época de chuvas, ele até falta na aula porque não tem condições de chegar. É muita lama. Além disso, a distância é muito grande e o menino chega cansado na escolaâ€, diz.
O vigia Lázaro Aparecido Cândido também tem um filho na mesma escola. Ele conta que o menino estuda de manhã, o que diminui o grau de preocupação, já que a criança não precisa atravessar a vala no escuro. Mesmo assim, destaca que o fato de morar longe deixa o garoto muito chateado. “Ele não estuda com prazer, reclama todos os dias para ir à escola e diz que queria estudar em outro lugarâ€, salienta.
A maioria das crianças dos bairros Pousada 1 e 2 freqüentam escolas longe de casa. Quando não vão para a escola do Núcleo Gasparini, elas têm de estudar na da Vila São Paulo ou do Núcleo Nova Bauru.
Esta última foi inaugurada recentemente. Trata-se da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Professor José Romão, que atende alunos da 1.ª a 4.ª série. As mães e os alunos aprovaram a escola, mas lamentam a restrição no atendimento, voltado apenas para o antigo primário. “Seria muito melhor para a minha filha estudar na Emef, mas lá ainda não tem a série que ela está cursandoâ€, ressalta Cleide, que tem dois filhos matriculados na escola municipal.
De acordo com a secretária municipal de Educação, Isabel Algodoal, a idéia é estender o ensino até a 8.ª série a partir do ano que vem. “Nós já realizamos o concurso para a contratação de professores e estamos esperando ‘sinal verde’ da prefeitura para poder contratarâ€, explica.
O casal Amauri Pereira e Lindalva Raimundo da Silva tem um filho estudando na Escola Estadual Carlos Chagas, localizada na Vila São Paulo. O menino, Ronaldo da Silva Pereira, 11 anos, enfrenta um caminho menos complicado para chegar ao colégio, mas reclama da distância. “Ele diz que é muito longe. Eu preferia que ele estudasse no Gasparini, se o trilho que leva ao bairro não fosse tão perigosoâ€, destaca a mãe.